sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A GATINHA CIND

A GATINHA CINDERELA

“Gatinha não gosta de sujeira, gosta é de ficar bem bonitinha.”
Tataravô de Osvandir


Ela perdeu a mãe muito cedo e seu pai, ainda jovem, resolveu se casar novamente. Ali naquela cidade do interior, quando acontecia isso era uma falação danada. Diziam que o sujeito estava doido, era mais velho dez anos que a mocinha casadoira. Ele não deu atenção às beatas, casou-se e estava quase feliz se não fosse a sua linda filha do primeiro casamento, a Cind.

Ela andava meio amuada, a sua madrasta era muito má e a colocava para lavar roupa naquela máquina velha e estragada. Limpava o chão da casa, dos três banheiros e ainda tinha que fazer o almoço todo dia. Era um trabalho muito pesado para a pobre menina.

Seu pai, como todo homem, era meio distraído e nem notou que a sua mulher estava maltratando a sua adorada filhinha.

Numa festa, uma balada, foi que reparou que ela queria falar-lhe alguma coisa:
– O que foi filhinha? Anda tão tristinha!
– Pai, é que hoje tem uma balada lá no SOM BALA e a sua adorada esposa não quer deixar-me ir, mesmo depois de tudo que tenho feito aqui em casa e ainda estudar à noite.
– Vou conversar com ela e vai ver, tudo vai dar certo, pode deixar...
– Só quero ver Papi!

O dia custou a passar para aquela menininha de cabelos louros anelados e nariz arrebitadinho. As sardas de seu rosto já estavam indo embora, já ia completar 15 anos e podia até tirar aquele horroroso aparelho dentário de metal. Era uma menina aplicada, tirava boas notas na escola, a famosa “Gral”, a melhor da região, onde só estudava crianças inteligentes e de boas famílias. A madrasta queria colocá-la numa escola pública, mas o pai foi incisivo:
– A Cind tem que estudar na melhor escola da região.

E assim foi. Lá estudavam e também arranjavam os namoradinhos. As duas filhas da madrasta também estudavam lá. Era duas meninas odiadas por todos. Muito exibidas e andavam com roupas de grife e acessórios caríssimos. Para a Cind sobrava apenas alguns brinquinhos de biju. Mas o celular ela tinha e fazia questão; devia estar sempre com bateria e créditos, para conversar com o pai.

Mas como roupa não melhora a imagem de ninguém, ela brilhava com aquele shortinho azul e a camisa branca da escola, sem nenhuma afetação.

A hora da balada chegou. As outras filhas estavam todas apavonadas e ela com toda simplicidade. Na hora da partida pensou que poderia ir, que seu pai teria conversado com a Madrasta Madalena, mas qual o que, o “velho”, como carinhosamente ela o chamava, nem lembrou do assunto.
– Você não vai bruxinha! Pode passar a mão na vassoura e no rodo e vá limpar os banheiros porque amanhã teremos visitas importantes.
– Mas “Madá”! (ela chamava carinhosamente a Madrasta assim.)
– Nada de ma, me, mi e coisa nenhuma. Vá fazer o que lhe mandei e não saia à rua sozinha que é muito perigoso! Tem muito maconheiro por aí.
– É Cind, você pensou que iria encontrar com aquele rapaz? Nós é que iremos vê-lo. Adeusinho querida e bom trabalho sujo para você!

As duas meninas eram mesmo implicantes. Enchiam o saco da todo mundo e ainda se julgavam as mais belas da cidade.

Mas como tudo pode acontecer, Cind recebeu um telefonema de seu primo Jonas que estava na cidade e queria conhecer o Clube.

Eles combinaram o horário e logo depois estavam os dois lá no meio da balada. Havia gente de todo tipo, era um verdadeiro zoológico.

A promotora da festa conseguiu uma mansão, com enormes escadarias, onde os jovens subiam e desciam a todo momento. Luzes de laser por todo lado e o som a toda altura. Alguns vizinhos já começavam a reclamar.

