domingo, 27 de abril de 2014

O DIA EM QUE A INTERNET ACABOU

O DIA EM QUE A INTERNET ACABOU



Capítulo I
O RAIO AZUL
"Muita luz é como muita sombra: não deixa ver."
(Carlos Castaneda)


Um lindo raio azul cobriu aquele céu cheio de nuvens brancas. Tudo parou de funcionar. Os aviões pousaram em locais improvisados, apenas os pássaros permaneceram no espaço. A energia elétrica desapareceu.

As águas do mar ficaram revoltas, alguns vulcões voltaram a jorrar aquela lava, derretendo tudo a sua frente. Algumas ilhas afundaram, outras apareceram, mudando o Mapa do Mundo.

Novas Ordens foram criadas, maneiras antigas ressuscitadas. Gostos e desgostos em discussão. As cidades ficaram quase vazias. Não tinham o que fazer por ali, sem energia elétrica. Os bancos voltaram a utilizar aquelas velhas máquinas Facit de calcular, resgatadas dos museus e porões.

As máquinas de escrever Ollivetti ou Halda ficaram valorizadas. Os papéis diminuíram e muito caros. Todos os rascunhos foram aproveitados. Papel carbono, para cópias, era raro no mercado. No comércio em geral, passaram a utilizar o jornal velho para embrulhar as coisas.

As feiras de verduras se tornaram grandes feiras de troca. Tinha de tudo, até relógio de pulso movido a corda.

Os celulares eram abandonados nas mesas dos bares e serviam de brinquedos para crianças. Tinha até um jogo premiava quem atirasse o seu mais longe, no meio do brejo. Um artista plástico criou uma casa só destes aparelhos e gabinetes de computadores.

As bebidas fortes como cachaça, que não dependia da energia elétrica para a fabricação, voltaram ao mercado. O açúcar saiu da praça e entrou a rapadura no lugar. O café até ficara mais gostoso. Saíram os pães, roscas; as padarias estavam vendendo apenas biscoitos de polvilho e bolos de fubá do legítimo moinho d’água.

Aos poucos, os carros foram parando, quando acabava a gasolina.
Aqueles mais modernos, nem chegaram a funcionar, por causa dos circuitos elétricos. Estava até engraçado, os carros antigos valiam mais que os novos. Os Jipes ficaram,  muito raros e caros, só os grandes fazendeiros os possuíam. Os antigos “Ferros Velhos” transformaram-se em “Ferros Novos”.

Criaram um óleo de mamona que fazia os veículos a diesel funcionarem perfeitamente, até os tratores.

Os jovens, agora sem internet, sem nada para fazer, sem shopping para visitar, foram plantar horta nos lotes vagos e acharam até divertido a nova distração. Os campos de futebol viraram currais para criação de ovelhas ou cabritos. Voltou o futebol de campinho de várzea.

Os astrônomos, ufólogos, jornalistas e outros correlatos foram plantar batatas ou fazer coisa melhor para sobreviver. Sobraram poucos cientistas, as profissões perderam o valor. Os professores estavam muito requisitados, mas o ensino era bem diferente.

(Continuará, se eu sobreviver...)

Manoel Amaral

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Escrito em setembro/2009
  








Capítulo II

JERICO

O termo “ideia de jerico”, seria uma má ideia. Ideia tola. 
Na Região Nordeste do Brasil, jerico é o mesmo que mula. 
Ou seja, seria o mesmo que ideia de burro, de mula.


O certo é que a comunidade de JERICO (sem assento no “o”) estava bem mais desenvolvido que muitos outros, então Osvandir resolveu ir para aquele local. Levou seu assessor, porque depois da luz azul, os escritores não tinham valor. Todos foram plantar ou colher cebolas. Outros mais rebeldes foram enviados para as plantações de canas, para combustível, no setor de capina. Só quem conhece sabe o sacrifício que é!

Viajaram cerca de 300 km e chegaram a terra prometida. Um portal de concreto na entrada, com letras grandes, JERICO. Poucas casas boas, a maioria simples e muitos barracões.

