sábado, 20 de julho de 2013

OS VELHINHOS DA MANIFESTAÇÃO

OS VELHINHOS DA MANIFESTAÇÃO

         “Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão.” Eça de Queiroz

Aqueles velhinhos que na maioria assistiram pela TV, em 1984, a manifestação Diretas Já, quando mais de um milhão de pessoas lotou a Praça da Sé na capital paulista, agora estavam na sua manifestação.

Eles vinham descendo a rua, a intenção era passar defronte a Prefeitura para protestar, mas faltaram forças,  foram parar na Praça.

Uns já cansados, procurando água, amparados pelos netos, outros piores ainda, botando água pela boca.

Alguns empunhando cartazes ultrapassados como: Fora Getúlio! Fora Collor! Fora Lula!

Livros foram deixados pelo chão. Cartolinas com vários pensamentos e até aquele que dizia:
“Somos ricos, temos:
Prata nos cabelos;
Ouro nos dentes;
Pedras nos rins;
Cristais na vesícula;
Açúcar no sangue;
Chumbo nos pés;
Catarata nos olhos;
Ferro nas articulações
Água nos joelhos e
Uma fonte inesgotável de gás natural...”

E não faltava gás mesmo, foi um barulho geral.

E outros cartazes diziam o seguinte:
“Velhice é quando o trabalho já não dá prazer e o prazer começa a dar trabalho.”

“Não é só pelos 20 centavos, o povo percebeu que os privilegiados continuam mandando e a impunidade campeando.”

“Não somos imbecis, queremos nossos direitos.”

“Joaquim Barbosa para Presidente.”

“Vamos acabar com tantos ministérios.”

“23 mil, para que tanto cargo de confiança?”

“Queremos o trem bala!”

“Redução tarifa celular.”

Tinham de tudo nos enunciados, porém eles tropeçaram nas pedras e escorregaram nos lixos e sem local para tirar a água dos joelhos sentaram logo nos bancos da praça.

A reunião começou, alguns estavam dormindo, outros lendo papéis velhos.
E não faltaram protestos. O presidente dizia que era preciso ter tolerância para alguns assuntos.

Uns poucos não concordavam e afirmavam que era preciso os mais velhos protestarem para dar exemplo para os mais novos.

Lá fora o mundo fervilhando e ali todos discutindo abobrinhas!

Um deles até falou direto e reto, achando o que o assunto fosse música:
-- Bem disse ao velho Caubi Peixoto: CONCEIÇÃO, ninguém sabe, ninguém viu...

Encerrada a reunião todos foram convidados para o Chá das cinco, no bar da esquina, mas na realidade foram tomar o seu remédio para artrite, gota, coração, diabetes, bronquite crônica, mal de Alzheimer e outras demências.

Manoel Amaral
www.afadinha.com.br




quinta-feira, 11 de julho de 2013

O JOVEM CANDIDATO II
"No meio de um povo geralmente corrupto a liberdade não pode durar muito."
 Edmund Burke

Não precisava nem contar os votos, todos sabiam que aquele candidato ia ganhar mesmo, a chuva de votos foi tão grande que ninguém acreditou. Ele foi eleito com mais de 80% dos votos. Os outros candidatos pegaram uns 15% e 5% para os votos nulos ou brancos.

A oposição não conseguiu fazer quase nenhum candidato.

Eleito e tomado posse, o jovem presidente foi logo tomando as providências para fazer um bom governo.

Primeiro diminuiu o número de Ministros. Convidou só homens gabaritados para os cargos e não esqueceu os pequenos partidos.

A primeira medida que tomou foi um alvoroço total: foram abolidos todos os incentivos fiscais e bolsas.

Agora as empresas deveriam competir com os produtos internacionais.

Os bolsistas deveriam fazer o mesmo, arranjar um emprego para pagar os estudos.

Outros benefícios de qualquer espécie foram acabando. Os que vivam na mamata, sugando os cofres da nação, foram ficando preocupados.

As ONGs receberam uma comunicação que para receber novas verbas federais deveriam comprovar o uso das anteriores.

A metade fechou, espontaneamente, as portas. Não tinham meios de comprovar todas as despesas. O dinheiro público tinha ido para o ralo.

Era tudo tão prático que diminuiu as saídas e aumentou as entradas de dinheiro.

Alguns impostos foram abolidos e outros tiveram as alíquotas rebaixadas, isto seria o novo incentivo para todos, não para determinados grupos.

O maior problema foi quando ele resolveu fiscalizar as obras das grandes empreiteiras, negar alguns empréstimos para grandes empresas e fiscalizar as licitações marcadas.

As empreiteiras, os canais de TV, as grandes revistas, os grupos sugadores trabalharam em surdina e começaram a montar um esquema para derrubar o jovem Presidente.

Pegaram um motorista que trabalhava no grupo presidencial, uma faxineira, montaram um falso filme sobre sexo e suborno.

