quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O VELHO TIO SERAPHIM - II


O VELHO TIO SERAPHIM - II

Capítulo II
O Começo

Seraphim Toledo de Oliveira era o seu nome completo.

No dia seguinte ele já estava lá na Prefeitura para dar início a recepção de cargo. Muito políticos de outras cidades querendo aparecer ao seu lado nas fotos. Jornais, TVs e Rádios no seu encalço. Assessoria não dava trégua. Foi aí que ele falou:
– Fui eleito por este povo guerreiro de Jilópolis, vou fazer por onde para merecer o seu respeito...

Não acabou de dizer o resto e já foi uma salva de palmas de todos os cantos. Estava encerrado o discurso. Cafezinho, biscoitinhos, docinhos, todos produzidos pelas prendadas donas de casas.

Prefeito eleito e empossado, agora era começar a trabalhar. Chamou todos os servidores e fez uma listagem sobre o que cada um fazia.

Examinou a lista, alguma coisa achou muito engraçado, mas não riu. Tinha gente que era pago para vigiar os colegas de trabalho. Outros nem sabiam direito o que faziam, passavam o tempo todo andando pra lá e pra cá. Se fossem colocados em suas salas, iam faltar cadeiras.

A solução foi perguntar para todo mundo o que sabia fazer e separar por turmas. Muitos não sabiam ler. Tinha funcionário dirigindo trator sem ter habilitação.

Os que não tinham qualificação foram encaminhados, a cidade vizinha para participar de cursos. Os motoristas foram frequentar as autoescolas, os que tirassem carteira seriam admitidos os demais poderiam participar de outros trabalhos.
Logo nos primeiros dias as Diretoras das escolas queriam programar festinhas com a participação do Prefeito.

As escolas municipais estavam uma lástima. Prédios depredados, faltando tudo, inclusive merenda escolar. Um relatório foi encomendado e Seraphim ficou sabendo de todos os problemas.

As máquinas pesadas e os veículos estavam recolhidos ao pátio da Prefeitura para levantamento. Alguns carros (até com boa lataria) não tinham motores, pneus carecas. Um por um foram examinados e verificaram que só dois tinham condições de rodar. Na área da saúde não tinha nenhum. Ônibus escolar com freios amarrados até com arame farpado. Uma coisa de espantar.

Examinando a documentação dos mais novos, verificou que faltavam dois carros comprados na gestão passada. Onde estariam?

Perguntou mas ninguém respondeu. Aí o barbeiro da cidade disse:
– Um está na garagem do Cel. Odorico e o outro é só perguntar para o Vereador Ximbica.

Não precisou perguntar. No outro dia os dois carros estavam no pátio da Prefeitura.

O contador da gestão passada tinha adquirido 10 computadores e 2 impressoras, mas procurando por todas as salas, nada foi encontrado.

Novamente o barbeiro da cidade, Senhor Zelito disse:
– Procurem na Lan House do filho do ex-prefeito, está tudo lá.
Nos dias seguintes foi até engraçado: começaram aparecer motores, ventiladores, computadores e outros equipamentos menores, que eram cuidadosamente colocados no depósito.
O Prefeito resolveu de imediato contratar o Zelito como seu Secretário Particular. Viu que ele era um homem de coragem.

Ele até deu uma sugestão:
– Senhor Prefeito, enquanto não arrumam os caminhões de lixo poderíamos usar as carroças, tem muita gente precisando de trabalho.
– Boa ideia Zelito, vamos fazer isso sim.

Analisando todos os problemas do município, dos servidores, da cidade e da população, traçou um Plano para Desenvolvimento Integrado, tudo dentro das possibilidades e dentro da lei. Enviou para a Câmara Municipal. Os Vereadores, nem olharam, não gostaram e não aprovaram.

O Prefeito foi então até a Câmara, conversou com o Presidente e os Vereadores para saber a razão. Cada um foi ouvido. O que pediram foi anotado, mas informou que faria tudo de acordo com as verbas que recebesse mensalmente.

Havia contas atrasadas, compra ilegal, sem licitação. Muita gente mamando no dinheiro público. Fez uma limpeza nestas saídas indevidas.
Solicitou uma reunião com os secretários e o contador. Zelito estava lá anotando tudo.
O Contador veio logo com aquele papo de LDO-Lei Diretrizes Orçamentárias, LOA-Lei Orçamentária Anual, Lei de Responsabilidade Fiscal e outras Leis Federais. Começou muito bravo, mas se acalmou quando descobriu que Seraphim tinha vários cursos superiores e conhecimento de legislação municipal, estadual e federal.

Queria um relatório completo da situação de cada secretaria e contabilidade. De agora em diante, todos os dias, às 17 horas, o Caixa deveria apresentar a mesa do prefeito relatório das entradas e saídas.

Manoel Amaral

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