domingo, 10 de abril de 2011

O ATIRADOR

“O bom pesquisador vê o que os outros não veem.” (Osvandir)

Há anos, ali naquele local, tinha o mais alto índice de acidentes de veículos. Um aclive, uma curva, um trecho em linha reta em declive. Para os engenheiros seria um trecho de rodovia normal. Várias análises foram feitas até em laboratórios especializados. Nada encontrado que pudesse ser melhorado, tudo estava dentro do padrão de construções modernas.


Toda semana, ao cair da tarde, uma carreta ao subir, fazer a curva, logo nos primeiros cem metros de descida, o motorista perdia a direção do veículo e saía fora da estrada, arrastando árvores e capotando.


Uma barra de metal fora colocada onde elas saiam da rodovia e mais sinalização. Não adiantou praticamente nada. Elas continuaram a despencar morro abaixo.


A única coisa que a polícia rodoviária conseguiu descobrir foi o tipo de carga mais frequente nos acidentes: alimentos. Mas só na aparência, outros produtos transportados também eram vítimas dos acidentes.


Osvandir foi convidado para fazer uma análise destes acidentes e enviar um relatório para um Deputado Federal e uma Companhia de Seguros que estavam intrigados com a insistência destes acidentes, agora em qualquer horário do dia.


Pesquisou o que pode nos depoimentos dos motoristas, nas fotos da polícia e nos jornais. Pegou o que já havia nas empresas transportadoras e pode notar a presença de uma mesma pessoa em três acidentes. Era um rapaz novo, de uns 25 anos.


Deu em nada, este rapaz passava por ali umas três vezes por semana e sempre que via um acidente, parava o seu carro para ajudar os motoristas acidentados.


Osvandir quis ver os restos de alguns veículos acidentados, que sempre eram levados para o mesmo lugar, um ferro velho próximo de um povoado, quando não eram reclamados pelos proprietários ou pelas seguradoras. Pediu ao proprietário para ver os pneus das carretas, os da frente, de preferência. Alguns já estavam até sem a roda. Pegou uns quatro e jogou no porta-malas de seu carro.


Em casa, de posse de uma lupa, rastreou quaisquer defeitos, tais como buracos, rachaduras ou outros tipos de desgastes. Anotou tudo no seu relatório, fez várias fotos do lado de dentro e do lado de fora dos pneus.


Num dos dias da semana em que estavam registrando mais acidentes, Osvandir resolveu passar por ali de manhã, no meio do dia e à tardinha. No período da tarde pode presenciar quando uma carreta subiu e desceu até certa altura e começou a virar naquele asfalto já cheio de sinais no piso. Parou imediatamente o seu carro no acostamento e verificou vários pontos do local. Viu qualquer coisa brilhar no alto de um barranco, cerca de oitocentos metros logo abaixo, entre algumas árvores. Anotou tudo, bateu fotos e cuidou de socorrer o motorista, que não se ferira. Aliás é bom frisar que em nenhum acidente houve mortes.


Perguntou ao ajudante se ele ouvira algum barulho ou som diferente. Ele informou que estava olhando para os barrancos da esquerda e viu algo, como se fosse um pequeno brilho, lá em cima.


O pesquisador, no outro dia, parou o seu carro antes da curva, desceu a pé. Subiu, com grande esforço, o tal barranco. Bateu algumas fotos.


Concluiu o seu relatório e entregou para o Deputado Federal, outra cópia para Companhia Seguradora e informou tudo para a Polícia, com a recomendação que sigilosamente, colocassem um vigia escondido naquele local.


Dois dias depois a Polícia prendeu Fred, 35 anos, com um Fuzil Para-Fal, bem no alto daquele barranco. Perguntado o que fazia ali, com aquela arma, confessou:

― Quando eu era menino, com uns 12 anos, ficava aqui e pelo barulho dos motores sabia qual era o carro que chegava. Quando cresci, estive no Paraguai e consegui comprar esta arma, depois comprei pela internet o silenciador, a luneta e a apostila para aprender a atirar e fazer a manutenção do fuzil. Subia para este morro e atirava nos pneus das carretas, por pura distração. Estava na minha guerra particular.


