terça-feira, 8 de abril de 2014

O PERSONAGEM ASSASSINO




Aquele personagem fora criado há muito anos, parecia até filho do autor.

Tudo girava em torno dele. Tinha nome próprio, site, blog e e-mail, pai, mãe, tios e avós.

Faltava só carteira de identidade e CPF, mas isso também é demais.

O autor tinha que atender-lhe todos os pedidos. Um dia ele enviou-lhe uma história para publicar, escritas em papel higiênico. O autor reclamou, ele ainda xingou e falou que ia embora para sempre.

Mas não foi, ficou ali azucrinando a cabeço do contista.

Na luta diária com as letras ele sempre burlava o assunto e aparecia em primeiro lugar. Passou a figurar, nas crônicas, nas fábulas e até nas cartas íntimas da família.

Um dia o homem das letras achou que já era demais e preparou um plano diabólico para matá-lo.

Seria um enforcamento de vários personagens e no meio ele também seria enforcado.

Não deu certo, o dito cujo ficou sabendo da trama e viajou antes.

Em outra ocasião tentou afogá-lo, qual o quê, foi ele que quase matou o contista de raiva.

Tentou esquartejá-lo, mas nada, o velho homem das letras é que saiu com várias escoriações. Reclamar com quem? Com a polícia? Iam rir na sua cara!
Pensou, pensou e foi bolar outro plano: quando ele chegasse para entrar na história, tudo pegaria fogo, molhado que estava em gasolina, o computador e a impressora explodiriam.

Não adiantou nada, a HD não incendiou e só sobrou o seu texto.

Quem sabe se chamasse algum traficante, com mais experiência, conseguiria dar cabo neste maldito personagem.

O malvado homem das drogas exigiu pagamento adiantado e contou como seria a morte daquele que tanto afligia o contador de histórias.

Seria levado para o Rio de Janeiro, exatamente no dia em que o exército iria invadir a favela escolhida a dedo.

Este plano também foi por água a baixo, aconteceu exatamente o contrário: o traficante foi preso e morto na prisão.

Já haviam pensado em tudo e nada dava certo, mas o destino poderia ajudar num livro novo que o autor estava escrevendo e o personagem ficava de olho todo dia e aparecia sempre, sem ninguém solicitar a sua presença.

Aquele dia tudo estava preto, choveu demais, os vírus invadiram o PC e aquele criminoso personagem aproveitou e assassinou o Autor.

Manoel Amaral



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