domingo, 14 de dezembro de 2014

HISTÓRIA DA VOVÓ

Exercício a seis mãos: pai e avô, filha e neta.



  Em uma casa bem velha, que ficava na capital de Minas Gerais morava uma idosa de mais ou menos 90 anos. Toda enrugada e gordinha, ela tinha um móvel somente para ela: sua poltrona de veludo vermelho. Era seu santuário, ninguém, além dela, sentava-se lá.

Um dia frio de inverno, a velha se agasalhou com uma blusa bem quente, se sentou em sua poltrona e ligou a sua televisão dos anos 70 para assistir seu programa preferido: Música dos Anos Cinquenta.
Seu marido morreu há apenas cinco anos. O casal tinha duas filhas: Catarina e Marina. Eles também tinham netos, um de Catarina, e três de Marina. Suas filhas e netos iriam visitá-la hoje.

Assim que eles chegaram, deram abraços e beijos em sua avó. Após, se sentaram em um tapete próximo a poltrona da velha e esperaram ansiosos pelas deliciosas historias de sua infância. Sônia (a idosa) começou a falar com sua voz grave e rouca.

--Quando nasci, em 1923, minha mãe me chamou de aberração, porque ela queria um menino.
Sônia deu uma pausa e esforçou-se para lembrar-se mais.

--Cresci com roupas masculinas, tudo o que eu usava era azul, até as fraldas. Mamãe me dava comidas e bebidas azuis. Então, toda sujeira que eu fazia dentro daquela fralda era azul, menos os gases.

E Vovó continuou:

--Quando criança sofria com cvqtaei (coleguinhas valentões que te atormentam e irritam). Um dia estava sozinha no meu canto com roupas de menino, até que um garoto careca me pegou pela camisa e me esmurrou no estomago. Eu fugi, mas ele foi atrás. Corri até o campinho de futebol, depois fui para o centro da cidade, escalei a parede esburacada perto da lixeira. E ele continuava a me seguir. Corri para a minha casa, que era na roça e mesmo assim, aquele delinquente continuava na minha cola. Fui para o laguinho lá perto e nadei até a outra margem, subi numa árvore alta e sentei lá. Foi ai que eu percebi que ele tinha parado de me perseguir desde minha casa, quando minha mãe falou para ele que eu era “menina”.

--E então, o que aconteceu, vovó? - Disseram os netinhos aflitos.

--Foi bem no alto daquela árvore que eu vi uma fila enorme de formiguinhas se dirigindo a uma plantação, que estava ali perto. Comecei a segui-las e por um descuido, uma delas me picou. Senti os poderes na minha veia, o veneno me fazia suar bastante, foi então que percebi que agora era: A MULHER ARANHA!!!

--Vovó, essa história está mal contada...

--Ah, é! Isso foi um desenho que eu vi na televisão. Bom, comecei a seguir as formigas e ao chegar na plantação encontrei umas folhas estranhas e alguns cogumelos azuis muito bonitos. Peguei uns e voltei para casa. No dia seguinte, levei-os para escola e ao mostrá-los para meu amigo Janjão, seus olhos até brilharam:

    -- Soninha, onde você encontrou isso?

    -- Em uma plantação perto de casa...

    -- Cara, isso dá maior barato, vamos fazer chá!

--Não entendi muito bem o que ele disse, mas concordei com a ideia e depois da aula fomos para a casa dele fazer o tal chá. Ele disse que precisávamos fazer a medida certa, caso contrário, poderia ser perigoso. Tomamos o chá, que por sinal tinha um gosto horrível, e não aconteceu nada de imediato, até comecei achar que tinha sido perda de tempo. Mas passado alguns minutos, comecei a ver muitas manchas coloridas ao meu redor e uma musiquinha bacana começou a tocar...


--Que nem quando Alex, o Leão, de Madagascar levou um tiro de tranquilizante na estação de metrô, Vovó?

--Esse não é aquele programa de moda, Manda Gastar?!

--Não, esquece... Continua!

--Me senti como todos aqueles que frequentaram o Woodstock, só na paz... Morô?!

--KKKKKKKKKKKK, que gíria é essa, Vó?!

--Aprendi na televisão com os cantores de Rap. Continuando... Também vi dragões, duendes e fadinhas e todos conversavam comigo e me davam conselhos. Voltei pra casa super feliz. No outro dia, voltei na plantação para pegar mais cogumelos, mas os azuis tinham acabado. Porém, encontrei uns marrons e levei-os para a casa de Janjão. Fizemos o chá, tomamos e dentro de alguns minutos começamos a passar mal. Me deu uma baita dor de barriga e meu amigo desmaiou. Quando acordamos já estávamos no hospital, tomando soro. Eu de um lado e Janjão de outro. Médicos e enfermeiros comentavam no corredor:

    --Que pena! Tão jovens e já usando drogas. Este mundo está perdido!

Foi aí que a cidade inteira ficou sabendo que aquele menino, na realidade era uma menina e Janjão um bobão.

Maria Luíza Santos Amaral – Neta, 11 anos
Letícia Maia Amaral – Filha, 18 anos
Manoel Amaral – Pai e Avô, 71 anos

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