sábado, 26 de março de 2011

O PESCADOR E A RODA DE CAMINHÃO

“Dez pneus cheios e um coração vazio”
(Motorista de carreta)


Um caminhão passou em alta velocidade pelo asfalto...

Um pescador desceu calmamente a ladeira e posicionou-se num recanto logo abaixo da velha ponte. Ali, naquele local, ele pescava muitos peixes há uns vinte anos, hoje apenas alguns só para distração.

Trouxera uma velha capanga de brim marrom, que já estava quase branco pelas constantes lavagens. Uma lata de isca e uma velha enxadinha com cabo curto, que só servia mesmo para arrancar minhocas.

O seu jeito especial de pescar, às vezes, conseguia levar para casa uns peixes maiores. Mas o tempo estava ruim, havia chovido no dia anterior e o rio muito cheio.

Parou alguns instantes para tomar o seu cafezinho e fumar um cigarrinho de fumo baio, fraquinho, só para espantar os mosquitos que cada vez aumentavam mais.

Os veículos na rodovia já começavam a incomodar, logo ele que fugia de casa por causa de barulho. Desceu então para o poção que estava a uns cem metros abaixo.

Algumas piabas começaram a beliscar a isca, as águas faziam um semicírculo no remanso e vários peixes ficavam por ali para abocanhar algumas frutinhas do mato.

Tudo num silêncio maravilhoso, apenas alguns cantos de pássaros em extinção. Na semana passada vira um tucano pousado num galho seco, coisa que há muito tempo não via por ali. Pensou consigo mesmo: ― Os pássaros estão voltando, quem sabe os peixes também apareçam no rio.

Nesse meio tempo uma capivara com seus filhotes passaram bem pertinho dele, numa trilha que ia para um milharal. Os velhos tempos estaria mesmo voltando, ou tudo aquilo seria uma ilusão?
Ele notara mesmo que muitas aves e animais selvagens estavam visitando quintais nos arredores das cidades.

Há dez quilômetros da ponte um caminhão vinha em alta velocidade. Antônio, o bom motorista, sempre mandava revisar o seu veículo e conhecia bem a estrada, mas com as chuvas muitos trechos pioraram.

Numa daquelas conhecidas curvas, um buraco maior apareceu e ele não teve como desviar a tempo.

Uma roda desprendeu-se do eixo e seguiu pelo asfalto, sem que o motorista notasse. Era uma grande descida, João atravessou a ponte e seguiu o seu destino.

A roda seguiu girando pelo asfalto, antes de chegar a ponte ela entrou à esquerda e desceu a ladeira.

O pescador estava lá no seu pesqueiro, compenetrado, os peixes aumentaram. Já estava com a capanga cheia. Improvisou um gancho de um galho para acomodar o restante das piabas e mandis.

Como estava ficando tarde a família ficou preocupada. O seu filho mais novo foi à sua procura.
Encontrou o velho morto, no rio, agarrado a um galho de ingá.

Havia um corte na sua cabeça, logo acima da nuca. Ficou por entender como aquilo teria acontecido.

Deixou o corpo encostado numa árvore e pesquisou em volta. Logo abaixo, cerca de cem metros, uma roda de caminhão, tombada ao lado de um cupinzeiro.

Manoel Amaral

sexta-feira, 11 de março de 2011

D. CAIXOTE SEM MANCHA E SANTO PRANCHA III

Capítulo III
Cavaleiros Andantes
"Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Vosso nome dai a glória!"
(Cavaleiros Templários)



Os cavaleiros andantes agora eram apenas andarilhos. Os animais foram roubados, algumas coisas de uso pessoal também. A fome era tanta que correram para o mato a procura de alguma fruta. Encontraram bacupari e alguns coquinhos cujas castanhas eram muito difíceis de retirá-las. As mulheres seguiram o seu caminho, a residência delas era num pequeno povoado a alguns quilômetros daquele local.


Com o estômago cheio de castanhas, o efeito intestinal, naquele sol, não foi dos mais agradáveis. Dom Caixote seguia pela estrada e daí a poucos passos, entrava no mato. Prancha passou a caminhar diretamente no mato, ficava mais fácil, era só agachar e evacuar.

Numa das agachadas o desastrado servo passou a mão nalgumas folhas para limpar-se e sentiu uma coceira dolorosa, era uma taturana venenosa. O pobre Prancha ficou sem poder sentar-se por um tempão. No povoado, um farmacêutico aplicou-lhe uma injeção para atenuar a dor anal.

