sexta-feira, 16 de abril de 2010

A EXPLOSÃO

O terreno, outrora utilizado pela Prefeitura para depósito final de detritos, agora com várias construções e moradores, virou um bairro.

Zequinha Cabeludo e seu irmão Picuim ainda menor de idade moravam bem no alto do morro, naquele barraco, que conquistaram pedra por pedra, tijolo por tijolo.

Conheciam todos os moradores, desde a rua de baixo até aquela lá no alto, onde edificaram o humilde barraco de três cômodos: quarto, cozinha e banheiro.

Viviam de coleta de latinhas de alumínio e papelão, recolhidas lá em baixo, onde passavam maior parte do dia.

Vendiam o material recolhido nas ruas para um explorador, atravessador, que depois revendia pelo dobro do preço da aquisição.

Mas Zequinha e Picuim estavam felizes, tinham o que comer todos os dias e trabalho era o que não faltava. Quanto mais os escritórios, casas chiques, lojas, bares e supermercados, botavam para fora o seu lixo, mais eles sorriam. Aquele dia estava garantido.

Passavam no depósito de Jack; os atravessadores sempre tem nomes, carros e casas bonitas. Exploravam os coitados, mas eles se sentiam os donos do mundo, lá do alto viam melhor o céu, as estrelas e até algumas luzes muito estranhas.

Acordavam de manhã e Zequinha ia comprar o pão dormido no comércio do Juventino enquanto Picuim coava o café ralo. O fogão era a lenha, queimavam os pedaços de caixas de madeira que sobrava do supermercado. Assim desciam do alto, cantando os últimos sucessos tocados nas rádios.

Algumas meninas (minas) já tinham engraçado com Zequinha, mas ele que cuidava de seu irmãozinho, não tinha tempo para namorar.

Naquele findar do dia, escutou um assunto muito interessante de seu amigo que morava mais embaixo. Guardou aquilo na cabeça e depois iria conversar direito sobre isso.

Os dias se passaram e o assunto foi esquecido. A chuva começou a cair. Cada dia pior, os barracos desmoronando. Mas o deles agüentava firme lá no alto, fora bem construído.

O serviço de coleta de papelão e papel ficara prejudicado com as chuvas que caiam insistentemente, só restaram as latinhas de alumínio. Mesmo assim eles passavam bem, comendo o seu arroz e feijão. Nos fins de semana quando a coleta era boa ou quando o supermercado tinha em oferta, eles compravam um quilo de carne moída que colocavam numa geladeira velha que conseguiram levar lá para cima, com ajuda de alguns colegas.

Estavam os dois naquela vidinha de sempre, tranqüila. Foi aí que Zequinha lembrou do assunto interessante que queria conversar com seu amigo. Ficara sabendo que algumas pessoas estavam cozinhando sem uso de lenha ou botijão de gás.

Foi conversar com seu amigo para saber como faziam isso. Juquinha, mais velho, experiente, vivido e revivido, explicou-lhes que utilizavam um cano de ferro, destes de tubulação de água, fincavam no chão, do lado de fora da casa, até uma profundidade de três, quatro ou cinco metros para baixo e faziam ligação com o fogão na mangueira do botijão. Riscavam o fósforo e o fogo acendia tão bem como o do gás comum. Para apagar usavam a mesma chave.

Zequinha queria modernizar, iria passar da lenha para o gás, isso seria muito bom, não precisaria trazer aqueles restos de caixa de madeira todo dia.

Procurou nas suas velharias, encontrou um cano e pensou: - Este aqui deve servir.

Marcou mais ou menos a uns dois metros do barraco e começou a fincar o cano no chão. De repente um cheiro forte de gás, mas o seu colega sabe-tudo, disse que era assim mesmo, era o metano. Que nome esquisito, ele não entendia nada destas coisas.

Agora estava faltando um fogão e ele já tinha um que havia recolhido no mês passado, que veio até com a mangueira. Não entendia como a população lá de baixo trocava tanto de eletrodomésticos, este estava praticamente novo, dava para ser usado por muitos anos.

Colocou o fogão perto da janela, fez a ligação dos canos, abriu a chave, riscou o fósforo e uma chama azul apareceu.
-- É só um teste, traga o arroz aí Picuim, vamos aproveitar este fogo. – disse Zequinha.

Cozinharam a manhã inteira, até esqueceram de ir trabalhar. Estavam tão felizes, dava para notar em seus rostos.

À tarde o proprietário do supermercado perguntou ao Zequinha se ele queria os restos de taboas, ele disse que não e ainda revelou:
-- Agora tenho gás lá em casa!

Na manhã seguinte o Picuim fez o café e algumas torradinhas com os restos dos pães. Comeram e desceram.

Já haviam recolhido um bom material e já iam subindo a rua para fazer o almoço, quando ouviram uma explosão e viram um montão de terra deslizando morro abaixo. O susto foi tão grande que correram para qualquer lugar mais alto.

Picuim foi o primeiro a falar:
-- Acho que esqueci de desligar o gás.

Manoel Amaral

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