― Osvandir, como você conseguiu descobrir isto tudo? ― quis saber um executivo da Seguradora.


― Foi fácil, quando vi os pneus que recolhi no ferro velho, em três deles descobri a perfuração por bala. O resto foi ficar atento a detalhes. Lá em cima achei uma cápsula de 7,62 x 51 mm, uma velha árvore com um buraco, algumas pegadas, tocos de cigarro e outras coisas bem interessantes. Imaginei que ele guardava o fuzil no buraco da árvore. O brilho ou reflexo que eu e o ajudante do motorista vimos era do seu isqueiro.


O atirador foi internado numa clínica psiquiátrica para observação, conforme notícias dos jornais.


Manoel Amaral

quinta-feira, 7 de abril de 2011

OSVANDIR E A MULHER DE PRETO II

Capítulo II

A Mulher de Preto


― Onde fica a Fazenda Carreiras? ― quis saber Osvandir.


O rapaz do hotel informou que é onde está localizada a Casa de Tiradentes, na Estrada Real. Ele achou tudo aquilo meio estranho.


Jantou pouco e tirou uma soneca. Acordou sobressaltado, olhou o relógio; era quase meia-noite. Vestiu a sua roupa preferida e foi até o local da festa.


Quando colocou o pé no primeiro degrau da casa noturna, o sino da matriz deu a primeira badalada e seguiu até as doze, aí ele viu em sua frente aquela adorável desconhecida, toda de preto e um lindo colar de pérolas no pescoço. O tecido de seu vestido parecia tão fino que ele tinha a impressão que ela voava.


Durante a festa ao aproximar-se de seu rosto para beijá-la ele notou uma corrente de ar frio, com se tivesse aberto a porta de uma geladeira.


Resolveu afastar-se e deixar o beijo para mais tarde.


― Vamos até a minha casa? Poderá ficar por lá, se desejar, ― disse a Mulher de Preto.


Osvandir não teve alternativa e seguiu os passos dela. Saíram da cidade, passaram pela casa de Tiradentes e logo a seguir entraram por uma estrada de terra, estreita e esburacada. Lá longe uma luz diferente, parecia de lampião.


Viu alguns homens indo para o trabalho, com grandes chapelões e calças de algodão grosso. Não resistindo à curiosidade perguntou:


― Onde vão estes trabalhadores, que mais parecem do século passado?


― São escravos do meu pai, vão para colheita de café. ― Escravos? Como assim? ― Aqui ainda tem escravos, você não sabia?


― Não! Mas e a Lei da Princesa Isabel?


― Saiu no mês passado, ainda não deu tempo de demitir todo mundo e alguns resolveram ficar por aqui mesmo...


― ????


Osvandir fez uma cara de espanto e resolveu encerrar o assunto por ali mesmo. Não estava entendendo mais nada.


Deixou a linda dama de preto na porta da fazenda, que parecia muito antiga, com aquelas janelas de madeira pintadas de azul e as paredes muito brancas.


Depois de andar por alguns minutos, parou o carro lá no alto e olhou para trás e tudo parecia ir desaparecendo, a luz de lampião apagou-se, as cercas do curral foram todas caindo, a casa foi ficando cada vez mais em estado de ruínas.


Sem entender nada ele correu para o hotel. Não conseguiu dormir nada, também já era dia e o sol nascera lindo por trás dos montes. No outro dia, muito curioso, Osvandir resolveu voltar ao local da fazenda.


O que viu foram apenas ruínas e próximo de uma árvore de gameleira, já de galhos secos; um pequeno cemitério cercado de pedras cobertas de musgo. Não entrou, mas do lado de fora mesmo pode notar que lá havia três túmulos em destaque: dois maiores com nome de um homem e outro de mulher, falecidos em 1890 e 1891, no centro, um menor, com uma estátua de anjo, já sem asas. O nome que conseguiu ler com muita dificuldade foi: Angelina da Cruz, tendo como data de nascimento 1865 e falecida em 1901.


O pior estava por acontecer! Quando chegou ao hotel, um pouco assustado, o porteiro veio logo com um novo bilhete.


