quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

OSVANDIR E A TERCEIRA (RODO)VIA

“A solidão é companheira quase inseparável do caminhoneiro”.
(João, motorista de carreta)

“O homem me deu vários tiros, felizmente, só um acertou-me.
Hoje era para estar morta, mais uma vítima do destino.”
(Patrícia, Garota de Programa)


João, motorista, que não largava nunca seu caminhão, nem para refeição. Comia ali mesmo, na boleia, nem descia para tomar banho e para as suas necessidades fisiológicas. Mandara instalar um banheiro completo na cabine dupla.

No meio do trânsito, contava história para o acompanhante, repórter de um jornal argentino, que pesquisava o uso e tráfico de drogas, naquela região.

Dificilmente levava caronista. Já sofrera com uma linda mulher que foi plantada no seu caminhão como “isca”, lá no meio do cerrado, longe do mundo, foi assaltado, só não levaram o caminhão. Todo o dinheiro evaporou-se, num piscar de olhos.

Não descia, o João, daquela cabine já velha. No posto de abastecimento de combustível comprava o que precisava.

O pessoal já conhecia o “João Sentado”, apelido que recebera naquela região, por estar sempre no caminhão.

Ele rodara o Brasil inteiro, de norte a sul, por estradas asfaltadas e de terra. Terras perigosas e terras de fartura. Lugares de muita chuva e outros de puro deserto. Beira-mar e até mato-a-dentro, subia e descia morro, por entre buracos e areia.

Nunca desgrudara daquele volante, a não ser num desastre que ficou conhecido nacionalmente, onde o motorista não quis sair da cabine.

Viu naquelas estradas muita amargura: assaltos, roubos de carga, matanças.

Já estava ficando velho naquele volante. Com 65 anos, não animava mais a ir muito longe, mas ficava na sua região rodando de empresa em empresa para pegar o seu serviço. Levava milho para um lado e transportava feijão para outro.

Aquele carregamento de açúcar foi o mais pesado que já pusera na carroceria de seu caminhão. Partira de Mato Grosso do Sul e seguiria para o grande Porto de Santos.
Tudo traçado, dinheiro do carreto já na mão, era só ganhar a estrada.

Acontece que começou a chover muito no estado de São Paulo, principalmente no litoral. Várias cidade estavam debaixo d’água. O povo sofrendo horrores. Muita gente perdera tudo que tinha conseguido juntar até aquele dia.

Para proteger a sua carga, ficara vários dias num posto de gasolina.

Muitos motoristas achavam engraçado ver o João ali na cabine sem descer nunca. Almoçava, jantava, dormia e nada de sair do seu caminhão.

O tempo melhorou, seguiu viagem, parou em vários pontos que já conhecia e outros pela primeira vez. As cidades cresceram muito naquela região.

Estava até entusiasmado, num posto de combustível, alguém conferira os pneus e dissera:
-- Tudo OK!

Faltando 50 km para o destino final, a chuva começou, parou no acostamento, mas ela continuou pelo dia inteiro.

Recebeu notícia, pelo rádio, que uma ponte havia caído, mas não ficou sabendo em que região.

Olhou aquele mundão de água pela estrada. Seguiu em frente.

Num rio, já bem escuro, pensou em parar, mas pisou no acelerador e cortou aquelas águas.

Sentiu uma friagem por todo corpo. O caminhão afundou e foi levado por aquelas águas barrentas.

Os dias se passaram e nada de encontrarem aquele caminhão.

Um sitiante, procurando o seu gado, encontrou o caminhão, com o João grudado no volante.

Se algum dia, ouvir o barulho de um velho caminhão, mas não ver nada na rodovia, pode ter certeza que é o João Sentado, viajando por estas estradas de nosso país.

MANOEL AMARAL

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

OSVANDIR E O DESPERTAR

“A realidade supera a ficção.”
(Osair, tio do Osvandir)


Ela estava ali naquela cama de hospital, viera por causa de uma pneumonia.

Há muito não andava, não falava, não movia nem um dedo, imóvel por mais de três anos, em estado de coma.

Era ainda jovem, de repente caiu doente e não se levantou mais. Os médicos não descobriram por que. Seus órgãos internos funcionavam normalmente. O coração batia, o sangue corria nas veias. Alimentava através de sonda. Abria os olhos mas não via.

