domingo, 21 de março de 2010

OSVANDIR E O UFO DA CASCATINHA

“Realidade e ficção, aqui amalgamadas
por um tênue fio de fantasia.”
Ronaldo Cagiano


Osvandir não estava mesmo nos seus melhores dias. Quando abriu o guarda-chuva chinês, uma rajada de vendo o levou de uma só vez. Ficou apenas com o cabo nas mãos. Pensou: — Estas porcarias baratas só dão nisso, a gente fica na chuva.

Entrou no seu veículo, engrenou a ré e quase bateu numa moto. Subiu no passeio, ficou muito nervoso, quase acertou um poste.

Saiu em disparada pela rua de baixo, ao alcançar uma pequena ponte e logo após uma subida forte, de terra com cascalho solto, deixou para trás, o último bairro da cidade.

Estava com pressa, ultrapassou a estradinha onde devia entrar, à esquerda. Virou o carro numa operação nada convencional, conseguindo alcançar aquele desvio que procurava.

Chegou numa encruzilhada e agora? Seguir em frente, à direita ou à esquerda? Sua mãe sempre dizia, em caso de dúvida siga à direita. Seguiu, era uma estrada sem saída. Voltou e seguiu em frente.

De longe dava para ouvir o barulho da cascatinha. Aproximou mais do local e avistou umas pedras. O córrego estava lá embaixo, a uns cem metros. Era ali mesmo o local indicado pelo pessoal.

Primeiro resolveu refrescar a cabeça nas águas da pequena cascata.
O poço não era tão fundo, mas todo cuidado era pouco, por causa das pedras. Não precisava ir muito perto da queda, o vento trazia aquela aragem até a gente.

O posto de observação dos Óvnis era logo abaixo das pedreiras. Tinha sinal de fogueiras por ali. Os restos de uma barraca de plástico preto ainda resistiam ao vento.

Não precisou esperar muito depois que escureceu. Várias luzes começaram aparecer do lado da matinha. No brejo um fogo azulado, que conhecemos por fogo fátuo, aumentava à proporção que escurecia.

Ouviu um zuuuuuummmmm. Não percebeu de onde vinha. Colocou a câmera digital em punho, pronta para fotografar até um inseto, por menor que fosse.

Olhou para cima, céu estrelado, nada de discos voadores. Um silêncio sem fim. Parecia que ele estava praticamente surdo. Nem um grilo cantava. Nem coruja aparecia nos buracos daquele cupinzeiro no meio do pasto.
Encostou-se às pedras, dormiu. Acordou assustado, um barulho no meio do mato. Foi verificar, era um coelho que corria de um predador.

Voltou ao seu posto de observação. Tinha muitos mosquitos, fez como os pescadores: pegou uma bosta de vaca, bem seca, colocou fogo, a fumaça espantou os insetos.

Novo barulho, nem ligou, deveria ser alguma cobra pegando algum rato ou um preá fugindo de gato do mato.

Cochilou, assustou-se, olhou o relógio, não passara nem cinco minutos e imaginara que haviam decorrido várias horas.

Um clarão muito forte surgiu pelo o lado do despenhadeiro. Subiu mais rápido que a velocidade da luz. Não deu tempo nem de ajeitar a câmara.

Naquele silêncio, um medo, uma tremedeira, suor frio, tudo de uma só vez atacaram Osvandir.

Levantou-se, bateu o pé no chão, sem nem saber por quê. Apontou a câmara para o lado do Cruzeiro do Sul, deu um giro de noventa graus e focalizou outras estrelas. Notou um pontinho cintilante que se aproximava numa velocidade incrível. Desta vez ele não iria perder nenhuma foto. Foi afastando e fotografando. Inadvertidamente clicou no “modo fotografar”, que na realidade filmava. Tropeçou naquele cupinzeiro, embaraçou-se num cipó e saiu rolando ladeira abaixo, com a câmera na mão. O impacto da queda de mais de quinze metros acabou desligando-a.

Verificando o que fotografara, notou que havia feito um filme de sua própria queda. Uma pedra, um cupinzeiro, um mourão de cerca, umas folhagens e nada mais. Nada mais? Na última cena da filmagem havia um ponto negro, bem nítido, entre duas estrelas.

A prova estava ali, na última foto. Passou para o computador, consultou seus amigos e todos foram claros:
-- Trata-se de um inseto.


Manoel Amaral

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