quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O SEQUESTRO DO LEITOR

“Escrever é uma viagem perigosa para dentro de nós mesmos”
(Chistopher Vogler)


“Estava perambulando pelas páginas de um livro, quando senti que tinha sido seqüestrado. Não podia largá-lo, em hipótese alguma.Dizia o leitor aflito”

Neste esquema o leitor era obrigado a ler um conto diariamente. Uma tortura, mas real.

Aquele livro, grande, 364 páginas, antologia de contos, pegou aquele jovem desprevenido.

Não podia mais pensar nem agir como antes. Estava completamente comprometido com aquelas páginas.

Conta de energia, telefone, água, tudo ficou atrasado. Até a prestação da casa, que tinha uma multa e uns juros altos, ficou ali na gaveta.

A mensalidade da faculdade, a lavadeira, a prestação dos sapatos, das roupas, gente cobrando. Farmácia cortando o crédito e o cartão de crédito? Também embolando.

O trabalho de escritório foi esquecido, como se não existisse. O chefe ligou várias vezes, ele nem atendeu. Olhava na bina do aparelho telefônico e sabia quem estava ligando e desligava na cara do cidadão.

Tudo correndo desta maneira. A vivência era a dos contos, nada mais.

Enquanto isso, tudo acontecia do lado de fora:

Albertina se casara com Mário que a abandonou depois de três dias.

A Universidade expulsou a garota da mini-saia. Ela resolveu entrar com processo de indenização e danos morais.

O menino foi amordaço na escola. A Professora disse que ele falava demais.

A lista de cornos, naquela cidade do interior de Minas, estava causando o maior reboliço.

Homem tem documentos usados por irmão foragido, que pintava e bordava em seu nome.

O Ministro das Comunicações pretende dar ao povo, a Bolsa Celular. Disse que é para beneficiar quem tem bolsa família. Mas não é de graça, as empresas receberão do Fundo de Fiscalização das Telefônicas. Muito dinheiro envolvido: mais de dois bilhões de reais.

E no Sul de Minas, surto de diarréia, postos de saúde cheios de gente indo aos banheiros. Alguns acham que o Prefeito tratou mal a água da cidade.

Criança sai para entregar a chave da vizinha e é morta misteriosamente.

Várias balas perdidas (não existe bala perdida), matam no Rio.

Aposentados vão ter que esperar mais. O aumento prometido não vai sair. Quem sabe poderia sair um celular desta bolsa para os coitados.

Morto aparece no próprio velório, assustando todo mundo. Acontece que quem havia sido atropelado era outra pessoa. As suas irmãs esqueceram a sua fisionomia de tanto ele morar na rua.

Velório da mulher que ainda estava no Hospital. Explica-se estavam velando a mulher errada.

Namoro na WEB acaba em homicídio, o corpo da mulher foi encontrado incinerado.

Os Políticos, no ano que vem, serão todos honesto. Ano de Eleição vale tudo, até fingir que é homem do bem. Adeus quadrilhas, mensalões, empréstimos fabulosos, castelos e viagens ao exterior.

Seria melhor o Leitor ficar no mundo dos contos, aqui fora a vida continua cruel.

“No conto, o autor vence o leitor por nocaute”
(Alex Gennari)

MANOEL AMARAL

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