Ouvia, mas somente aqueles além do ultra-som. Sentimentos tinha. Precisava despertar daquela vontade adormecida.

Passava anos e anos e sua família ali cuidando sempre. Algumas partes do corpo já estavam com enormes feridas devido à posição do deitar.

O seu estado era razoável. A família foi diminuindo. A mãe faleceu, algumas irmãs também.

Mas a luta diária continuava. Os tios, as tias, os irmãos, todos se revesavam para cuidar daquela menina-moça que não despertava.

Tinha uma irmã que não gostava muito daquilo tudo e resmungava sempre: -- Não quero ver esta menina sofrer tanto.

No outro dia a dita irmã faleceu. Não viu ela sofrer mais.

Num dia qualquer, de um mês ensolarado da primavera, despertou, levantou-se, sem ninguém saber como e por que, continuou a andar e falar como se nada tivesse acontecido.

MANOEL AMARAL

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

OSVANDIR E OS INCENDIÁRIOS DA FLORESTA


Capítulo II

METEORITO?

Meteorito não era! Seria a Mãe-de-ouro? Muitos pensaram que sim. Mas esta não explodia e nem deixavam cratera na terra. Apenas ia de um local para outro, deixando um raio de luz no céu.

Osvandir queria ir logo ao local onde caiu a bola de fogo. O pessoal aconselhou-o a não fazer isso por que a região era muito perigosa à noite.

Amanheceu e Sô Moacir ficou assustado, o seu hóspede havia desaparecido!

Ao chegarem ao local da queda da bola de fogo, lá estava ele, todo envolvido na pesquisa, com uma bolsa na mão e vários saquinhos plásticos cheios de material coletado na cratera.

Muitas fotos foram feitas utilizando-se vários ângulos. O tamanho desta cratera era um pouco maior que a anterior: diâmetro de quinze metros. Bem no centro fora encontrado um material que não pode ser identificado no momento.

O que seria tudo isso? Bombas vindo do espaço? Ou outro fenômeno desconhecido?

De manhã Osvandir solicitou do Senhor Moacir, que desse um giro de avião nas proximidades da fazenda do Raimundinho. No ar, pegou o binóculo e foi observando a região. Notou uma clareira no meio do matagal. Pediu ao piloto que se aproximasse o máximo possível. Notou alguma movimentação de pessoas e uma construção parecida com uma torre.

Combinou uma expedição ao local para o dia seguinte.

Todos com os equipamentos nas mochilas e não faltando os longos facões de cortar cana, que serviriam para limpeza da trilha. Foi muito fácil localizar o acampamento. Osvandir havia marcado no seu GPS as coordenadas.

Com algumas horas, contando com a experiência dos ajudantes, lá estavam junto daquele estranho equipamento, com motor movido a gasolina.

Estudando todas as possibilidades Osvandir chegou à conclusão que aquilo trataria de um lançador de objetos. Verificando num quartinho, viu restos do mesmo material que encontrara dentro e fora das crateras. Debaixo de uma das camas achou uma bola, envolvida com plástico e lona, pesando aproximadamente um quilo.

Subiu na torre de madeira e colocou uma pedra do mesmo peso daquela bola. Acionaram o motor e alguém do grupo apertou um botão vermelho de um painel parafusado na madeira. Ouve-se um barulho e algo subindo em alta velocidade jogou a pedra a centenas de metros adiante. O aparelho assemelhava-se aquelas antigas catapultas romanas que lançavam pedras contra os inimigos, só que os objetos lançados por este equipamento atingiam maior altitude, consequentemente indo parar mais longe.

Tudo fotografado, filmado e bem documentado, com a prova material de uma espécie de bomba caseira, de um quilo de material, seguiram para o povoado mais próximo para entregar às autoridades a documentação.

Sô Moacir ficou encarregado de acompanhar o processo.

Solucionado o problema das “bolas de fogo” no norte do estado de Tocantins, Osvandir despediu-se dos novos amigos e voltou para Minas.

Ainda no Aeroporto Internacional Tancredo Neves, também denominado de Confins, na capital mineira, abriu um jornal e viu pequena reportagem que dizia o seguinte:

BOLAS DE FOGO NOS CÉUS DO PARÁ

Osvandir sacudiu a cabeça e pensou: --Vai começar tudo novamente!

domingo, 17 de janeiro de 2010

OSVANDIR E OS INCENDIÁRIOS DA FLORESTA

Capítulo I
BICO DE TUCANO

Na região Norte de Tocantins (do Tupi: bico de tucano), quase divisa com o estado do Pará, estaria aparecendo algumas bolas de fogo que caiam a noite.

