quarta-feira, 7 de novembro de 2012

CORPO FECHADO - I


CORPO FECHADO


Signum Crucis.. In nómine Patris et Filii et Spíritus Sancii. Amen.                                            (Sinal da Cruz em Latim)

Acostumado que estava de andar sempre a cavalo, sentia-se meio desajeitado ao lado daquela linda mulher loura, naquele carro novo, uma BMW preta, que comprara só para aplicar o dinheiro que vinha recebendo.

Deu umas voltas pelas ruas, chamou a atenção de todos, estava querendo mesmo se exibir, coisa que não fizera em toda a sua vida.

Queria enfrentar o Sistema, ser maior que o Chefe de Estado.

O Governador estaria naquela pequena cidade para um rápido discurso. O sistema de segurança era muito grande. Do palanque até a igreja tinha uma batalhão de soldados e outros tantos disfarçados de civis.

No alto do principal prédio da praça três atiradores de elite verificavam as ruas, bares, carros e tudo que girava em torno daquele espaço delimitado pela passagem do político famoso e odiado.

Um rumor surgiu no meio dos homens da segurança: ele está aqui na cidade. Os homens concentraram-se em torno da grande figura.

Prefeito recebendo palmas pelo grande feito de levar o governador até aquele rincão.

Era sexta-feira da paixão, dia 2, um ar de tragédia estava pairando sobre aquelas cabeças.

O povo em festa, nem prestava atenção aos fatos que já começavam a desenrolar.

Um carro desceu mais rápido, um pneu estourou, os homens entenderam que era um tiro, o sinal para começar o tiroteio.

A BMW, com o teto solar aberto, descia e contornava a praça da igreja.
Um dos seguranças gritou:
-- É ele! É ele!
Lá de cima do prédio três tiros foram ouvidos, cá em baixo uma confusão foi estabelecida. Ninguém estava entendendo nada.

O Governador já estava no palanque falando das verbas que liberara para aquele município. Um guarda pulara sobre ele e esconderam-se por trás da mesa. E foi retirado em segurança, para outro local.

Do carro desceu Gemiro, o temido pistoleiro, subiu as escadarias da igreja e caiu logo na entrada.

Algumas mulheres conhecendo a figura saíram em disparada pela rua abaixo.
De bruços e com a mão direita fechada, sem nenhum sangue derramado, serviu de curiosidade para muitos, que foram chegando de mansinho.

O médico foi chamado e foi constatado: ele morrera de ataque cardíaco.
Quanto ao seu carro sumira dali. Ninguém mais viu o veículo.

Parecia coisa do outro mundo. Gemiro morto, corpo estendido dentro da igreja.

Uma missa ia ser celebrada, agora com corpo presente. O caixão, as flores e toda arrumação já estavam pagas há um mês.

Na igreja o sacristão verificou que havia trinta missas pagas por uma única pessoa: Gemiro.

O corpo foi preparado ali mesmo na entrada e o caixão colocado entre os bancos.

O povo começou a chegar e o Governador não pode esperar, partiu para outros compromissos.

Mariazinha, muito devota, começou logo um terço que não tinha fim.

Alguns passavam, olhavam, estremeciam e sentavam-se bem longe.

A missa terminou e o velório continuou mesmo ali, ninguém quis ou não teve coragem de removê-lo para outro lugar.

Na manhã seguinte o féretro iniciou-se, o cemitério era ali por perto.

Estranhamente uma cova já estava aberta, encomendada por um desconhecido, na noite anterior.

O Coveiro, antes de descer o corpo, quis saber o que tinha na mão fechada: abriu-a e assustou-se.

Na sua mão direita, queimada pela pólvora, uma bala disparada por qualquer um daqueles hábeis seguranças.


Manoel Amaral

2 comentários:

  1. Morar no Brasil e especialmente em São Paulo ou Rio de Janeiro precisamos ter o corpo fechado, além de muito sorte.
    Sei que este tema continua, vamos aguardar.
    Belo texto.
    Parabéns.
    Grande abraço.
    Almir.

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  2. Almir,
    Obrigado por continuar a ler
    os nossos contos & crônicas.
    Tem continuação sim, esta é
    uma técnica americana, onde
    apresentamos o final primeiro.
    Agora vamos para a vida de Gemiro.

    Abraços
    Manoel Amaral

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