sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013


O BIGODE

Imagem Google

Num domingo qualquer, descia rua abaixo, no intuito de abastecer o estômago, num restaurante.

A família, como muitas outras, partira para um centro menor com a finalidade de fugir do burburinho das cidades maiores, rever os pais, visitar os amigos.

Quando atravessou a rua, duas quadras depois de sua casa, tropeçou numa pedra na calçada e esborrachou-se naquele cimento duro.

Os óculos e a boina foram parar a alguns metros de distância. A cabeça por sorte não bateu nas pedras.

Uma enfermeira ia passando e foi logo pedindo aos transeuntes que se afastassem, ela entendia do assunto, trabalhava no hospital do bairro.

Levantou a perna direita do velho, fez algumas massagens e ele estava pronto para outros tombos pelas ruas da cidade.

Nestas alturas o tão esperado almoço foi suspenso. Foi parar no hospital para mais uma análise se havia algum osso quebrado, ou cabeça rachada. O raios-x  disse que não havia nada de anormal naquele velho corpo, só um grande bigode que sempre atrapalhava as enfermeiras a realizarem o serviço.

Avisada a família todos vieram correndo, para atender o dono daquele velho bigode, ainda sujo de sangue.

Foi aí que alguém disse:
-- Pai, porque o senhor não corta este bigode?

Seu bigode, meio século de existência, de trabalho semanal, apara aqui, raspa ali, passando uma espuma sintética para amaciar os fios.

Num só dia, com poucas tesouradas poderia deixar de existir.

Muitas já estavam reclamando,  ficou pensando ele sem bigode. Cara pelada, sem vergonha. Não dava. Não tinha jeito.

Preferia morrer do que aparecer aos amigos com a cara lisa, sem nenhum fio. Dizia que o bigode impunha respeito e diminuía o tamanho do nariz.

Lembrou-se de vários bigodes famosos na história do Brasil, não podia cortar o seu.

A pressão foi aumentando, até que um dia ele disse:
-- Vou cortar o bigode amanhã!

Fotos e mais fotos foram batidas para guardar de recordação. Até o Facebook recebeu em suas páginas aquele famoso bigode.

Passou uma noite péssima, cheia de bigodes: Charlie Chaplin, Albert Einstein, cantor Belchior, Raul Seixas, Jurandir Guedes (da foto), o bigodão do Zeca Diabo da novela, aquele do Barão do Rio Branco, de D. Pedro 1º, de Che Guevara,  de Cristo e muitos outros bigodes famosos foram passando em sua mente.

 

Teve um ataque cardíaco e faleceu naquela manhã. O bigode era o sopro de sua vida.


Resolveram manter o bigode depois de morto.

Manoel Amaral