A casa do Prefeito, como sempre, era a maior de todas. Deveriam encontrar com um tal de Jeq,(pronuncia-se “Jeque”), o rapaz que estava sempre tomando decisões. Osvandir pensou logo em “Jegue”, aquele jumentinho, que também é chamado de Jerico. Seria por causa dele o nome da comunidade?

Ele mostrou para os visitantes o que já tinham conseguido sem auxílio da energia elétrica.

Monjolos, engenhos, moinhos, todos funcionando com a água. Algumas peças foram retiradas de aviões velhos onde a abundância de alumínio é maior.

Existia uma fundição de alumínio e outra de ferro, que não ficamos sabendo como era o funcionamento devido o sistema de segurança ser muito bem controlado.

Gostamos dos moinhos de vento, onde a energia eólica era transformada em energia mecânica, utilizada na moagem de grãos ou para bombear água.

Por estarem próximo ao mar, num local onde secara um lago, encontraram sal, estavam fazendo grande negócio com ele. Utilizavam os antigos sistemas de retirada. Vendiam o sal grosso ou em barra e já estavam preparando um moinho para o refino.

Tudo estava correndo as mil maravilhas se não fosse a grande quantidade de malandros que estavam sempre chegando e saindo do Comunidade de Jerico (sem acento no “o”).

Jeq era filho do Prefeito, uma pessoa boníssima, já bem velho. Os jovens do local tinham uma ocupação normal dos adultos. Ninguém ficava sem trabalho. Criaram até uma moeda própria, mas o comércio funcionava mesmo era a base de troca.

Osvandir ficou sabendo, conversando com alguns membros da comunidade, que Jeq sumira por uns tempos e ninguém soube direito por onde ele andara.

Procurara saber dele próprio por onde andara e só ficou sabendo coisas esparsas, o que aumentou mais o mistério.

Uns diziam que ele vira uma nave espacial lá no pasto da fazenda de seu pai. Outros foram mais incisivos e informaram que ele fora raptado por um disco voador.

Com estas informações contraditória, Osvandir resolveu convidá-lo para uma pescaria. Tudo preparado, barraca, lanterna, binóculos, facas, anzóis e minhocas.

Acontece que Jeq não era dado a ficar quieto, estava sempre em movimento, o que prejudicava a pescaria. Largaram tudo e foram conversar. Osvandir contou-lhe que já fora levado por um disco voador e mostrou-lhe os três pontinhos negros atrás de sua orelha esquerda, que sempre  acusava a presença de Óvnis.

Jeq ficou impressionado e quis saber outras histórias de sua viada.  Perguntou se ele passara pelo FBI e pela CIA. Osvandir fez um pequeno relato do que já tinha vivido e suas andanças pelo mundo procurando Ufos, mas nunca tinha trabalhado para aquelas entidades. Sabia muitos truques por eles utilizados, mas não chegara a frequentar o meio.

O jovem inquieto acabou confessando que esteve na guerra do Iraque e que fora contratado por empresas não muito confiáveis, para trabalhos temporários.

Os dois tiveram uma vida mais ou menos parecida, só que Jeq ainda tinha os pais e Osvandir perdera os seus quando ainda era criança.

Voltaram ao Comunidade, sem peixe nenhum, mas com várias informações de ambas as partes.

Estavam almoçando quando um rapaz veio correndo avisar que a comunidade estava sendo invadida por um grande número de famigerados bandidos.

(Continuará, se sobrevivermos)

Manoel Amaral
Setembro/2009

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Capitulo III

A TOMADA DE JERICO

"Gritou, pois, o povo, e os sacerdotes tocaram as trombetas;
ouvindo o povo o sonido da trombeta, deu um grande brado,
e o muro caiu rente com o chão, e o povo subiu à cidade,
cada qual para o lugar que lhe ficava defronte,
e tomaram a cidade" Js 6:20.

