segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

ZÉ CACHACEIRO

ZÉ CACHACEIRO

“Mais vale um bêbado conhecido do que um alcoólatra anônimo."

Zé Cachaceiro ou Zé Pinguço, como era mais conhecido, desde os tempos de menino, já conhecia o gosto da “pinga”.

Não adiantava o pai falar que aquilo não prestava, ele conhecia, era fabricante da “danada”, Zezinho continuava a entornar “aquela-que-passarinho-não-bebe”.

Se chovia ou no frio, tomava a “melindrosa” para esquentar, se fazia calor usava a “cristalina” para refrescar.

Uma vez, quando choveu muito, quase morreu afogado num buraco de enxurrada, só porque estava com a da “cabeça”, no estômago.

Ele vivia de boteco em boteco provando umas e outras, nunca se esquecia de começar com a “abrideira” e encerrar com a “Zuinga”.

Em festas de aniversário, em casamentos, bailes; lá estava ele tomando as suas “águas de setembro”.

Bom pai ele era, mas não se esquecia de passar sempre no Bar Bicha, para secar mais uma “água ardente”.

De copo em copo e no corpo a corpo diário, lembrava sempre da “caninha”.

Se era de dia, à noitinha, ou mesmo de madrugada, ele levantava e tomava uma “canjibrina”.

Os amigos o convidavam para mais um “sumo de cana” e ele não fazia de rogado: – Traga logo esta “sinhazinha”.

Faziam uma aposta para ver quem bebia mais e Zé Cachaceiro lá estava, sempre na frente, consumindo as “aninha, azougue, azuladinha, azulzinha, bagaceira e baronesa”.

Pinguço como era não enjeitava nem a “bicha” (no bom sentido).

Tinha um arsenal em sua cabeça, os mais esquisitos: “bico, boa, borbulhante, boresca, branca, branquinha, brosa, brozinha, cambraia, corta bainha, cândida”.

Mas no Bar Bosa repetiam outros sinônimos bem interessantes: “canguara, canha, canjica, catuta, caxaramba, caxiri, cobreira, corta baínha, cotréia, cumbu, cumulaia, danada, delas-frias”

Já no Bar Tolomeu discutiam os seguintes: “dengosa, desmacha-samba, dindinha, dona branca, elixir, espírito, engasga-gato, esquenta-por-dentro, filha-do-senhor-de-engenho, fruta, girgolina, gramática, grampo, homeopatia.”

O Zé continuava tomando “suor de alambique”, até que um dia foi parar no hospital da cidade. O diagnóstico não era dos melhores: o fígado estava inchado, os rins muito abalados. Nem tinha cor de gente, um amarelão sem fim.

Na volta para casa, no primeiro bar recebeu a listagem de um amigo.
Que também fazia coleção de sinônimos da palavra cachaça, que nem o Zé. A relação dele era grande: “dengosa, dindinha, dona branca, elixir, engasga-gato, espírito, esquenta-por-dentro, filha-do-senhor-de-engenho, fruta, girgolina, gramática... “

É que ele viajava muito e em cada cidade tinha o cuidado de anotar tudo relacionado com a pinga.

Atrás da porta da cozinha, escrito à lápis uma lista: “grampo, homeopatia, já-começa, januária, jesebita, jimjibirra, joça, junça, jura, legume, limpa, linha branca, lisa, maçangana, mandinga, manhosa, mãe de Luanda, mamãe-sacode, mandureba, monjiprina, marafo, maçã-branca, montuava, morrão, morretiana, óleo, orantanje, panete, parati, patrícia, perigosa, pevide, piloia, pinga, piribita, porongo, prego, pura, purinha, puríssima, Roma, remédio, restilo, retrós, roxo-forte, samba, sete virtudes sinhaninha, sipia, simba,  supura, tafiá, teimosa, terebentina, tinguaciba, tiquira, tiúba, tome-juízo, uca, xinapre, zuinga". E numa mesinha da sala um Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, organizado por Hildebrando de Lima e Augusto Barroso em 9a. edição de 1951, Editora Civilização Brasileira, aberto na letra “C” e a palavra Cachaça assinalada em vermelho.

Passado alguns dias alguém chegou em casa avisando que o Zé havia morrido de tanto beber.

A viúva inconsolável foi despedir-se pela última vez e notou que uma de suas mãos estava fechada com qualquer coisa dentro. Com esforço conseguiu retirar um pequeno papel onde estava escrito: ”imaculada.”

Foi o último nome que disseram ter vindo do nordeste.


"Carpe diem. Beba!"
Aproveite o Dia. Beba !


Manoel Amaral 
Se quiser conhecer nomes curiosos de cachaça: http://mulher.terra.com.br/bebidas-com-nomes-curiosos/