As mulheres já haviam esparramado a notícia sobre o assalto aos dois e aumentaram bem o fato. Ficaram conhecidíssimos na região. História passada de boca-em-boca, cada um aumenta um pouco, chega até a virar romance, e que romance!

Todos queriam ver a armadura medieval de Dom Caixote e rir das desventuras do cavaleiro sem cavalo, o Prancha.

As viagens continuaram e cada vez mais, naquela alucinação, D.Caixote imaginava estar vivendo na idade média à procura de sua amada Teteia. Por onde passava era saudado ou apedrejado pelo povo.

Ele precisava manter aquele sonho: encontrar a sua doce namorada fictícia. A colocava no altar como uma santa.

Viajando por aquele grande Estado encontrou um rebanho de bovinos, confundindo-os com um exército inimigo avança contra os animais, mas é surrado pelos boiadeiros além de ser pisoteado pelos bois. No meio daquele pasto verde, ficou muito ferido e acabou perdendo alguns dentes, foi aí que Santo Prancha vendo aquele figura horrível, denominou-o de “O Cavaleiro de Triste Feiura”.

Mas o seu desejo de combater as injustiças e encontrar sua Dama segue viagem, sempre enfrentando situações ridículas e seguido por seu fiel escudeiro.

Pegam carona num camionete cheia de gente mal-encarada. Na próxima cidade eles assaltam um banco e nosso herói ajuda aos ladrões pensando estar libertando escravos.

No meio daquela confusão foi pego por alguns policiais, enquanto os ladrões fugiam com todo o dinheiro.

Na delegacia foi que o Delegado descobriu que Dom Caixote e Santo Prancha não tinham nada com o assalto, foram simplesmente utilizado com “Comissão de Frente”.

Finalmente encontram duas senhoras naquela cidade que ele imaginava ser uma a mãe e a outra a sua adorada e eterna namorada.

Alguns comerciantes deram aos dois alguma alimentação, até que a ambulância parou numa rua estreita, dois homens de branco desceram e os colocaram numas camisas de força e foram internados como loucos, num sanatório bem longe da cidade.

Dom Quixote ainda imaginava que aqueles dois eram enviados do Mago Merlim que viria para impedi-los de trabalhar contra as injustiças do mundo.

(Pode continuar, ou não.)

Manoel Amaral
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Leia:
Dom Caixote sem Mancha I – O Pangaré

Dom Caixote sem Mancha II – O Resgate dos Escravos

http://osvandir.blogspot.com.br/2011/03/d-caixote-sem-mancha-e-santo-prancha.html

quinta-feira, 10 de março de 2011

D. CAIXOTE SEM MANCHA E SANTO PRANCHA II

Capítulo II
O Resgate dos Escravos



Seguindo por aquelas regiões planas encontraram grandes plantações de um tipo de feijãozinho amarelo e redondinho, que diziam produzir um excelente óleo.

Dom Caixote queria mesmo era cozinhá-lo. Pegou uma de suas panelas e mandou o servo Prancha colocar água no feijão. Aquilo ficou ali por mais de duas horas e nada de amolecer. Desistiram da empreitada e comeram paçoca e um pedaço de queijo com um café ralo.

Na próxima fazenda encontraram um proprietário muito mau que explorava os empregados, que não tinham nem o que comer.

Os dois andantes tomaram conhecimento de tudo e convidaram todos para viajar com eles.

Uma estrada asfaltada, caminhões voando, acidentes na curva, mulheres chorando. Dom Caixote muito comovido aproxima-se, desce do pangaré e cumprimenta a todos, mas os guardas rodoviários não deixam ninguém aproximar-se dos feridos.

Um reboque suspende a sucata que sobrou do veículo acidentado. Pelo acostamento seguem os dois, até que um caminhão de transporte de animais, para, e o motorista pergunta:
― Para onde vocês dois vão?

Prancha se adiantou e informou que estavam a procura de uns cortadores de cana e algumas mulheres.
― Cortadores de Cana? Só do outro lado do rio. ― Aí o motorista desceu e ajudou Dom Caixote a colocar os dois animais na carroceria.
O Mestre entrou na cabine e mandou o servo subir e ficar junto com os cavalos.

Em cada curva tudo balançava lá em cima, para completar a situação, uma chuva de granizo caiu, devastando a região e espantando os pobres animais. Quanto ao homem, encolhia-se a cada pedrada e gritava que nem criancinha.

