sexta-feira, 8 de novembro de 2013

AS 12 APOSENTADORIAS

O VELHINHO E AS 12 APOSENTADORIAS

Imagem Google

Ele achava que tinha pensado em tudo. Agora ia viver muito bem e viveu.

Uma aposentadoria para cada mês do ano, uma foto diferente, um nome diferente e consequentemente uma carteira de identidade também de outra cidade, ou preferencialmente de outro estado.

Foi o que ele fez, percorreu vários estados e em cada um procurou um cartório, dizendo-se do interior e que nunca tinha sido registrado. De posse da Certidão de nascimento ia logo para uma loja de fotografia e fazia a sua fantasia própria.

Na primeira, ele era mineiro, tratou logo, segundo a tradição, de arranjar um velho chapéu de palha, terno de brim bege e camisa branca. Providenciou também um bigodinho de roceiro, daqueles bem fininhos, de amargar. Um par de botinas velhas completou o personagem.

A foto ficou uma beleza, quer dizer, uma feiura danada. Mas estava pronto o seu primeiro personagem.

O segundo foi um paulista, chapéu de lebre, abas curtas, terno listrado e camisa de um azul claro, sem bigode e sapato de bico fino.

O terceiro foi o Rio Grande do Sul, um chapéu de lebre, abas compridas, lenço vermelho no pescoço, um bigodão, dente de ouro e algumas alegorias lá do sul. Passou um pouco de vermelho nas bochechas para provar que era castigado pelo frio.

O quarto, do Rio de Janeiro,  já era de camisa listrada, tênis branco, short, cabelo penteado para trás e óculos escuros.

O quinto foi um nordestino muito bem caracterizado, chapéu de couro de cabra, camisa aberta ao peito, calça jeans e bigode também fino. Um facão na cintura e um relho do outro lado.

E o sétimo? Arranjou uma caracterização de Goiás, chapéu aba grande, enrolada para cima, como nos cantores de Sertanejo. Cinturão todo enfeitado com peças cromadas. Bota de bico fino,  camisa de manga comprida e calça jeans.

Em Mato Grosso arranjou uma vestimenta quase igual a de Goiás, diferenciando apenas nas cores e no lugar de Bota estava usando um chinelão de couro cru, era o oitavo personagem.
Partiu para Bahia e arrumou umas roupas de baiano folgado, enrolou um pano vermelho na cabeça, camisa branquíssima, e umas calças largas, também brancas, um sapato branco, sem salto. Era o nono cidadão que pousou para foto.

Em Pernambuco, como o calor era muito, arrumou um chapéu de palhinha, tipo Panamá, uma camisa colorida e um confortável par de sandálias. Chegara ao décimo, que conseguiu enganar o INSS.

Agora tinha mais dois, um ele tirou a foto de boné e óculos com uma camisa com listras verticais.

A última ele fez um velhinho de barba branca e um chapéu furado e bem surrado, com camisa também até rasgada, sentado num caixote.

Estava montado o sistema de arrecadação daquele velhinho esperto.

Doze nomes, doze fotos diferentes, doze documentos falsos, doze contas bancárias e doze aposentadorias.

O resto foi fácil, pegou estes caras que estão ávidos por uns trocados e que sempre sabem o caminho mais fácil para encaminhar os papéis lá na burocrática agência do INSS.

Foi entrando com os pedidos de aposentadoria por idade, uma em cada mês, começou logo em janeiro para não se atrapalhar.

O difícil foi aparecer no banco com a carteira de identidade do mês. E o traje da foto para não despertar nenhuma suspeita do banco.

Mas como ele recebia as aposentadorias mensais, uma em cada cidade teve que abrir contas em doze bancos e deu preferência a estes de Associação Rural, e que por sinal são os mais assaltados hoje em dia.

Viveu folgadamente por mais de cinco anos recebendo doze aposentadorias, isto é doze salários mínimos mensais.

E ainda passeava por todo lado onde tinha que receber as granas mensais.

Mas tudo tem um fim, a Polícia Federal estava passando um pente fino no INSS, denominada de “Operação pega Velho” e que consistia em por na cadeia todo mundo que fraudava aquela instituição. No Nordeste foram muitas aposentadorias canceladas e em todos estados do Brasil.

Um investigador deu de cara com o velhinho fraudador por acaso, com cruzamento de dados da Receita Federal, por questão de idade.

O velhinho colocou em todas as suas aposentadorias a mesma idade, setenta anos e também a data de nascimento sempre foi a mesma: 12 de dezembro.

Pega um dado aqui, outro acolá, verifica uma fotografia e nome do pai e mãe, estava pronto o balaio de gato em que ele se meteu: sempre colocou a mesma mãe e o mesmo pai nas carteiras de identidade.

Foi chamado ao INSS para uma conversa sobre dados faltosos numa das pastas e foi feito o fragrante.

Para completar as suspeitas ele entregou uma carteira diferente da que estava no processo. Foi um azar danado, era sexta-feira 13, ele tinha chutado um gato preto na rua e passado debaixo de uma escada. E para por fim nas crendices, a noite ouviu uma coruja cantar numa velha casa perto da sua.

Estava armado o golpe para prendê-lo. O diligente investigador olhou para sua cara e para as duas fotos, a do processo e da carteira que apresentou: era o mesmo homem, apenas com trajes diferentes. Pronto! Tudo fora por água abaixo.

Ele não foi preso porque morreu no outro dia, antes do amanhecer.

Manoel Amaral
www.casadosmunicipios.com.br


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