Osvandir pegou suas malas, que estavam sempre arrumadas, para qualquer eventualidade e partiu para aquele estado.

Foi de avião até Palmas, de onde partira até Araguaina pela BR-153 e daí para o local, por rodovia e depois por caminhos mais estreitos.

O que foi notando é que a devastação da floresta estava atingindo toda a região. Queimadas, fumaça branca subindo... Queimadas, fauna e flora desaparecendo... Queimadas, céu escurecido por grandes nuvens...

Pássaros e animais mortos pela estrada, urubus devorando a carniça.
Uma placa indicativa: Plano de expansão de plantação de soja – e mais em baixo indicava o nome da empresa – SOJA-MIL.

Aquele novo mercado de agro-negócio para exportação, de bilhões de dólares, estava acabando com nossas florestas, derrubavam o verde para conseguir o amarelo – o ouro/dólares.

Mais adiante outra placa chamava a atenção na beira da estrada recém aberta: Criação de Gado Bovino – Frigorífico Boi Gordo.

O pior que a devastação era tão grande e não sobrava nada, nem uma árvore. Derrubavam a mata, aproveitavam as árvores maiores, vendiam para China e o resto era torrado ali mesmo.

Havia constantes invasões dos grandes proprietários contra os pequenos. Não respeitavam os limites, avançavam, tomando conta de tudo. Depois resolviam a situação com uma ação de revisão de área, coisa fácil para os bons advogados contratados a peso de ouro pelos empresários.

Estas mesmas empresas, que agora estavam devastando naquela região já haviam feito o mesmo em outras regiões, como Mato Grosso, Minas Gerais e Paraná.

Acabaram com as matas do sul, com os serrados do centro-oeste e agora estavam derrubando a última fronteira do país.

Os proprietários de pequenas áreas, ficavam cada vez com menos e muito assustados.

Foi este ambiente que Osvandir encontrou quando chegou na Fazenda Três Porteiras, bem ao norte de Tocantins.

Estava muito interessado nos fenômenos que estavam acontecendo por ali. Qualquer coisa estava caindo dos céus e abrindo grandes crateras na terra, assustando os pequenos proprietários da região.

O Senhor Moacir poderia ser descrito como um daqueles fazendeiros dos filmes americanos: chapéu grande, calça jeans, camisa xadrez de mais puro algodão. Nos pés aquelas botas de cano alto. Três filhos já crescidos e uma esposa ainda jovem.

Era o contato que iria levar o ufólogo pesquisador, até onde estava aparecendo as bolas de fogo no céu.

-- Senhor Moacir, como poderemos ir até o local dos fenômenos que estão acontecendo nesta região?

-- Caro Osvandir, para chegar mais rápido, usaremos o nosso pequeno avião, porque existe uma pista de aviação bem próxima de lá.

-- Então não devemos perder tempo, vamos rápido, – disse Osvandir.

Prepararam as malas, o piloto era José, o filho mais velho de Sô Moacir.

Rodaram no espaço, em direção ao estado do Pará, quase na divisa desceram e pousaram numa pequena pista improvisada.

Foram até uma pequena propriedade, com casa de madeira, onde plantavam mandioca e arroz. O sitiante, Raimundinho, como era mais conhecido, quem nos contou o que estava acontecendo por ali.

Ele estava assustado, as queimadas vinham aproximando-se e agora essas bolas de fogo descendo do espaço e explodindo.

Visitaram uma cratera que apareceu na noite anterior. Tinha aproximadamente doze metros de diâmetro, que Osvandir pode conferir pela contagem de seus passos. A profundidade era de três metros. Com terra arenosa havia possibilidade de ser bem maior.

Uma pesquisa no entorno mostrou algum material desconhecido. Osvandir recolheu tudo para análise.

Na noite seguinte o pessoal do Sô Raimundinho resolveu fazer um churrasquinho para os visitantes. Tudo estava muito animado quando uma pessoa gritou:

-- Aí vem uma bola de fogo!
(Continua)

Manoel Amaral