quinta-feira, 21 de julho de 2011

O CASO SOUZA



"Não fume, pois neorônios você tem milhões, mas pulmões você só tem dois."

(Bob Marley)


Souza estava sempre tristonho, amarrotado, mal passado, gosto amargo na boca e no coração.

Fim da vida, internado, sem ninguém para cuidar daquelas dores reais.

Família não vinha vê-lo, tinha que pagar por um cuidador de idosos.

Não deixaria herança, estava fadado a passar os seus últimos momentos ali sozinho, sem ninguém, pelo SUS, até sem enfermeiros.

Entubado e amarrado, para não cair da cama, com aquele lençol encardido, um roupão simples, quase branco, do hospital de uma cidade qualquer.

Souza tivera muitos amigos quando ainda possuía dinheiro para pagar as farras. Agora ninguém vinha visitá-lo. Nem um papinho, nem um minutinho, nem um cigarrinho, nem uma pinguinha!

Até o seu melhor amigo, o João, aquele que vivia sempre com ele, não apareceu.

Souza era um grande cara, estava sempre rodeado de amigos. Bebia muito, fumava muito, vivia na noite, dormia de dia.

Começou a fumar aos quatorze anos quando foi numa pescaria com seu tio, lá pras bandas do rio. Diziam que era para matar mosquitos.

Era o pior cigarro, mais barato e fedorento: Saratoga.

Tomou gosto pela coisa. Estava sempre com um na boca mesmo apagado.

Fumou todas as marcas: Yolanda, Dalila, Neuza (mentolados), Odalisca, Continental, Camel, Minister, Hollywood, Mistura Fina, Liberty, Marrocos, Eldorado, Ascott, Negritos, Fulgor, Cigarrilhas Talvis e foi até colecionando algumas mais bonitas.
Passou até a vender fumo no mercado. Suas roupas eram todas furadas pelas brasas dos cigarros.

A fumaça invadia todos os locais onde estava, incomodando a todos não fumantes.
Disseram para ele que o fumo provocava:
-Diminuição dos batimentos cardíacos, da pressão arterial e da respiração.
-câncer do pulmão, da boca, da garganta, do esôfago da laringe e da bexiga.
-Angina de peito e infarto do miocárdio.
-Isquemias ou hemorragias cerebrais.
-doença pulmonar obstrutiva crônica.
-Maior risco de contrair câncer dos rins, pâncreas e estômago.
-Tosse típica.
-Maior probabilidade de sofrer bronquite crônica e enfisema.

Ele respondia que o seu avô fumava, o seu pai fumava e nunca tiveram nada e assim ele ia continuar fumando.

Mas a sua doença foi só aumentando: aquela falta de ar. Quase “subia pelas paredes”!
Falaram para ele voltar aos cigarros de palha, para fumar menos. (Cigarro de palha apaga toda hora, os outros não apagam porque tem pólvora).

Qual o quê, Souza arrumou um tição de fogo e ficava o dia inteiro acendendo o maldito cigarro de palha.

Daí foi parar no hospital, não tinha dinheiro para pagar. Ficou ali numa cama malcheirosa, seguindo o destino final.

Se tivesse algum dinheiro para gastar ou herança para distribuir o seu quarto continuaria cheio de gente, como não tinha nada disso a solidão baixou para o seu lado.

Ninguém nem sabia o seu nome completo, só o conheciam por Souza.
Morto e enterrado. Lá na certidão de óbito estava escrito o seu nome completo: Souza Cruz.

Manoel Amaral

sábado, 2 de julho de 2011

CARTA DE SÃO PAULO AOS CORINTHIANOS

SÃO PAULO AOS CORINTHIANOS

Lá pelos idos de 67 DC, estavam reunidos naquele grande estádio os principais sábios: Raposa, Galo, Coelho, Urubu, Mosquetinho, Periquito, Português, Mosqueteiro, Saci Pererê, Baleia, Pantera, Moleque, Macaca e Zebra.

Foi aí que São Paulo de Tarso resolveu falar:

Corinthianos,

Combati o bom combate”, não adiantou, hoje estou aqui numa Descrição: https://mail.google.com/mail/images/cleardot.gifsituação desagradável, não posso sair às ruas e todos gritam:

― É freguês!

Bem sei que são “néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia. Estando cheios de toda a iniqüidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade.”

“Sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães;”

Não escrevo estas coisas para vos envergonhar; mas admoesto-vos como meus colegas amados.

“Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre nós dissensões; antes sejamos unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer.”

“Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa? Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade.”

Não estamos preocupados quem vença ou perca, o importante é que marchemos todos juntos neste campeonato, com times bem treinados e jogos bem equilibrados em todos sentidos.

Que “ninguém se engane a si mesmo”, hoje estão por cima amanhã poderão estar por baixo, é a roda da vida e deste campeonato.

É muito cedo para definir a situação de todos os times.

Não quero, porém, irmãos, que ignoreis que” muitas vezes o juiz rouba mesmo! “Há coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu.”

“Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais.”

“Na verdade é já realmente uma falta entre vós, terdes demandas uns contra os outros. Por que não sofreis antes a injustiça? Por que não sofreis antes o dano?”

Cá estou eu amargurado, abatido, arrazado, perdi de 5 x 0 e não tenho justificativa para este povo que me acompanha. Sem contar que sou obrigado a ouvir estas palavras torturantes:

― O freguês voltou, olé!

Manoel Amaral

Fonte Pesquisa:

Cartas do Apóstolo São Paulo.