domingo, 22 de maio de 2011

A COLÔNIA DIGITAL


“No passado, os guerreiros hábeis tornavam-se,
eles próprios, invencíveis. Depois, esperavam as
oportunidades para destruir o inimigo.”

A Arte da Guerra de Sun Tzu,


Já fazia anos que eles estavam no espaço. Eram jovens, não conheciam o seu planeta de origem.
Tudo ali era digital. Não tinha jornais, revistas, livros impressos. Grandes telões davam as notícias do dia. Escolas adaptaram o antigo quadro negro, do planeta mãe, para enormes telas brancas que funcionavam ao toque das mãos.

O ensino também era implantado no cérebro, em chips, por blocos: geografia, história, matemática, química, biologia, línguas e ciências espaciais.

Naquela Colônia cada um fazia o seu trabalho previamente estabelecido por computadores e ninguém reclamava.

Um dia um jovem rebelde veio mostrando a todos os colegas um livrinho em papel antigo e todos da turma ficaram curiosos. Tinha muitas palavras que eles desconheciam, mas era curioso pegar aquelas páginas amareladas pelo tempo e descobrir o que continham.

O primeiro livro que conheceram chamava-se A Arte da Guerra de Sun Tzu, escrito na China há séculos. Depois apareceram livros de poesia e ninguém sabia para que serviam. Uma garotinha apaixonada foi quem descobriu: copiou um texto e enviou para o namorado. Aquilo dali para frente virou uma febre. Queriam mais e mais livros de poesias.

O fornecedor, aquele jovem rebelde, os descobrira numa velha biblioteca do planeta Terra. Como era um dos únicos que estavam sempre viajando pelo espaço, teve oportunidade de conhecer os livros em papel.

Mas o Olho Mágico, não gostara nada disso. Dizia que os livros em papel estariam disseminando ideias loucas, provocativas e contra o Regime Central. Queriam implantar outro regime de governo na Colônia.

Todos os livros recolhidos, entre eles muitos clássicos da antiguidade, foram para a fogueira eletrônica.

Os robôs que serviam de guarda ao Sistema estavam agora aparelhados para recolher todo tipo de livro impresso que encontrassem.

Para sanar este problema os espertos jovens digitalizavam a maioria dos livros que recebiam. Mas o legal mesmo, eles diziam, era ler no livro em papel. E desafiavam os robôs colocando capas coloridas que os qualificavam como produtos eletrônicos. Alguns até liam à noite para não serem surpreendidos.

A maioria dos livros já estava lançada na rede de comunicação extranet, onde todos ficavam plugados dia e noite.

Cada dia novas maneiras de ler o livro em papel era repassadas, ao pé do ouvido, para todos. Os guardas eram enganados de todas as maneiras. Até na hora das aulas eles conseguiam passar pequenas listas com textos, indicando outros livros interessantes.

Tudo estava indo muito bem, até que aquele jovem rebelde resolveu por em prática o que leu no primeiro livro que circulou na Colônia: A Arte da Guerra de Sun Tzu.

Armou uma torre de livros bem na praça central e no meio daquela confusão, todos querendo apanhar o seu, foi aí que ele conseguiu desativar vários robôs.

Criou uma equipe e começaram a desmontar todos eles, não tinham armas, mas tinham inteligência e armavam emboscados para as máquinas que não sabiam raciocinar como eles.
Numa daquelas emboscadas descobriram uma grande nave espacial escondida num enorme galpão.

O jovem rebelde elaborou um plano de fuga daquela Colônia. Um grupo, muito maior do que os androides, furaram o cerco e embarcaram naquela nave. Já sabia navegar pelo espaço devido as suas experiências anteriores.

Dirigiram para o Planeta Azul, demorou dois dias, mas foram dias felizes e todos vinham com um livro nas mãos.

No planeta puderam conhecer várias bibliotecas reais e livros por todos os lados, sem o perigo de serem molestados. Ao contrário, eram incentivados a ler.

Manoel Amaral

domingo, 15 de maio de 2011

ELA ERA SÓ UMA GAROTINHA (*)

“É estranha, é surpreendente.

Ela pode estar sorrindo de tudo, e de repente...

estar chorando por nada.

Não tente adivinhar suas ações ou suas reações...”

Autor desconhecido.


Quando completou 13 anos ganhou o seu primeiro celular. No aniversário seguinte ela ganhou, entre outros presentes, um MP4 e uma linda mochila da moda.

Estudava numa escola bem próxima de sua casa. Bastava atravessar uma rua e dobrar a próxima esquina. Não andava de ônibus, nem de van ou de carro, ia e voltava sempre a pé.

Menina aplicada, só tirava boas notas e tinha ótimas amigas. De manhã não esperava a sua mãe ir acordá-la. Ligava o despertador do celular e levantava na hora certa. Algum dia ficava mais tempo no computador e às vezes errava a hora. Tomava seu café da manhã bem rápido, corria ao atravessar a rua e chegava sempre no horário certo em sua escola.

