quarta-feira, 9 de março de 2011

DOM CAIXOTE SEM MACHA E SANTO PRANCHA - I


“Não há livro tão mau que não tenha algo de bom.”
“Quem ama o perigo, nele perece.”
Miguel Cervantes (*)


Capítulo I
O Pangaré


Era um morador de rua, já velho e ruim da cabeça, enlouqueceu vendo novelas da TV. Vivia em uma praça qualquer, de uma cidade do interior, trepado num velho caixote falando para as pessoas, daí o apelido de Dom Caixote, como era muito ingênuo, puro, diziam que ele era sem Mancha, mas seu nome era Miguel. Abandonado há tempos pela família.

Foi numa de suas andanças pelas terras do Sul que ficou conhecendo o Santo Prancha, um lavrador, plantador de repolhos, que viu naquele homem um sábio. Resolveu acompanhá-lo.

Na primeira aventura juntos, o cavaleiro andante conseguiu num museu, uma velha armadura enferrujada e um capacete de moto, sem viseira.

Viajando pelas redondezas, à beira de um grande lago, viram uma enorme barragem, turbinas, e muita água descendo, num maravilhoso espetáculo. Prancha quis até tomar um banho, mas o seu Mestre não deixou, alegando que estavam atrasados para o compromisso de resgatar a sua doce amada “Teteia” das mãos dos bandidos mascarados.

― Olhe Prancha, lá na frente, os enormes dragões que soltam fogo pelas ventas.
― Não são dragões Mestre, são torres de transmissão de energia.
― É o que nos fazem parecer, mas não é, conheço bem estes dragões, eles se transformam em tudo para atacar a gente.

Aproximou das torres imaginando ser gigantes dragões e tenta lutar contra elas(es) cujo choque elétrico, lança o cavaleiro para longe.

Dom Caixote sem Mancha e seu criado iam a pé, por entre aqueles pastos e acabaram chegando numa grande fazenda só de criação de cavalos puro sangue. O local era lindo, uma planície sem fim, um lago, floresta, plantações de milho, capim e uma sede maravilhosa. Tudo ali estava fora dos padrões da mente do Mestre Dom Caixote.

Foi vendo aquilo tudo e logo dizendo:
― Meu Deus! Que castelo maravilhoso! Vamos adentrar para encontrar o Príncipe.
― Mestre, isso aqui é uma fazenda com o nome de “Haras Boa Vista”, o Senhor não viu a placa?
― Não leio estas coisas, leio livros e muitos.

Assim que aproximaram, dois cães pastores alemães, vieram já em prontidão de ataque, mas Dom Caixote, sempre muito amável com animais, passou a mão direita na cabeça de cada um e os tornou dois dóceis animaizinhos. Prancha, a estas alturas, já tinha corrido mais de meio quilômetro.
― Volte aqui, servo medroso, estes cães são muito bons, é preciso saber lidar com eles.

O fazendeiro, um velho senhor de chapéu Panamá, saiu da casa e cumprimentou os visitantes.
― Vamos chegando, quem se dá bem com meus cães, merece respeito. Mas o que é isso? Uma armadura medieval? Uma espada enferrujada? Estão lutando contra alguém desta região? Ou vão fazer algum filme ou documentário?

O Servo adiantou-se em explicar ao rico proprietário que aquilo era loucura de seu Amo. Estavam a procura de uns bandidos que raptaram a amada de Dom Caixote.

Almoçaram, tomaram um bom café. Tiraram uma soneca. Acordaram com disposição, mas antes de seguir caminho viram os cavalos no curral. D. Caixote agradou de um, em especial, que tinha uma mancha preta nos dorso e o resto do corpo branco. Perguntou o preço ao dono da fazenda e este entendeu que era melhor doar dois animais para eles.

Prancha escolheu um burrinho pesteado, que pastava ao lado dos garanhões. O Mestre levou aquele pangaré que achou interessante.

Manoel Amaral

www.afadinha.com.br

Leia os outros capítulos:
Dom Caixote sem Mancha I – O Pangaré

Dom Caixote sem Mancha II – O Resgate dos Escravos

http://osvandir.blogspot.com.br/2011/03/d-caixote-sem-mancha-e-santo-prancha.html

(*) Miguel Cervantes
Miguel de Cervantes Saavedra de Alcala Henares (1547 - 1616), Célebre Poeta espanhol, autor do igualmente célebre romance satírico "El Ingenioso Don Quijote de la Mancha", o segundo livro mais lido pela humanidade depois da Bíblia.

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