― Olha aqui Osvandir, aquela mulher esteve aqui de novo e deixou este recado para o você. Tomei a liberdade de perguntar-lhe o nome e ela respondeu que era Angelina.


Osvandir quase caiu de costas. Encostou-se na parede, depois assentou-se. Pediu um copo d’água. Não estava parando em pé. Ficou por ali por um bom tempo até recuperar-se do grande susto.


Abriu o papel, que parecia mais velho ainda que o primeiro e leu:


Osvandir, desculpe-me se te assustei. Esqueci o colar de pérolas no seu carro. Pode deixá-lo aos pés da Santa da Capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens. Angelina”.


O mais estranho foi a data que encontrou no bilhete, logo após a assinatura: 18 de junho de 1888.


Manoel Amaral

quarta-feira, 6 de abril de 2011

OSVANDIR E A MULHER DE PRETO DE OURO BRANCO


“Pela Estrada Real e seus descaminhos o suor escorreu,

o sangue correu e o ouro escoou a caminho da Europa.”

(Instituto Estrada Real)

Capítulo I

Ouro Branco

Numa aventura anterior, em 1999, Osvandir esteve em Ouro Preto e encontrou a Mulher de Branco, passou um susto danado.

Agora ele resolveu visitar a cidade de Ouro Branco, também em Minas Gerais.

Perguntou na Prefeitura a origem do nome Ouro Branco e um funcionário informou que o ouro de cor amarela, natural claro, produzida pelo metal paládio a ele associado, é denominado de "Ouro Branco".

Ficou instalado, provisoriamente, no Hotel Mirante da Serra.

Resolveu ver uma velha gameleira que segunda a história, foi onde ficou exposta a perna direita de Tiradentes. Sentiu os pelos dos braços arrepiarem quando chegou perto.

Ali na Estrada Real, viveu o momento onde o Governo do Estado mandou distribuir várias partes do corpo de Tiradentes, colocando-os onde ele mais frequentava.

Saindo deste caso tenebroso foi para o Hotel, nem teve coragem para almoçar. Tomou apenas um café.

Ao sair, o porteiro disse-lhe que tinha um recado de uma mulher muito bonita. Eis o que estava escrito naquele papel amarelado pelo tempo: “Venha encontrar-me na Capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens”.

Reparou bem no papel e notou que o bilhete fora escrito com uma velha caneta-tinteiro, com tinta azul. Achou aquilo meio estranho, por que hoje em dia ninguém escreve mais com estas canetas.

Deixou de pensar no pior, a caneta poderia ser a famosa Mont Blanc. Nada de terrorífico, coisa de gente fina.

Queria mesmo conhecer a Capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens, bem antiga. Pegou o carro e deu umas voltas pela cidade, pensou melhor e voltou ao Hotel para almoçar.

Quando o relógio da matriz bateu doze badaladas ele levantou-se repentinamente, nem tinha almoçado direito e foi ao encontro da misteriosa mulher.

De longe ele pode notar na porta da Capela uma mulher vestida de preto.

Agora ele estava metido em encrenca muito pior do que a Mulher de Branco de Ouro Preto.

Ao aproximar o veículo, notou que ele era muito magra, tipo modelo profissional, com uns vinte e cinco anos aproximadamente. Muito bonita, cabelos negros e um batom vermelho muito forte. Rosto um pouco pálido.

― Olá meu jovem, ― disse ela logo aproximando de Osvandir.

― Como vai? Qual o objetivo deste convite tão especial?

― Você não queria conhecer Ouro Branco? Deixa comigo. Meu pai é proprietário de umas terras próximo da Fazenda Carreiras, na Estrada Real.

― Ouvi falar que hoje haverá uma balada... ― nem bem Osvandir, completara a frase, aquela linda mulher foi dizendo:

― Eu sei onde é, poderemos ir. Vou te mostrar o local e à noite estarei a sua espera lá.

Despreocupado Osvandir voltou para o Hotel; mas e nome da moça? Ele nem perguntou. Procurou o porteiro do hotel, ele também não sabia o nome da mulher.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

OSVANDIR E O CÁLICE SAGRADO

O cálice da Santa Ceia tem o valor simbólico da celebração da eucaristia.

