sábado, 1 de outubro de 2011

O VELHO TIO SERAPHIM - I

O VELHO TIO SERAPHIM
Capítulo I
Afinal uma cabeça pensante


Seraphim, assim com ph, parecia antiquado, mas a sua verdadeira história iria demonstrar que o que ele fez, pouca gente faria.

Ele vinha de uma cidade do nordeste, bem no meio do sertão, onde só crescia a caatinga.
Resolveu estabelecer-se naquela terrinha das fofocas, das mentiras, dos papos furados, onde quase ninguém trabalhava, na maioria aposentados.

Jilópolis era assim mesmo, terra da amargura, até no nome.

Não muito acolhedora, sem hotéis, sem restaurantes, sem posto de combustível, sem nada. Até o Prefeito fora cassado por causa de desvio de verbas. Mas não adiantou muito, o que entrou no seu lugar continuava a roubar mais que o anterior.

E Seraphim fora parar numa terra dessas, sem dono, sem lei, perdida num interior pior que o pior interior.

Ali ele não conseguiu arranjar amigos, já velho, ranzinza, cabeça branca, boina de intelectual, nariz adunco. Figura meio difícil de engolir. Ainda mais que não dava bola para ninguém.
Gostava de mulher só bem mais nova que ele, no mínimo 40 anos. Ele acabava de completar 70 anos e ainda considerava-se um jovem.

Bebia, somente vinho italiano. Fumava, somente charuto Cohiba Robusto, importados diretamente de Cuba.

Tinha um notebook novo e outro usado. No segundo ninguém punha as mãos. Coisas secretas do velho, enigmas e mais enigmas. Arquivos protegidos por senhas. Milhões de informações sobre todos os assuntos possíveis, até os mais simples como charadas.

O notebook novo era só para surfar na net. Às vezes permitia que algumas visitas escolhidas usassem o teclado, por pouco tempo.

Escrevia todos os dias. Levantava de madrugada com uma ideia na cabeça e passava logo a digitá-la. Quando chegava da rua, do boteco, da praça, ia logo para o computador.

Fazia ponto no “Recanto dos Velhos”, lá naquela terrinha não tinha nada destas frescuras de idosos, eram velhos mesmo. Os de cor escura eram chamados de pretos, eles não conheciam essas bobagens inventadas por intelectuais: afrodescendentes. Índio era índio, indiano era nascido na Índia. E político era honesto, do contrário: rua!

Quem olhava assim, na primeira chegada, não acreditava, mas Jilópolis era bem velhinha. Já estavam preparando a festa para os seus trezentos anos. Fora fundada por António Jiló, cidadão vindo de Algarve, no sul de Portugal. Quanto ao nome Jiló dizem que ele tinha uma plantação desta fruta, considerada erroneamente como leguminosa.

Quando foram escolher o nome alguns letrados queriam colocar Bitterlândia, mas prevaleceu o bom censo, nada de inglês, o primeiro coincidia com o nome do fundador.

Um velhinho até refutou:
– Bitterlândia é coisa de fresco!

E assim a história de Jilópolis nasceu com discussão até no nome. Era fácil, nem precisava dizer nada, era só unir o dedo indicador ao polegar e manter os demais abaixados. Estava criado o símbolo que representava o nome da cidade.

Quando perguntavam:
– De onde você é?
O cara levantava o braço com o sinal convencional. Muito fácil assim... facim.
Tudo era motivo de discussão, até caixa de fósforos, quando compravam, contavam o número dos pauzinhos, se faltava um, pra quê! Era aquele fuzuê. Cada cidadão por ali vivia aquela vidinha miserável até a chegada de Seraphim.

Ele foi o divisor de águas: antes e depois.

Viveu sem se envolver por cinco anos, depois não aguentou. Filiou-se a um partido, queria ser Vereador. Não deixaram, queriam que ele fosse candidato a Prefeito.

Veio, viu e venceu... a eleição. Não deixou nenhum candidato de pé. Derrubou todos, não ficou pedra sobre pedra. Caíram mais rápidos do que as torres gêmeas do WTC. Foi a maior votação que Jilópolis já teve, 90% dos eleitores votaram nele. O slogan era o seguinte: “Seraphim será o começo!”

(Continua)

Manoel Amaral

http://osvandir.blogspot.com

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