sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A VIÚVA E O SEQUESTRO – I

Original do Google

A VIÚVA E O SEQUESTRO – I


(Na visão do narrador)

Cinquenta anos se passaram e Margarida estava ali, sozinha, sem ninguém para conversar. Só tinha uma TV velha que ligava na hora dos noticiários.

O seu marido Juca havia batido as botas há muito tempo. Não resistira as constantes idas ao hospital para hemodiálise. 

O seu sangue já não estava valendo quase nada. Juntara algum dinheiro no seu trabalho de caminhoneiro. Passava dias de cão quando apareciam as greves paralisando as rodovias principais. Não tinham como alimentar-se direito. Comia um arroz carreteiro preparado num    mini fogão de duas bocas que carregava consigo. Era o máximo que podia fazer.

Juca, o fiel marido de Margarida, enfrentou muitas fases ruins na vida. 

Comprou uma carreta nova e tinha época que custava a pagar as prestações. Por causa deste veículo acabou perdendo uma casa. Teve que vendê-la, para pagar o restante da dívida com a financeira.

Margarida também enfrentara muitos problemas na sua juventude. Agora até que ela estava em boa situação. Alimentava-se muito bem. O coração dera uma trégua, outras doenças menores também sumiram. Ela fazia as suas caminhadas tranquilamente. Não tinha do que queixar-se.

Naquela manhã quando ligou a TV, uma notícia chamou-lhe a atenção: o sequestro de um rapaz. Olhou assim de relance e parece que conheceu alguém naquela reportagem.

Mudou de canal. A mesma história triste. Ligou para vizinha, queria saber mais alguma coisa, mas nada, ninguém atendeu a chamada.

Assim que colocou o telefone no gancho, este tocou. Ela correu para atender. Do outro lado da linha alguém dizia:
-- Estamos com o seu filho. Deixe R$50.000,00 na estrada... – nesta hora um caminhão passou na rua fazendo muito barulho, não deu para ela ouvir direito o local.

Desligou o telefone e ficou aguardando nova chamada. Meia hora depois o bandido ligou novamente, desta vez muito nervoso porque não havia encontrado o dinheiro no local combinado. Fez ameaças, disse que iria matar o rapaz caso o dinheiro não fosse pago.

Dona Margarida disse-lhe que não ouvira direito onde era para deixar o dinheiro, ele repetiu tudo.

Ela correu ao banco onde tinha umas economias e fez um saque do valor solicitado, pegou o carro e saiu em desabalada carreira, com o dinheiro numa sacola plástica e foi até onde combinara de deixar o dinheiro: debaixo de uma árvore seca, na beira da estrada que ia para o Povoado de Bela Vista.

De volta para casa ficou ali junto ao telefone esperando qualquer notícia sobre o sequestro.

Lá pelas dez horas o telefone tocou, quando ela foi atender, ninguém do outro lado da linha. Esperou mais alguns minutos e novamente o aquele som da campainha tirou-lhe do cochilo.

-- Olha dona, o seu filho foi solto, está perto do posto de gasolina.

E ela nem tinha filhos...

Manoel Amaral

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