sábado, 22 de janeiro de 2011

Osvandir e o Apocalipse


“Este termo é indevidamente interpretado como sendo
sinônimo de "fim do mundo" ou "final dos tempos".
Pe. Otair, primo distante do Osvandir


Choveu durante uma semana inteira, o equivalente a mais de um mês. A terra encharcada foi descendo dos morros. Árvores caindo, pedras rolando. Casas e barracos sendo levados pelas águas. Nada conseguia impedir a fúria da natureza.
Os moradores ribeirinhos foram todos levados pela correnteza. Aquilo já era previsto, ninguém tomava providência nenhuma. Em nosso país existe a política para dificultar as coisas, não para resolvê-las.
O terreno era íngreme, um riozinho lá embaixo. Pedras incrustadas por toda a região. Desmatamento à vista. Poucas árvores nativas, mais capim e plantas rasteiras.
E as leis diziam que as encostas deveriam ser tratadas. Que a distância entre a margem do rio e as construções era de 30 metros. Que não poderiam fazer isso e aquilo, mas não havia fiscalização. E quem não tem nada, constrói sempre nos piores lugares. E todos nós sabemos que os Órgãos Públicos, com as poucas verbas que recebem, não têm condições de cuidar da Saúde, Educação, Transporte, Obras Públicas, etc.
Em tempos de chuvas as estradas pioram, as pontes precárias se vão, os barrancos caem e bloqueiam passagens. Aumentam as doenças: a dengue, leptospirose, gripes, hepatite viral tipo A e diarreias.
A chuva lava a alma, como dizia o poeta, mas ela também mata. E os mortos começaram aparecer aqui, ali e acolá. As covas nos cemitérios passaram a ser feitas por retroescavadeira, de tantas que eram. Alguns nem foram identificados, fotografados e enterrados.
O choro, as lágrimas, a dor, a solidão e a imprensa em cima. Queriam detalhes, com aquelas perguntas mais idiotas, despreparados que são. Semanas e semanas tocando naqueles assuntos, inundando os lares com as mesmas notícias e com vídeos mostrados até a exaustão.
Os meios de comunicação querem audiência a qualquer preço. Se não tem notícia na área política, um mensalão, um caso de corrupção (tão comum), vem água e mais água.
O povo do país inteiro foi mobilizado para enviar mantimentos, remédios, material de limpeza e principalmente água. Muitos não bebiam água potável há dias. Os helicópteros passavam e eles acenavam que estavam sem água e alimentação.
Algumas fazendas mais distantes só foram percebidas quando faziam sinais de SOS no que restou do terreno.
Alguns moradores, verdadeiros heróis, nem chegaram a ser entrevistados por que assim agiam, perdendo os seus bens para salvar os de terceiros.
Eles tinham uma aparelhagem moderna de comunicação, previsão do tempo e coisas tais, mas haviam sido desligados por falta de verbas de manutenção. Prefeitura é assim mesmo: reclamam que precisam disto e daquilo, quando o material chega eles não conseguem dar continuidade ao trabalho. Muitos equipamentos modernos estão enferrujando em hospitais, escolas e secretarias municipais. Não tem gente que saiba operar tais aparelhos.
Mas um novo dia virá e o sol com algumas nuvens de chuva produzirá o maior espetáculo da terra: o arco-íris!

Manoel Amaral

domingo, 2 de janeiro de 2011

OSVANDIR GANHOU NA MEGA-SENA DA VIRADA



Duas pulgas conversando:
— O que você faria se ganhasse na Mega-Sena da Virada?
A amiga responde, com ar de sonhadora:
— Ah... Eu compraria um cachorro só pra mim!

Osvandir começou a comprar os bilhetes da Mega-Sena da Virada, desde o dia 15 de dezembro.

Tudo parecia que dar certo. Jogou nas dezenas: 10, 20, 30, 40, 50 e 60. Sabia que muita gente iria fazer isso, não importava, se ganhassem todos seriam felizes.

Marcou um cartão com um jogo sonhado, outro por pura intuição e outro de acordo com as idades dos sobrinhos e pais.

Remexeu no bolso ainda sobrara alguns reais; fez mais dois jogos diferentes, marcou os extremos e centro do cartão: 01, 10 – 51 e 60, além de ir para o 25 e 36, depois repetiu os mesmos números dos extremos em outro cartão, alterando somente os números do centro passando para 26 e 35.

