quinta-feira, 10 de março de 2011

D. CAIXOTE SEM MANCHA E SANTO PRANCHA II

Capítulo II
O Resgate dos Escravos



Seguindo por aquelas regiões planas encontraram grandes plantações de um tipo de feijãozinho amarelo e redondinho, que diziam produzir um excelente óleo.

Dom Caixote queria mesmo era cozinhá-lo. Pegou uma de suas panelas e mandou o servo Prancha colocar água no feijão. Aquilo ficou ali por mais de duas horas e nada de amolecer. Desistiram da empreitada e comeram paçoca e um pedaço de queijo com um café ralo.

Na próxima fazenda encontraram um proprietário muito mau que explorava os empregados, que não tinham nem o que comer.

Os dois andantes tomaram conhecimento de tudo e convidaram todos para viajar com eles.

Uma estrada asfaltada, caminhões voando, acidentes na curva, mulheres chorando. Dom Caixote muito comovido aproxima-se, desce do pangaré e cumprimenta a todos, mas os guardas rodoviários não deixam ninguém aproximar-se dos feridos.

Um reboque suspende a sucata que sobrou do veículo acidentado. Pelo acostamento seguem os dois, até que um caminhão de transporte de animais, para, e o motorista pergunta:
― Para onde vocês dois vão?

Prancha se adiantou e informou que estavam a procura de uns cortadores de cana e algumas mulheres.
― Cortadores de Cana? Só do outro lado do rio. ― Aí o motorista desceu e ajudou Dom Caixote a colocar os dois animais na carroceria.
O Mestre entrou na cabine e mandou o servo subir e ficar junto com os cavalos.

Em cada curva tudo balançava lá em cima, para completar a situação, uma chuva de granizo caiu, devastando a região e espantando os pobres animais. Quanto ao homem, encolhia-se a cada pedrada e gritava que nem criancinha.

Chegaram ao destino, uma destilaria de álcool combustível, agora chamado de Etanol. Trabalhadores por todos os lados.

O caminhoneiro providenciou a descida do pangaré chamado "Alucinante" e o burrinho. Prancha havia sujado toda a roupa no meio daqueles excrementos.

O transportador seguiu o seu caminho. Já os dois caronistas foram arranjar encrenca. Entraram na primeira casa pedindo um pouco de alimentação e o que ganharam foram alguns sopapos dos donos, que ainda riram dos dois.
― Aqui não aceitamos vagabundos, podem pegar a estrada.

Dom Caixote tentou argumentar que estava a procura de sua amada que fora sequestrado por bandidos mascarados, mas não adiantou, o chefe dos trabalhadores os expulsou dali.

Pegaram suas mochilas, os animais e saíram. Logo, não longe da usina e dos canaviais, encontraram uma boa alma que os acolheu. Bem alimentados, recolheram-se aos quartos e dormiram tranquilamente.

Na manhã seguinte Dom Caixote deu ao dono da casa, Senhor Joaquim, um belo livro de aventuras. Ele fez que gostou, mas nem sabia ler.

Seguiram viagem, e na primeira mata, saiu de trás de um cupim dois assaltantes que vasculharam suas mochilas e pegaram o que lhes interessavam; procuravam dinheiro, mas não encontraram. Amarraram os dois numa árvore cascuda, própria dos cerrados e ainda levaram os animais.

Várias horas se passaram e os dois ali sem poder beber e comer, no meio daquele mato. Prancha gritava para ver se aparecia alguém. Duas mulheres que colhiam gravetos por ali, ouviram o barulho e encontraram os dois. Com medo, ficaram à distância.

Dom Caixote olhou, olhou e se encantou. Imaginava que poderia ser a sua doce Teteia, que havia sido sequestrada. Prancha apressou em solicitar que desamarrassem as cordas, ―não precisam ter medo, dizia, ― somos dois velhos com fome e sede.

― Foi exatamente um velho que atacou uma menina aqui no mês passado, ― falou uma das mocinhas.

A mais velha, pegou o longo facão e...
― Tenha piedade, minha senhora, não fizemos nada, ― gritou rápido o medroso Prancha.
― Vou apenas cortar as cordas.

Manoel Amaral

www.afadinha.com.br

Leia os outros capítulos:
Dom Caixote sem Mancha I – O Pangaré

Dom Caixote sem Mancha II – O Resgate dos Escravos

http://osvandir.blogspot.com.br/2011/03/d-caixote-sem-mancha-e-santo-prancha.html

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