Coitado do político, as manchetes das revistas e jornais só publicavam aquilo.
O povo é ingrato, é como folha de bananeira, vira de acordo com o vento. Não esperaram o resultado, o condenaram antes de o processo terminar. Foram todos contra ele.

Foi retirado do governo através de Impeachment. 

Grandes cartazes foram espalhados por todo lado:O povo coloca o povo tira.”  

Os canais de TV filmavam uns dez manifestantes e replicavam transformando-os em mil, dez mil, fazendo crer que aquilo era no país inteiro.

O povo como sempre, foi manobrado e enganado, em favor de grupos.

Caiu o jovem Presidente da URNA - União Republicana Nacional, outros bandidos tomaram conta do poder e tudo continuou com antes naquela republiqueta.


Manoel Amaral

O JOVEM CANDIDATO I

O JOVEM CANDIDATO I
Imagem Google

A luta entre os dois poderes era muito grande. De um lado os poderes do mal: os maus políticos, os traficantes, as drogas e os milhões. Do outro lado os do bem: a polícia, a justiça e a população sem tostões.

Tudo estava virando de cabeça para baixo. A eleição estava chegando.

Havia um candidato jovem, bonitão e rico. As estatísticas (compradas) indicavam que o candidato jovem subia como um foguete.

Dinheiro não faltava e apoiadores nem se fala. Doações caiam na rede como peixe. O partido novo estava vencendo em todas as regiões.

Seguindo a moda a agremiação não começava com a palavra partido. O nome escolhido foi União Renovadora Nacional -URNA. O partido foi registrado com a maior facilidade, um ano antes das eleições.

Não faltavam apoiadores e candidatos mil. A maioria das cidades que tinham tantos candidatos que era necessário fazer uma triagem: eliminavam a metade e só a outra metade poderia concorrer.

As cores estavam espalhadas por todos os morros, centros e bairros. As capitais estavam todas coloridas de verde e branco.

As fotos do candidato estavam dependuradas até em árvores, nas porteiras. Outdoors gigantes espalhados pelos prédios abaixo. Em todos os muros foram desenhados as imagens do partido. Não sobrou espaço para nenhum outro, que estavam encolhidos mediante o gigantismo daquele candidato. Todas as maneiras de propaganda foram utilizadas.

O símbolo era uma mão segurando a outra sobre um fundo verde e branco.
Inventaram milhões de insinuações de que o desenho tinha duas pistolas de cano longo, uma suástica etc. etc.

Milhões de bandeirinhas, bandeiras e bandeirões, bem como faixas de todos os tamanhos circulavam nas mãos de crianças, jovens e velhos.

Muitas mulheres foram arregimentadas para trabalhar como batalhão de frente. Os velhinhos estavam ganhando muito bem distribuindo santinhos por todo lado.

As escolas públicas e privadas, ávidas por algumas verbas a mais, promoviam debates imitando os candidatos e o jovem sempre ganhava de todos.

As grandes empresas estavam todas com aquele candidato apesar de distribuir doações para todos.

Os candidatos a Governadores, Senadores, Deputados Federais e Estaduais daquele partido estavam muito bem colocados. Onde aparecia as cores verde e branco tudo ia de vento em popa, em todos estados.

De Norte a Sul aquele partido ia vencendo a olhos vistos. Não faltavam eleitores, todos muito empolgados.

As urnas eletrônicas passaram por uma revisão. Agora não precisava nem de título eleitoral. Bastava a pessoa colocar o indicador no visor e os seus dados apareciam na tela.

Marcar o candidato ficou mais fácil ainda, por todos os lados tinham as fotos e os números.

Aquela besteira de proibir Showmício acabou. Por todo canto havia um candidato divulgando os seus textos e pensamentos.

Na TV, o prazo da União Renovadora Nacional - URNA era o maior devido as inúmeras coligações.

Os eleitores estavam muito bem tratados. Todos os dias recebiam bolsas, camisas, bonés e até dinheiro devidamente colocado num envelope branco. Sem contar os alimentos, que agora estavam mais baratos. Algumas cestas tinham até carne de primeira e papel higiênico.

Tanto candidato dando as coisas que estava difícil atravessar a rua. Pequenos brindes estavam espalhados em cada esquina, era só o eleitor apanhar.

Em cada casa tinha uma bandeira, nos prédios os bandeirões. Nas mãos das crianças as bandeirinhas.

Adesivos nos carros, placas nos quintais e nas esquinas, de todos tamanhos e gostos.

O dia 15 de novembro estava chegando, a vitória estava próxima.

Houve alguém que até disse que este candidato seria o “divisor de águas,” nunca ninguém fizera uma campanha eleitoral igual a esta.

Toda a eleição decorreu na maior tranquilidade.

Só aconteceu um caso muito interessante: um pequeno povoado com mil e poucos eleitores teve mais votos que habitantes.

Manoel Amaral