Jogou um cartão com os números do seriado da TV, LOST: 4, 8, 15, 16, 23 e 42. Fez outra seqüência com estes números: 48, 41, 51, 52, 34 e 26. Jogou também, como não poderia faltar, nos números derivados de 2010 e 2011: 01, 20, 21, 10, 22, 11.

As datas de nascimento da família, da namorada, tudo serviu para palpite de jogo.

O número da casa, do telefone, do celular e assim por diante.

Agora era só esperar. O dia 31 de dezembro chegou, 20 horas seria o sorteio. O tempo não passava, a aflição era muito grande.

Andou pra lá e pra cá dentro de casa, não deu. Resolveu fazer uma caminhada para relaxar. Passou na porta da Casa Lotérica, antes das 14 horas e a fila era enorme. Pensou: __ Ainda bem que fiz meu jogo por antecipação. Foi um cartão por dia, até ontem.

Aproximando-se das 17 horas e a TV a todo instante fazia chamadas dizendo o valor do prêmio, cerca de R$200.000.000,00 (duzentos milhões de reais), o maior prêmio já pago pela Mega-Sena. O que fazer com tanto dinheiro?

Começou a pensar: __ Primeiro sumiria por uns dois meses, para fugir da mídia, iria pescar no Pantanal e viajar para Itália e Portugal a fim de conhecer os antepassados da família “Vieira Nicolai”.

Os 200 milhões, depositado na caderneta de poupança, (juros de 0,5228%, 31 de dezembro, o pior índice dos últimos tempos desde 1967) renderia cerca de 1,15 milhão de reais por mês. Este valor mensal é maior que o badalado prêmio do BBB por muitos anos.

Para se ter uma ideia, este prêmio daria para comprar 8 mil carros populares ou 40 mil motocicletas de 125cc. Mas se quisesse investir em imóveis, poderia comprar dez edifícios inteiros, cada um com 20 andares e 4 apartamentos por andar ou centenas de casas populares.

Tentou tomar um cafezinho, a mão tremeu, o café caiu na camisa branca da virada do Ano Novo. Nem importou, o seu sentido estava no resultado da Loteria.

Não enxergava mais nada, uma tinta preta escorrera dentro de seu cérebro, por entre os neurônios, apagando tudo. Os seus pensamentos eram apenas uma fumaça negra. Tentou usar o computador e não conseguiu nada.

Foi ver alguns filmes na TV a cabo, não conseguiu. Nem a Play Boy atraiu a sua atenção.

O tempo não passava, os segundos eram horas; os minutos dias e as horas meses. Tudo arrastando numa lentidão sem fim.

Os foguetes começaram a estourar, não sei se pela Mega-Sena ou pela passagem de ano. 2011 seria muito bom para todos, número impar, final de um, somando os números daria 4 e quatro na numerologia representa estabilidade e fidelidade. Simboliza as quatro estações do ano, os elementos e as pontas dos compassos. Este seria mesmo um ano de sucesso para muitos.

Pegou os bilhetes, ficou olhando-os, aqueles números cresciam, viravam miragens, castelos de areia e desapareciam.

Chegou a hora, saiu, agora eletronicamente, o primeiro número: houve um acerto. O segundo: também acertou. O coração estava saindo pela boca. Saiu o terceiro número e houve na sala borbulhar, havia acertado!

Uma pequena pausa no sorteio, para acalmar os jogadores e aumentar o suspense. O Ibope da TV foi às alturas. A internet ficou totalmente congestionada. Foi sorteado o quarto, nem precisava dizer, ele acertou.

Começou a passar mal, as pernas amoleceram, ficou vermelho que nem um peru. A quinta bolinha desceu correndo pela tubulação transparente da máquina eletrônica e caiu naquela mesinha. Apareceu na tela da TV e ele acertou.

O sexto número fez a mesma trajetória e a máquina vomitou-o naquela mesa transparente. Houve um hôôô!!! A bolinha quase caiu no chão de tanta emoção dos que extraiam da máquina aquele resultado.

Daí em diante, na TV, nos Rádios e as conversas nas ruas, só falavam naquilo. Muitos milhões nos bolsos de alguns e outros a ver navios.

Manoel Amaral