quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O ASSASSINATO DE UM PRESIDENTE

O jornal noticiou que um louco fora internado no hospital. Tinha mania de querer matar o Presidente.

O Presidente estava preparando-se para partir. Iria visitar um estado que lhe era hostil, para acalmar os ânimos na política.

A política da esposa era outra e avisava sempre: __ Cuidado querido. Quero que você volte vivo! A gente nunca pode confiar num louco. Ele é sempre capaz de cometer desatinos...
__ Desatinos! O que há? Está com medo querida? Já viajei tanto e nunca me aconteceu nada. Tudo é a prova de bala no carro...

O carro americano, modelo 1963, deslizava suavemente no asfalto e a rádio anunciava que um louco fugira do hospital. O rádio do carro foi desligado por um instante.

Há instante dali, num recanto da cidade mais próxima a conversa era diferente: __ Você já está com o fuzil?
__ Já!
__ Então faça tudo como te ensinamos. Você não deve perder tempo. Estaremos te esperando do outro lado da rua.

Do outro da rua principal dera entrada o carro presidencial e vinha uma fila enorme de outros carros atrás. Os Senadores, Deputados, Governadores e Jornalistas sempre acompanhavam o presidente onde quer que ele fosse. Um forte dispositivo de segurança estava preparado.

Preparado ninguém está para o imprevisto. O presidente sentindo muito calor (teria o ar condicionado enguiçado?), mandou abaixar as capotas à prova de bala, justamente na hora em que virava a esquina.

Na esquina, do alto do prédio mais próximo, um tiro partiu. Todos ouviram, mas ninguém foi atingido. Outros três foram disparados de locais diferentes e o presidente foi atingido na cabeça e no pescoço.

Pelo pescoço abaixo o sangue escorria e hemorragia instalou-se naquele cérebro.

Naqueles cérebros a confusão se formava: __ Mataram o presidente! Assassinos loucos!

O louco saiu correndo, escada abaixo, atravessou a rua mas foi preso por um soldado que já estava ali para isso.

Enquanto isso, o carro presidencial dava entrada no hospital da cidade.

Na cidade o comentário era muito grande e um boato começou a ser espalhado no meio da multidão:
__ Um louco matou o presidente, dando três tiros lá de cima!

De cima, mais alto em pensamento do que a camada popular, os jornalistas imaginavam diferente:
__ Foram três tiros vindo de locais diferentes, o louco preso não era o assassino, o tiro vindo do prédio da esquina não atingiu ninguém.

Ninguém imaginava que o suposto assassino do presidente ia para o matadouro. Os saldados levaram o psicopata para a rua central da cidade. Ele não parecia doente mental, alguém que perdeu a razão, pelo contrário, articulava bem as palavras e seus gestos eram bem compreendidos. Contudo qualquer coisa o impedia de falar o que desejava. Queria gritar para todos que não estava louco. Que aquilo tudo não passava de uma farsa! Até a fotografia com o fuzil! Tudo combinado! Planejado!

Planejado também estava a sua morte! Quando fez um esforço maior para falar, um tiro a queima-roupa provocou uma fumaça no meio da multidão e a câmara da TV pode captar o último gesto do inocente útil, ainda algemado a um soldado.

Um soldado sem qualquer esforço pegou o atirador, ainda com a arma na mão.

Na mão da polícia estava o segredo da morte dos dois e ninguém se atreveu a verificar a verdade. O Relatório famoso, dizia que não havia complicação com organismos internacionais e que o único culpado era o “assassino louco,” o outro era apenas um “espectador exaltado.”

MANOEL AMARAL
Em dezembro de 1963

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