Já seu poder mágico é só uma lenda",

Rafael Rodrigues Silva,


A procissão sairia de uma Igreja do centro e iria para um bairro mais próximo, cerca de 1 km, tudo entre ruas movimentadas, carros, motos e bicicletas. Cada um levava sua vela e lanterna, aquele símbolo do fogo, desde os tempos remotos dos cristãos. A origem da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao século XII. A Eucaristia é um dos sete sacramentos e foi instituído na Última Ceia, quando Jesus disse: ”Este é o meu corpo, isto é o meu sangue... fazei isto em memória de mim”. Porque a Eucaristia foi celebrada pela primeira vez na Quinta-Feira Santa, Corpus Christi se celebra sempre numa quinta-feira após o domingo depois de Pentecostes.


Osvandir ia por ali, entre uma jovem de longos cabelos na frente e dois velhinhos atrás.


O Santíssimo logo adiante, com aquele esplendor, iluminado pelo sol forte do fim de tarde. Como uma cobra que se contorcia, a procissão, com centenas de pessoas, seguia rua abaixo, virava aqui e acolá, onde estava determinado o trajeto. De repente uma faísca nos céus, um brilho nos olhos e Osvandir: estava na Idade Média à procura do Santo Graal, o Cálice Sagrado.


Ao lado de um cavaleiro, nomeado pelo Rei Arthur, ali estava ele, ouvindo mais uma fala do Mago Merlin, profeta, conselheiro e Grão-druida.: ― Cavaleiros! Vocês estão aqui hoje, reunidos, nessa mesa redonda que é para nunca haver discussão, para saber qual o próximo passo ordenado pelo nosso Rei. “A cadeira situada à direita do rei está reservada a um único cavaleiro. A esse cavaleiro eleito caberá uma santa missão. Vocês sabem que, no dia em que Jesus foi crucificado, um romano convertido, José de Arimatheia, recolheu o sangue de suas chagas em uma taça, o Graal. Só o cavaleiro que a encontrar poderá ocupar a “Cadeira Perigosa.” Osvandir ouvia tudo em silêncio. Merlin fazia os últimos juramentos, transmitindo a todos cavaleiros: ― Juro partir em busca do Cálice Sagrado...


Osvandir foi destacado para um determinado local, onde havia um castelo em ruínas, mal assombrado. Um friozinho percorreu-lhe a espinha. Estava com muito medo. As buscas começaram ali mesmo na entrada.


Tudo foi vasculhado, com ajuda de três dos seus companheiros. Um pequeno detalhe chamou-lhe a atenção: várias frases em latim numa parede. Com seus precários estudos da língua, pode notar que alguém contava uma história muito estranha.


Abaixo do texto um pequeno buraco em formato de cruz. Osvandir retirou do seu bolso um medalhão antigo, com uma saliente cruz, colocou-o naquela abertura e girou para a direita. Ouviu apenas um pequeno barulho além da parede. Girou novamente, desta vez para esquerda e uma porta se abriu. Lá no fundo uma sala inteira só com peças em ouro, diamantes, esmeraldas, rubis e outras pedras preciosas.


Admirado com todo aquele tesouro bem ao alcance de suas mãos, mandou transportar tudo até a presença do Rei Arthur. Arthur estremeceu, quando verificando no meio daquelas coroas todas cravejadas de diamantes, encontrou um velho cálice com o símbolo sagrado da igreja cristã. Na reunião, à noite, o Rei chamou alguém para assentar-se ao seu lado, na “cadeira perigosa”.


Vinha com o rosto coberto, ele assentou-se naquela cadeira ricamente bordada e ao levantar o olhar, por sobre a mesa estava escrito o nome: Osvandir, - em letras gravadas a ouro. Quando o Rei fez um brinde a todos, uma faísca brilhou no céu.


Um tropeção numa pedra de calçamento e acordou daquele cochilo por um milésimo de segundo, uma pequena fração do tempo.


Os olhos de Osvandir estavam direcionados para aquele Ostensório, ou custódia, formosamente decorado e pintado a ouro; ele seguia lentamente naquela procissão, já quase chegando o ponto final.


Manoel Amaral