quinta-feira, 4 de maio de 2017

OS TAMBORES

OS TAMBORES



Ele, trabalhador rural, estudou muito e tornou-se especializado em tratores. Mecânico, mas de vez em quando era recrutado para trabalhar a terra.

Até comprou uma fazendinha lá para as bandas dos ribeirões. Terra preta, boa para plantar tudo.

Resolveu pelo milho que estava com boa saída para rações e alta cotação no mercado.

Procurou um amigo que trabalhava com fotografia aérea e fez um mapa de sua fazendinha.

Alugou um trator do seu vizinho por alguns dias.

Separou o local e começou a aração. Entre altos e baixos, ia tudo muito bem.
Até que encontrou alguns cupins novos e resolveu ir com calma.

Já estava escurecendo e alguma coisa, parecendo com tronco de árvore fez um barulho diferente. Desceu, calmamente e observou um buraco com um tambor de 200 litros, de PVC, cor preta,  enterrado naquele local.

Antes de abri-lo resolveu retirá-lo do local, estava bem pesado. Foi preciso usar o trator. Com medo de poluição que poderia conter resolveu tomar todos os cuidados.

Colocou-o na camionete e levou para sede da fazenda. Nem pensou em abri-lo.
Continuou o trabalho com o trator e mais outro barulho esquisito, outro tambor. E mais outro e um último.

Levou tudo para a casa e já ia colocá-los num velho barracão, então resolveu abri-los.

Pensou numa coisa e deu outra. Achou que seria droga e era dinheiro.

Pacotes com notas de 100 e de 50 reais e até dólares. Muito bem embalados.
Quanto teria ali? Nem fazia ideia.

Pensou em conseguir uma máquina para contar, depois desistiu.

De onde viria aquilo tudo? Com todo este barulho sobre corrupção algum político ou traficante sentiram-se amedrontados e acharam melhor enterrar a fortuna.

O pequeno fazendeiro comprou quatro tambores de 200 litros da mesma cor daqueles que achou. Colocou adubo neles e nos outros cobriu o dinheiro com um plástico e também colocou um pouco de adubo em cada um. Deixou tudo naquele velho barracão.

O medo era tanto que não sabia o que fazer. Em casa nem um pio, sobre o assunto. Nada de falar sobre os achados.

No terceiro dia de trabalho apareceu uma visita. Conversa daqui, conversa de lá e andando nos arredores o visitante entrou no barracão e perguntou:

--Para que tanto tambor, Euzébio?

--É aqui que guardo adubo para as plantações e o barracão está muito velho, com goteiras por todo lado, então comprei esses para proteger da umidade. Pode ficar aí por mais tempo sem estragar.

Destampou e mostrou ao homem que sacudiu a cabeça e pensativo falou:
--Você tem cada ideia.

Joaquim foi embora e Euzébio voltou a pesquisar o terreno. Buscou as fotos aéreas e procurou indício de algumas escavações recentes.

Não encontrou mais nada. Só capim naquelas planuras. Arou até terminar a área que pretendia plantar e pronto. Semeou o milho.

Queria mais tempo para pensar sobre o que achou.

Depositar em banco nem pensar. Gastar, comprando imóveis, muito menos.
Tomou uma decisão: depois da colheita do milho pegaria tudo e mudaria para a Chapada dos Guimarães.


Manoel Amaral

MILAGRE DIVINO


MILAGRE DIVINO

O Senhor Raimundinho Nonato, morador naquelas paragens do Nordeste, onde há 30 anos não chovia.

Muito religioso, sempre pedindo um milagre vindo dos céus para poder plantar o seu milho ou a mandioca para sobrevivência.

As vaquinhas morrendo uma a uma naquele pastinho onde se via como alimento só aquelas palmas torcidas, secas, pela falta d’água.

Duas filhas, uma de 15 e outra de 22 anos. Namorar por ali era muito raro, moravam longe da cidade.

De repente a garota mais nova começava a vomitar quando via a comida corriqueira. Queria comer outras coisas difíceis de conseguir por ali.

Cochichou com sua irmã mais velha que o seu “chico” não vinha há meses. Fazia referência a sua menstruação.

Os peitinhos estavam aumentando, sentia fadiga e cansaço. Andar ao sol não podia.

A barriga estava ficando inchada e ia frequentemente fazer xixi.

Algumas manchas na pele, muita ansiedade e irritação. Estava sempre brigando com a irmã.

A adolescente causou comoção na família quando anunciou a sua gravidez afirmando que é virgem e que não sabe como foi que isto aconteceu.

O pai da garota rezou 24 horas seguidas de joelhos para agradecer o “Milagre Divino”.

Algumas pessoas do povoado foram até o local e acenderam velas.

A irmã mais velha olhou o quadro da Virgem na parede e falou:
-- Não acredito muito nesta história de virgindade, pois Maria só tem uma.


Manoel Amaral