A velha e má Madrasta disse que voltaria para casa a meia-noite, o que significaria que voltaria lá pelas três da madrugada. O tempo passava, até que numa saída do banheiro feminino, Cind conheceu um belo rapaz com cara de príncipe de filme. Conversa vai, conversa vem, ficou sabendo que era de outra cidade, de outro estado, bem longe dali.

Ele foi logo ficando gamadão pela linda menina de cabelos cacheados. O seu carrão, todo colorido e rodas cromadas de magnésio indicava que era filho de algum rico empresário. Mas Cind nem ligava para dinheiro, ela queria é ser feliz.

O relógio só tiquetaqueando, o tempo passando, quando ela olhou para o seu celular de cristal (um plástico fabricado na China, mas muito vistoso), foi que notou que já aproximava das três da matina.
Ela não teve como ficar mais tempo por ali, teria que ir embora, procurou o seu primo, este desaparecera no meio do salão. Chamou um táxi, o moço disse que a levaria onde quisesse, ela não quis.

Ao sair apressada, deixou escapar o celular, que caiu bem no meio da escadaria da mansão.
O rapaz viu qualquer coisa brilhar e foi lá apanhar, era o aparelho da linda menina. Ele pensou: “depois eu a procuro para devolvê-lo e aproveitar para bater um papo.” E foi o que aconteceu.
Como ele era esperto, olhou e notou que havia um GPS no aparelho, com mapas das ruas da cidade. Foi só instalá-lo no carro e seguir as direções indicadas.

Bateu na porta da casa da Cind. A velha foi quem atendeu.
– Sim?!
– Desejaria conversar com a dona deste celular...
– Deve ser de uma das minhas filhas, vou chamá-las.

Ela sumiu lá para dentro da grande casa e nesse meio tempo Cind veio atender à porta, pois ouvira o sinal da campainha. Ao ver o rapaz, assustou-se, pois estava com uma roupinha caseira, bem simples: uma camiseta de malha azul e um shortinho branco.
– Vim trazer o seu celular, acompanhei pelo GPS por isso encontrei muito rápido a sua casa.
– Mas que coisa, hein?! Vamos entrar, vou mandar alguém preparar alguma coisinha para a gente comer.

Foi aí que ela lembrou que quem preparava a mesa naquela casa era ela. Voltou e disse que daí a pouco viria um cafezinho, um “refri” ou um suco de açaí, acompanhado de gostosas bolachas recheadas.

Conversa vai, conversa vem e o papo estava muito agradável, ele contou tudo para ela. Quem era o seu pai, um rico empresário do ramo de tecidos lá do sul. Ela só caladinha ouvindo tudo.

Nesse meio tempo apareceu na sala uma das filhas da “Madá” e foi logo dizendo:
– Este celular é meu, meu príncipe.

Aí a confusão se formou; a outra filha mais velha também apareceu; a mãe, muito sem educação, queria por todos meios pegar o celular, mas o rapaz não deixou, entregou-o para a verdadeira dona, a Cind.

Quando a discussão estava feia apareceu o pai e quis saber o que se passava, quando a adorada filha contou tudo! Só assim que ele percebeu o quanto sua filhinha querida era maltratada por aquela mulher. Pediu o divórcio.

Meses depois o rapaz ligou que viria e veio, pediu-a em casamento.

Namoraram, casaram e tiveram muitos filhos.

MANOEL AMARAL

2 comentários:

  1. Manoel, recebi seu comentario no meu blog, obrigada.
    Eu nao moro em NY, e nem em nenhum cidade de grande porte do EUA. Moro numa cidade pequena da Florida.
    Oq vc deveria tentar fazer eh achar um agente aqui nos EUA para tentar publicar seus livros. =)
    Boa sorte p/ vc!
    Livia

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  2. Obrigado pelo comentário Lívia.
    Só agora, mais de 2 anos que vi
    a sua resposta.
    Fico grato e informo que já
    tomei estas providência.
    Breve estarei nas livrarias
    dos EUA.

    Abraços
    Manoel

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