Chegaram ao destino, uma destilaria de álcool combustível, agora chamado de Etanol. Trabalhadores por todos os lados.

O caminhoneiro providenciou a descida do pangaré chamado "Alucinante" e o burrinho. Prancha havia sujado toda a roupa no meio daqueles excrementos.

O transportador seguiu o seu caminho. Já os dois caronistas foram arranjar encrenca. Entraram na primeira casa pedindo um pouco de alimentação e o que ganharam foram alguns sopapos dos donos, que ainda riram dos dois.
― Aqui não aceitamos vagabundos, podem pegar a estrada.

Dom Caixote tentou argumentar que estava a procura de sua amada que fora sequestrado por bandidos mascarados, mas não adiantou, o chefe dos trabalhadores os expulsou dali.

Pegaram suas mochilas, os animais e saíram. Logo, não longe da usina e dos canaviais, encontraram uma boa alma que os acolheu. Bem alimentados, recolheram-se aos quartos e dormiram tranquilamente.

Na manhã seguinte Dom Caixote deu ao dono da casa, Senhor Joaquim, um belo livro de aventuras. Ele fez que gostou, mas nem sabia ler.

Seguiram viagem, e na primeira mata, saiu de trás de um cupim dois assaltantes que vasculharam suas mochilas e pegaram o que lhes interessavam; procuravam dinheiro, mas não encontraram. Amarraram os dois numa árvore cascuda, própria dos cerrados e ainda levaram os animais.

Várias horas se passaram e os dois ali sem poder beber e comer, no meio daquele mato. Prancha gritava para ver se aparecia alguém. Duas mulheres que colhiam gravetos por ali, ouviram o barulho e encontraram os dois. Com medo, ficaram à distância.

Dom Caixote olhou, olhou e se encantou. Imaginava que poderia ser a sua doce Teteia, que havia sido sequestrada. Prancha apressou em solicitar que desamarrassem as cordas, ―não precisam ter medo, dizia, ― somos dois velhos com fome e sede.

― Foi exatamente um velho que atacou uma menina aqui no mês passado, ― falou uma das mocinhas.

A mais velha, pegou o longo facão e...
― Tenha piedade, minha senhora, não fizemos nada, ― gritou rápido o medroso Prancha.
― Vou apenas cortar as cordas.

Manoel Amaral

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Leia os outros capítulos:
Dom Caixote sem Mancha I – O Pangaré

Dom Caixote sem Mancha II – O Resgate dos Escravos

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quarta-feira, 9 de março de 2011

DOM CAIXOTE SEM MACHA E SANTO PRANCHA - I


“Não há livro tão mau que não tenha algo de bom.”
“Quem ama o perigo, nele perece.”
Miguel Cervantes (*)


Capítulo I
O Pangaré


Era um morador de rua, já velho e ruim da cabeça, enlouqueceu vendo novelas da TV. Vivia em uma praça qualquer, de uma cidade do interior, trepado num velho caixote falando para as pessoas, daí o apelido de Dom Caixote, como era muito ingênuo, puro, diziam que ele era sem Mancha, mas seu nome era Miguel. Abandonado há tempos pela família.

Foi numa de suas andanças pelas terras do Sul que ficou conhecendo o Santo Prancha, um lavrador, plantador de repolhos, que viu naquele homem um sábio. Resolveu acompanhá-lo.

Na primeira aventura juntos, o cavaleiro andante conseguiu num museu, uma velha armadura enferrujada e um capacete de moto, sem viseira.

Viajando pelas redondezas, à beira de um grande lago, viram uma enorme barragem, turbinas, e muita água descendo, num maravilhoso espetáculo. Prancha quis até tomar um banho, mas o seu Mestre não deixou, alegando que estavam atrasados para o compromisso de resgatar a sua doce amada “Teteia” das mãos dos bandidos mascarados.

― Olhe Prancha, lá na frente, os enormes dragões que soltam fogo pelas ventas.
― Não são dragões Mestre, são torres de transmissão de energia.
― É o que nos fazem parecer, mas não é, conheço bem estes dragões, eles se transformam em tudo para atacar a gente.

Aproximou das torres imaginando ser gigantes dragões e tenta lutar contra elas(es) cujo choque elétrico, lança o cavaleiro para longe.

Dom Caixote sem Mancha e seu criado iam a pé, por entre aqueles pastos e acabaram chegando numa grande fazenda só de criação de cavalos puro sangue. O local era lindo, uma planície sem fim, um lago, floresta, plantações de milho, capim e uma sede maravilhosa. Tudo ali estava fora dos padrões da mente do Mestre Dom Caixote.