Os estranhos eram selvagens, atacavam em grupo e tudo destruía. Tocaram umas cornetas feitas de chifres de carneiro, como nos tempos do Primeiro Testamento.

Não sabemos se por milagre ou por dinamite, a verdade é que ao tocarem aqueles instrumentos, os muros e o portal de entrada da comunidade desabaram.

Aqueles bárbaros foram invadindo tudo e tomando conta dos alimentos.

Barulho se combate com barulho. Sem demonstrar nenhum medo, dois habitantes de Jerico seguiram para o meio do grupo e puseram a tocar, em som altíssimo, seus instrumentos (um pistom e um saxofone). Atraídos pelo som que não conheciam, eles foram para a rua principal. Um saiu tocando por um lado e o outro por outra rua, assim aqueles bárbaros foram logo divididos em dois grupos.

Com muito custo, com a ajuda das ideias de Jeq e da astúcia de Osvandir, aquele povo foi dominado e enviado de volta para sua região.

Após a partida deles, o muro foi reconstruído, bem como o portal. Tomaram a precaução de agora em diante, ficarem de sobreaviso para caso de invasão.

Jerico estava num lugar privilegiado, entre montanhas, não tinha campo de aviação. Não recebeu quase nenhuma visita de estrangeiros. Estava muito longe dos grandes centros. Por esta razão evitaram a contaminação pela gripe A. Os raros casos que aconteceram foram com pessoas que por ali passaram e seguiram em frente, levando aquele vírus maligno.

Noutras comunidades a Gripe Suína chegava e se instalava aproveitando a debilidade da população.

Porém após o Raio Azul, as coisas complicaram muito e outras doenças apareceram: varíola, catapora, gripe comum, piolhos, sarna e por aí. O pequeno Posto de Saúde estava cheio de pessoas com uma infinidade de sintomas. Cada grupo que chegava trazia um tipo de doença, que era debelado com muito custo.

Com a chegada de Osvandir, alguma coisa foi melhorada. A população foi devidamente informada sobre este novo vírus da Gripe. Os funcionários do Posto de Saúde queriam saber mais e foram orientados de acordo com vários prospectos que trazia na mochila.

Ali naquela Comunidade de pouco mais de 10.000 habitantes as necessidades eram bem menos que outros grandes centros.

Produção de alimentos até que existiam por todo lado, porque as terras não foram afetadas, mas o difícil era o transporte. Para uma viagem de 50 km gastava-se dois dias com o carro-de-bois. Às vezes as verduras e legumes estragavam com a viagem, sendo uma tremenda perda de tempo.

Por esta razão os comerciantes preferiam transportar a carne, os grãos e o sal.

Como Jerico já tinha resolvido muito sobre como moer os grãos (milho para o fubá), triturar o sal e tirar a casca de arroz e café, o seu comércio era muito grande com outras comunidades. Passaram até a fabricar linguiça, queijos, carne seca, gordura de porco, farinha, fubá, pó de café, óleo de mamona (combustível para veículos e lamparinas de iluminação) para remessa a outras localidades mais distantes.

Os problemas maiores eram os custos da segurança para remessa dos produtos. Os assaltos sempre constantes nas estradas impediam viagens sem planejamento.

Quando Osvandir e o seu grupo preparavam-se para partir uma estranha luz apareceu no céu, bem próxima dos moinhos de vento. Ficou girando, como se fosse um torvelinho. O povo ficou olhando aquele espetáculo raro.

De repente um telefone de orelhão começou a tocar e uma luz acendeu num poste...

Continua...

Manoel Amaral
Setembro-2009
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Capítulo IV

A VOLTA

“E tudo voltou como d’antes no castelo de Abrantes”
(Sábio Velhinho de Jerico)

O povo em polvorosa, gritando:
__ A energia elétrica chegou! Os rádios e TVs estão funcionando!
__ Mas o que estão falando sobre a estranha luz, perguntou Osvandir.
__ Nada ainda, respondeu Jeq.