Naquela sexta-feira, o cansaço baixou-lhe no corpo. Estava um pouco triste mas fez as provas, no seu entender tinha acertado muitas questões.

No período da tarde deveria voltar para participar de uma gincana promovida por sua turma. Aceitou a sua participação e levou o material solicitado.

Na volta para casa, ao cruzar a rua, ainda com sinal verde no semáforo, foi atropelada por um veículo que não respeitou as regras de trânsito.

No chão jazia Cristina, 14 anos, um fone do MP4 no ouvido esquerdo e o celular na mão direita, à altura da cabeça.

No chão, junto com alguns cadernos, um recorte de jornal alertava:
“No Brasil, são 50 mil mortes anuais em acidentes de trânsito (4% das mortes que ocorrem no mundo).”
“Em 70% delas, o (a) motorista havia ingerido bebida alcoólica.” (Folha de São Paulo)

(*) Baseado em fato real.

Manoel Amaral

A NAMORADA DO PINÓQUIO

Imagem Google

“Tem muito Pinóquio na política.”
(Prima do Osvandir)



Era uma vez, uma senhora chamada Margarida. Era uma boa mulher, mas não sobrava dinheiro em casa. Foi obrigada a trabalhar no lixão da cidade.

Sua casinha era pequena, simples, mas muito limpinha e ela sabia fazer incríveis obras de arte dos restos retirados do lixo.

As crianças adoravam as bonecas que ela fazia da sucata.

Ela foi juntando tampinhas de garrafa pet, rolhas, arames, pedaços de tecidos, cordões e muitas outras peças. Construiu uma boneca especial. Todos que a viam falavam: ― Ela é tão linda, tão perfeita que parece uma criança de verdade.

Um marceneiro Italiano chamado Gepeto, acabara de construir, também, um boneco de madeira, muito bem feito, com o nome de Pinóquio.

Como no seu país ele não vivia bem, resolveu mudar para outro longe dali.

Escolheu um na América do Sul, onde diziam que naquela terra “em se plantando tudo dava.”

Vieram parar num grande país que outrora foi chamado de Ilha de Vera Cruz, Terra Nova, Terra dos Papagaios, Terra de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, Terra do Brasil e finalmente Brasil, devido a grande quantidade de árvores com o nome de pau-brasil.


Gepeto quando aqui chegou e viu tantas árvores ficou muito feliz. Poderia fazer muitos bonecos, mais bonitos e melhores do que o Pinóquio.

Pinóquio não gostou da terra, viu que tinha muito mato e sujeira na cidade. Mas a proporção que foi conhecendo-a melhor começou a mudar de opinião.

Gepeto não sabia que o dinheiro que ele trouxera não dava para comprar casa nenhuma.

Acabou indo parar lá perto do lixão da cidade.

A primeira pessoa que encontrou foi a Dona Margarida, que o acolheu em sua casinha.

Gepeto ficou encantado ao ver a linda boneca feita de sucata e logo que a viu colocou-lhe o nome de Nóquia.

Os dois bonecos ficavam conversando o dia inteiro e Pinóquio queria mesmo era ser gente, ir para escola, trabalhar, ganhar um dinheirinho, comprar coisas e namorar.


Numa noite de lua cheia, uma fada-madrinha passou por lá. Viu aqueles bonecos e com sua varinha mágica resolveu transformá-los em duas lindas crianças.

Nóquia não sabia que Pinóquio era mentiroso e que cada vez que mentia seu nariz ficava vermelho e crescia. Ele acabou envolvendo-se com alguns políticos da cidade e chegou em casa contando mentiras.

Gepeto muito triste perguntou:
― Está com algum problema Pinóquio?
― Não papai...

Aí seu nariz começou a crescer, crescer, até que chegou ao conhecimento da fada. Ela ficou muito preocupada e o transformou novamente em boneco.

Não se conformando começou a chorar, chorar; até que a madeira começou a rachar com tanta lágrima. Gepeto vendo aquilo pegou as ferramentas e conseguiu trocar algumas peças e consertar o nariz.

A fada apareceu e disse para Pinóquio:
― Só posso transformá-lo novamente em criança se você prometer-me que vai se comportar melhor.
Ele prometeu, disse que nunca mais iria mentir, que aquilo era coisa do passado.

― Olha lá criança, se voltar a falar besteiras será transformado novamente em boneco de madeira... ou em coisa pior!
― Pode deixar, agora vou comportar-me direitinho.

Mas não adiantava, ele cresceu e continuou sempre mentindo. Até que um dia candidatou-se a Vereador da cidade e ganhou a eleição com suas mentiras.

Dona Margarida disse:
― Finalmente Pinóquio conseguiu um local ideal para trabalhar.

Manoel Amaral