quarta-feira, 12 de março de 2014

O GAVIÃO REAL









Ele voou, voou e pousou. Com seus olhos pequenos e penetrantes, visou uma enorme floresta mais adiante. Árvores grandes, sem galhos e sem folhas.

Fugindo de queimadas, animais muito grandes para o seu sustento. Quadrúpedes que viviam berrando no meio de uma grama verde a perder de vista.

Foi aproximando-se daquela que poderia ser doravante o seu reino. Bateu as enormes asas com mais de dois metros de envergadura. Estava magro, mas quando vivia no seu habitat natural, as florestas, pesava mais de 5 quilos.

Visualizou uma estranha árvore, muito alta. Parecia de pedra, retangular, toda branca e com uns buracos quadrados. Uns maiores outros menores. Era a maior daquele local.

Pousou, observou. Alimento estava difícil. Voou novamente pelas redondezas e deparou no chão, um pequeno animal correndo.

Deu um voo rasante e conseguiu pegá-lo quando entrava num dos buracos de outra árvore menor. Arrastou-o até um canto sossegado e fez a sua primeira refeição em muitos dias. Só uma coisa preocupou-o, nunca viu um animal tão peludo e branquinho.

Uma peça vermelha que adornava o pescoço do pequeno animal levou consigo até o alto da sua árvore preferida.

Já a tardinha deu um giro nos arredores. Pequenas aves entravam e saiam de um dos buracos da sua árvore. Olhou bem e notou que elas davam apenas para aperitivo. Pegou uma, em pleno voo, levou-a até ao seu novo lar e devorou-a. Gostou.

No dia seguinte, além de outros animais, como o primeiro, saboreou mais uma daquelas pequenas e barulhentas aves. Agora elas já estavam mais ariscas. Com a sua chegada saiam em revoada.

Foi vivendo ali. Um dia comia mais outro dia menos e tudo estava bem.

Quando fazia uma pesquisa numa matinha das redondezas notou algumas aves um pouco maiores que as suas vizinhas. Fez uma visita ao local e conseguiu pegar uma, notou que era marrom, parecida com as outras, porém um pouco mais pesada.

Na falta dos animais maiores pegava duas daquelas aves e levava para o seu aconchego, devorando-as como almoço. No fim da tarde caçava uma daquelas pequenas por ali mesmo. Estava tudo muito fácil. Muito tranquilo.

Nesta selva de pedra, tudo pode acontecer. Lá do alto viu uma presa fácil. Um pequeno macaco, com pelo apenas na cabeça. Pensou em variar de refeição.

Achou aquele animal meio estranho, mas estava ali perto daquelas árvores resolveu atacá-lo num brilhante vou rasante.

Assim que cravou as suas garras na presa, esta soltou uns sons desconhecidos. Definitivamente não era de macacos que conhecia. Muito branco, parecia ser filhote. Não andava direito ainda. De repente os pais apareceram com pedaços de paus e aquele rei da mata teve que soltar o pequeno animal e voar rápido, apesar de uma asa danificada, com um ferimento que sangrava muito. Alcançou o seu recanto com muito esforço.

Passou um dia sem comer, não conseguiu voar direito. Andou por aquele buraco sem fim, até encontrar aquelas avezinhas menores, deu um salto sobre uma que ainda não voava e a devorou num instante. O gosto não era o mesmo das mais velhas, mas fazer o que, ali não tinha mais nada para comer.

Passaram-se os dias e numa manhã sem sol, localizou uma enorme lagarta andando sobre duas linhas compridas e atravessadas por paus. No mesmo momento que olhava para baixo pode notar que uma daquelas aves mais gordinhas também passava perto daquele monstrengo.

Desceu em voo cego até aproximar-se da ave, mas o seu cálculo não foi dos melhores, bateu de cabeça na lagarta de aço. Morreu na hora.
       
Mais tarde Carlinhos passou com seu pai pelos trilhos da ferrovia de minério e achou no chão um lindo pássaro, empolgado disse:
–Pai, posso levar esta ave para fazer chaveiro de suas garras?
–Pode. Este aí é o Gavião Real, não sei por que está por esta região, o seu habitat natural é a floresta.

Manoel Amaral
Nota do Autor: Este texto foi premiado pela Academia Divinopolitana de Letras - ADL

Um comentário:

  1. Muito bom, Manoel, parabéns merecidos, só que essa porra de gavião era meio "ceguinho" , não era?

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