Foi vendo aquilo tudo e logo dizendo:
― Meu Deus! Que castelo maravilhoso! Vamos adentrar para encontrar o Príncipe.
― Mestre, isso aqui é uma fazenda com o nome de “Haras Boa Vista”, o Senhor não viu a placa?
― Não leio estas coisas, leio livros e muitos.

Assim que aproximaram, dois cães pastores alemães, vieram já em prontidão de ataque, mas Dom Caixote, sempre muito amável com animais, passou a mão direita na cabeça de cada um e os tornou dois dóceis animaizinhos. Prancha, a estas alturas, já tinha corrido mais de meio quilômetro.
― Volte aqui, servo medroso, estes cães são muito bons, é preciso saber lidar com eles.

O fazendeiro, um velho senhor de chapéu Panamá, saiu da casa e cumprimentou os visitantes.
― Vamos chegando, quem se dá bem com meus cães, merece respeito. Mas o que é isso? Uma armadura medieval? Uma espada enferrujada? Estão lutando contra alguém desta região? Ou vão fazer algum filme ou documentário?

O Servo adiantou-se em explicar ao rico proprietário que aquilo era loucura de seu Amo. Estavam a procura de uns bandidos que raptaram a amada de Dom Caixote.

Almoçaram, tomaram um bom café. Tiraram uma soneca. Acordaram com disposição, mas antes de seguir caminho viram os cavalos no curral. D. Caixote agradou de um, em especial, que tinha uma mancha preta nos dorso e o resto do corpo branco. Perguntou o preço ao dono da fazenda e este entendeu que era melhor doar dois animais para eles.

Prancha escolheu um burrinho pesteado, que pastava ao lado dos garanhões. O Mestre levou aquele pangaré que achou interessante.

Manoel Amaral

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Leia os outros capítulos:
Dom Caixote sem Mancha I – O Pangaré

Dom Caixote sem Mancha II – O Resgate dos Escravos

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(*) Miguel Cervantes
Miguel de Cervantes Saavedra de Alcala Henares (1547 - 1616), Célebre Poeta espanhol, autor do igualmente célebre romance satírico "El Ingenioso Don Quijote de la Mancha", o segundo livro mais lido pela humanidade depois da Bíblia.

segunda-feira, 7 de março de 2011

OSVANDIR E O CARNAVAL DE 2011


"Depois do Carnaval as máscaras caem..." Omair, Primo do Osvandir



Osvandir abriu os jornais, só tinha fotos de mulheres quase nuas, dançando no carnaval do Rio, São Paulo ou Salvador.

Pensou, pensou, resolveu cair no samba. Foi primeiro pro Rio, ficou no camarote do jogador Neimar, passou no da Xuxa e várias outras personalidades. Não perdeu tempo e aproveitou para conversar com alguns turistas.

A Rainha de Bateria da Imperatriz Leopoldinense Luiza Brunet, quando desfilava, acenou para ele.

Já no camarote da Brahma várias personalidades desfilaram, inclusive o Osvandir. Quando estava cantando e apreciando as baterias junto com aquele cantor Luan, e umas bonitas dançarinas, apareceram os Vesgo e Silvio Santos do Pânico e estragaram tudo.

Em Salvador encontrou com Ivete Sangalo e Claudinha Leite. Desfilou nos trios elétricos.

Todos disseram fogo! Foi um alvoroço geral, mas era a Águia de Ouro invadindo o Sambódromo do Anhembi.

Todos disseram fogo! Era fogo mesmo! “Aparecida foi a quinta escola a desfilar no Carnaval de Manaus 2011, sofreu com um incêndio em uma de suas alegorias”.

O carro “Cinema em Terceira Dimensão – Arte ou Ilusão”, da Mocidade, de São Paulo, quebrou antes do desfile, estava muito pesado.

Engraçado, Osvandir não viu mulher pelada neste carnaval...

Muita gente fazendo xixi na rua e foram presos. Turistas olhavam e não entendiam nada.

Cansado de tanta movimentação, fantasias e sonhos mil, voltou para Minas, para pagar as contas de IPTU, ISS, INSS, IPVA, Aluguel, Oficina, Farmácia e empregada, sem falar no Imposto de Renda que espera todo mundo neste mês de março. É conta demais para quitar é melhor não deixar acumular.

Quarta-feira de cinzas, ao pó vamos retornar...

Manoel Amaral