quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

AS TRÊS CEIAS DE NATAL

Que o espírito natalino traga aos nossos corações a fé inabalável
dos que acreditam em um novo tempo de paz e amor.
Boas Festas.
(Fernando Waki)

Ele não queria escrever sobre o assunto, neste fim de ano, tentou por várias vezes se livrar da ideia. Muita gente já tinha falado sobre o assunto. Mas aquilo ficou martelando a sua cabeça, sem cessar, teve que escrever.

Eram três casas que Osvandir teria de visitar na noite do Natal: a primeira, num luxo danado. A segunda o pessoal da classe média e a última lá no sítio do Poço Fundo.

Chegou à iluminada mansão do Senhor Josias por volta de nove horas, a mesa estava posta, com frutas, castanhas, vinhos das mais variadas marcas, tudo importado.

Tudo numa arrumação de fazer gosto, trabalhado por experts no assunto, especialmente contratados para aquela noite. Garçons refinadíssimos servindo a todos com muito préstimo.
Mulheres desfilando nos seus últimos modelos, vindos de Paris. Fotos e mais fotos nas mais modernas câmaras digitais.

Não ouviram nenhuma Ave Maria, assunto só eram política, futebol e festas.
Na segunda ceia, do Senhor Quinzinho, casa mais modesta, um pequeno presépio num canto, mal iluminado e a mesa bem no centro da sala principal.

Ali viram muita coisa importada, ainda, devido à baixa do dólar.
E todo mundo comendo, comendo e bebendo. Assuntos principais: futebol e últimos crimes. Não esqueceram de comentar aquele caso do estado do Pará, em Belém, do menino, recém nascido, que foi atirado pela mãe, no quintal do vizinho. Estava passando a reportagem naquele momento na TV.

Osvandir saiu dali, despedindo de todos e foi para a última ceia, na zona rural.
Antes de chegar ao local, já avistara uma criança encarregada de abrir a porteira para as visitas e indicar onde poderiam estacionar os seus carros. Casinha simples, branca com portas e janelas em azul forte.

Ao adentrar ali, a primeira coisa que viram foi o imenso presépio, muito bem montado, tudo com coisas da região. Cristo estava acomodado numa casca de palmeira. Frutinhas e flores do mato estavam espalhadas por todo canto. As figuras representativas eram feitas de saco de aniagem e cabaças. Várias pedras coloridas naturalmente. Uma pequena cachoeira foi montada, com a entrada da água sutilmente escondida, trabalho de mestre.

A mesa bem montada, com frutos da região: banana, abacaxi, laranja, alguns colhidos no mato. Mas uma chamou a atenção do Osvandir e perguntou para o Senhor Arthur, dono da casa:
-- É fruta importada?
-- Não, é de um pé que plantei no quintal. Uma muda que recebi de presente. Vamos lá para você ver como está bonita.

Chegando ao local depararam com uma enorme árvore cheia de frutos de cor arroxeada. Era a lichia, originária da China, se deu muito bem em terras brasileiras.

O interior do fruto é muito parecido com bacupari, fruto de cor alaranjada quando maduro e muito apreciado pelas crianças na zona rural. Com vários nomes em cada estado, tem também um cipó com este nome.

Dona Maria convidou a todos para orar e depois servir a ceia.
Uma leitoa estava estirada sobre a mesa, saída do forno naquela hora. Carne de porco, de boi, alguns frangos caipiras, farofa feita com farinha de mandioca, doces de todos os tipos, feitos em casa.

Cada visitante trazia um pratinho com alguma coisinha para completar a mesa.
Naquela confraternização, todos se abraçando, conversando e dando boas risadas.
E aí caros leitores, perguntamos para você: Em qual das casas ouve o verdadeiro Espírito do Natal?

Manoel Amaral

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