quinta-feira, 7 de abril de 2011

OSVANDIR E A MULHER DE PRETO II

Capítulo II

A Mulher de Preto


― Onde fica a Fazenda Carreiras? ― quis saber Osvandir.


O rapaz do hotel informou que é onde está localizada a Casa de Tiradentes, na Estrada Real. Ele achou tudo aquilo meio estranho.


Jantou pouco e tirou uma soneca. Acordou sobressaltado, olhou o relógio; era quase meia-noite. Vestiu a sua roupa preferida e foi até o local da festa.


Quando colocou o pé no primeiro degrau da casa noturna, o sino da matriz deu a primeira badalada e seguiu até as doze, aí ele viu em sua frente aquela adorável desconhecida, toda de preto e um lindo colar de pérolas no pescoço. O tecido de seu vestido parecia tão fino que ele tinha a impressão que ela voava.


Durante a festa ao aproximar-se de seu rosto para beijá-la ele notou uma corrente de ar frio, com se tivesse aberto a porta de uma geladeira.


Resolveu afastar-se e deixar o beijo para mais tarde.


― Vamos até a minha casa? Poderá ficar por lá, se desejar, ― disse a Mulher de Preto.


Osvandir não teve alternativa e seguiu os passos dela. Saíram da cidade, passaram pela casa de Tiradentes e logo a seguir entraram por uma estrada de terra, estreita e esburacada. Lá longe uma luz diferente, parecia de lampião.


Viu alguns homens indo para o trabalho, com grandes chapelões e calças de algodão grosso. Não resistindo à curiosidade perguntou:


― Onde vão estes trabalhadores, que mais parecem do século passado?


― São escravos do meu pai, vão para colheita de café. ― Escravos? Como assim? ― Aqui ainda tem escravos, você não sabia?


― Não! Mas e a Lei da Princesa Isabel?


― Saiu no mês passado, ainda não deu tempo de demitir todo mundo e alguns resolveram ficar por aqui mesmo...


― ????


Osvandir fez uma cara de espanto e resolveu encerrar o assunto por ali mesmo. Não estava entendendo mais nada.


Deixou a linda dama de preto na porta da fazenda, que parecia muito antiga, com aquelas janelas de madeira pintadas de azul e as paredes muito brancas.


Depois de andar por alguns minutos, parou o carro lá no alto e olhou para trás e tudo parecia ir desaparecendo, a luz de lampião apagou-se, as cercas do curral foram todas caindo, a casa foi ficando cada vez mais em estado de ruínas.


Sem entender nada ele correu para o hotel. Não conseguiu dormir nada, também já era dia e o sol nascera lindo por trás dos montes. No outro dia, muito curioso, Osvandir resolveu voltar ao local da fazenda.


O que viu foram apenas ruínas e próximo de uma árvore de gameleira, já de galhos secos; um pequeno cemitério cercado de pedras cobertas de musgo. Não entrou, mas do lado de fora mesmo pode notar que lá havia três túmulos em destaque: dois maiores com nome de um homem e outro de mulher, falecidos em 1890 e 1891, no centro, um menor, com uma estátua de anjo, já sem asas. O nome que conseguiu ler com muita dificuldade foi: Angelina da Cruz, tendo como data de nascimento 1865 e falecida em 1901.


O pior estava por acontecer! Quando chegou ao hotel, um pouco assustado, o porteiro veio logo com um novo bilhete.


― Olha aqui Osvandir, aquela mulher esteve aqui de novo e deixou este recado para o você. Tomei a liberdade de perguntar-lhe o nome e ela respondeu que era Angelina.


Osvandir quase caiu de costas. Encostou-se na parede, depois assentou-se. Pediu um copo d’água. Não estava parando em pé. Ficou por ali por um bom tempo até recuperar-se do grande susto.


Abriu o papel, que parecia mais velho ainda que o primeiro e leu:


Osvandir, desculpe-me se te assustei. Esqueci o colar de pérolas no seu carro. Pode deixá-lo aos pés da Santa da Capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens. Angelina”.


O mais estranho foi a data que encontrou no bilhete, logo após a assinatura: 18 de junho de 1888.


Manoel Amaral

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