A TV da sala da casa do Prefeito e a do bar da praça, estavam funcionando. Ora vinha a imagem de um militar, ora de um homem parecido com o Presidente.

A viagem do Osvandir foi adiada até segunda ordem. Precisava saber mais alguma coisa.

Foi com Jeq até a sua sala de trabalho e tentaram ligar o computador.
Só aparecia uma tela vazia e sem cor. Internet não estava conseguindo acessar.

Quando eles conversavam uma imagem apareceu na tela, que não parava de girar. Algumas letras foram completando o texto:

_________________________________________
A página não pode ser exibida

A página que você procura não está disponível no momento.
Talvez o site esteja passando por dificuldades técnicas ou
você precise ajustar as configurações do navegador.
_____________________________________________________________


Que navegador? Não tinha nenhum para usar. Mas qualquer coisa já estava começando a funcionar.

Os nerds de garagem já estavam bolando planos para novos programas.
Google não existia mais, nem yahoo, muito menos UOL e Gmail. Funcionava muito mal um tal de Yagoo...

Os programas do Bil Gates foram para o beleléu... Uma vantagem grande foi que os vírus desapareceram.

Alguns joguinhos, simplezinhos, já estavam funcionando.

Os nossos arquivos foram todos deletados. Alguns processadores de textos foram entregues ao público gratuitamente.

Só os Militares estavam usando a internet fluentemente. O povão dependia das Companhias de Telefonia, Satélites, um inferno sem fim...

Um grupo de programadores estava trabalhando rápido para colocar à disposição do povo uma série de programas.

Um buscador já funcionava a todo vapor: Busk. Um navegador também começava a dar as caras: Jangada. O melhor processador de textos até o momento era o ÁgilStar.   Neste campo de programação, os brasileiros estavam levando a melhor. Novos programas de e-mail: Carta e Recado.

Os blogs começaram a surgir, assim meio acanhados e os principais provedores de blogs eram: Valentepress, AsilBR. Todos os domínios passaram a ter números, ao invés de ponto com. O do Brasil era 666.

Os computadores estavam muito valorizados, porque a maioria foram abandonados e inutilizados. Senhor José, dono de grandes galpões de peças velhas de informática estava faturando bastante.

Foi aí que a China começou a vender aquelas porcarias bem baratinhas que todo mundo podia comprar. Os parentes de Bill Gates lançaram no mercado o Windows 3.0, limpinho, sem aquelas bobagens que pareciam árvore de natal, com presentinho dependurado por todo lado. Só processador de texto, mais nada. Pagava-se apenas uma pequena taxa de uso. O mercado reagiu, eles ficaram bilionários novamente.

As empresas fabricantes de anti-vírus, colocaram maliciosamente no meio, os seus vírus. O comércio eletrônico voltou a funcionar normalmente. Só o povo que estava um pouco atrasado com os assuntos da área.

O barateamento do CPU garantiu a aquisição de PC por muitas pessoas, o caminho seguido desde o ano de 2011 era o de simplificação.

Todos os programas eram “baixados” apenas para uso pessoal. Ninguém precisava mais comprar qualquer tipo de software. Estavam todos disponíveis na internet. Isto significa que os computadores eram usados apenas para a conexão. Ninguém precisava fazer dowload e nem comprar aquelas placas caríssimas.

Filmes? Vídeos? Fotos? Livros? Música? Estava tudo lá, bem guardadinho, como se você fosse procurar na locadora ou biblioteca.

A TV, o PC e o DVD finalmente estavam unidos num só aparelho.

Grandes espaços eram reservados na rede para os arquivos, cerca de 15 giga por pessoa física, para guardar o que quisesse, sem custo algum. Só as pessoas jurídicas pagavam um preço mensal.

Os Celulares começaram a gritar por todo canto e o petróleo do pré-sal, esquecido nas profundezas, voltou a jorrar e este país a funcionar. Funcionar?

“E tudo voltou como d’antes no castelo de Abrantes!”

FIM

Manoel Amaral

Escrito originalmente em setembro de 2009
www.afadinha.com.br



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