segunda-feira, 28 de setembro de 2009

OSVANDIR E AS ELEIÇÕES

BILA & NICO
Ninguém gosta de votar em candidato que vai perder.”
(Osair, tia do Osvandir)


Tudo aconteceu naquela cidadezinha do interior, mais precisamente no norte de Minas, de aproximadamente 5.000 habitantes.

Vida difícil, sem emprego, sem saúde, sem esgoto, sem nada. Os cidadão mais velhos ficavam ali na pracinha sem nada para fazer, discutindo capítulo anterior da novela da Lobo (erro proposital).

Estava aproximando-se as épocas de eleições, quase ninguém queria ser candidato. O senhor NICO foi escolhido na marra, indicado por unanimidade pelo partido do Prefeito, Partido que era o maior da cidade, em eleitores.

Do outro lado tinha o José, que todos conheciam por BILA, ninguém sabia por que. Ele fora indicado a concorrer como candidato da oposição, mas já considerava caso perdido, pois o Prefeito deixou para entregar todas as obras neste ano de eleições.

Ponte para inaugurar, escola para reformar, estradas rurais para melhorar, asfalto de algumas ruas para completar e estava tudo em andamento. Um movimento muito grande na Prefeitura daquela cidadezinha até charmosa.

O Prefeito estava apostando todas as suas fichas naquela eleição. Andou desviando algumas poucas verbas para atender aos gastos da campanha.

Encomendou camisas, santinhos, cartazes, faixas e tudo que os assessores pediram. Alguns itens faltaram, porque as gráficas não estavam em condições de atender a todos, no momento.

Até um pequeno livro, com nome da cidade, estava sendo distribuído, gratuitamente, fazendo uma propaganda disfarçada do candidato maioral.

BILA, o candidato da oposição, reuniu alguns poucos reais e encomendou 2.500 camisas. Recebeu um telefonema da empresa que estava faltando camisas brancas no mercado. Perguntaram se não havia problemas utilizar algumas que já tinham desenhos. Era só imprimir em cima ou em baixo deles, a propaganda do candidato.

Na falta deste material, absorvido pelas grandes cidades, resolveu aceitar a oferta, disseram que poderiam fazer até um preço melhor. Deu a ordem para fazer mais rápido possível o serviço.

Todos naquela apreensão, a espera do material de propaganda para distribuir aos minguados eleitores. Pequenos brindes como lápis, réguas, cadernos, lixa de unhas e outras besteiras como bonés de plástico, já estavam sendo entregues nas casas pelo candidato NICO. Tudo com o nome do candidato bem visível e de seu vice, tudo pago com dinheiro da Prefeitura.

Os vereadores não perdiam tempo, passavam a mão naquele material, carimbavam o seu nome embaixo e distribuíam para todos os eleitores.

Tinha uns apelidos muito esquisitos para candidatos a vereadores: Formigão, Mosquito, Grilo, Tomate, Bolão, Baiano, Brazuca, Franzino, Tonhão, Baixinho, Carruncho, Bozó, Meínha, do lado do candidato do Prefeito.

E do outro lado continuava o festival de apelidos horrorosos: Gordo, Pateta, Bola Murcha, Goiaba, Zé da Praça, Veio, Taxinha, Neca da Mariínha, e ia assim, com cada nome. Alguns apelidos não passaram na hora do registro, de tão feios ou mesmo pornográficos. Nome de artista de TV e jogador de futebol, tinha dos dois lados.

Alguns não conseguiram registrar a candidatura porque eram completamente analfabetos. Não passaram num simples teste elabora pelo Juiz Eleitoral, da próxima cidade, onde era a Comarca.

A empresa avisou que as camisas do candidato BILA, estavam prontas, um carro foi buscá-las no mesmo dia. Botaram o material no veículo, sem conferir nada.

Ao chegarem ao município foram logo colocando nas mãos dos candidatos para distribuírem onde eram seus redutos eleitorais: uns correram para a Ponte Velha, outros para o Buraco Quente e os restantes para o Bairro do Bom Fim e centro da cidade.

Naquela alegria toda nem leram o “slogan” escrito na camisa. De repente começaram a surgir uns comentários do outro lado e a coisa pegou fogo. O candidato do Prefeito sentiu-se ofendido e partiu para a defesa de sua candidatura que estava indo por água abaixo.

É que os funcionários da estamparia, que fizeram o serviço, não notaram que algumas camisas já tinham palavras impressas. Aí surgiu toda aquela confusão. O tiro já estava dado, recolher as camisas para o candidato não seria muito agradável.

Ele soltou um boletim, feito às pressas, justificando o engano, aí que a coisa piorou, a emenda ficou pior que o soneto. O furor foi muito maior, porque o outro candidato não gostou da justificativa dada.

O candidato ofendido saiu correndo até a cidade mais próxima e encomendou urgente, cerca de 3.000 camisas para fazer face aquele estrago em sua campanha.

Quando o material chegou, empregaram o mesmo esquema do candidato da oposição. Entregaram nos mesmos locais onde ele haviam distribuído, aquela camisa odiosa, ofendendo o candidato NICO.

Aí surgiu também um imprevisto, as camisas apresentavam outras palavras, a marca de fábrica. E o candidato da oposição não gostou muito. Julgou que aquilo fosse uma ofensa.

No meio daquela confusão, TICO, o terceiro candidato (esquecemos de falar dele), o mais pobre de todos, foi só subindo no conceito do povo. Não distribuía brinde nenhum, apenas um “santinho” mixuruca, uma foto em preto e branco, com seus dados pessoais. Estava tudo virado de cabeça para baixo. O menor partido estava ganhando dos dois candidatos juntos, assim dizia a prévia publicada por um jornal da vizinha cidade. Aquele artigo foi xerocado e distribuído em toda cidade. Até nos postes, que era proibido, eles pregaram o cartaz do terceiro candidato, junto com a pesquisa eleitoral.

Apurado os votos, o terceiro candidato deu um banho eleitoral nos dois bobocas que ficaram brigando por causa de bobagens.

Osvandir ficou sabendo da história, pegou as malas e partiu direto para aquela cidadezinha. Gastou umas cinco horas na viagem, estrada de terra, areia, buraco, devastação pela seca, até que chegou lá.

Almoçou, conversou com um candidato, o NICO, pegou uma camisa de sua propaganda; com o candidato número dois, o BILA, tomou um café e também recebeu dele de lembrança, uma camisa da campanha.

Nas primeiras camisas distribuídas estava escrito: BILA É O MELHOR e logo embaixo, já estava impresso NICOBOCO, e por azar em algumas camisas havia um pingo de tinta na última letra “Ó”. Isso que foi o pingo d’água da questão.

__ Mas e na outra camisa, o que estava escrito? – Perguntou o curioso amigo do Osvandir.
__ Nada de mais, apenas uma coincidência, uma combinação das palavras que já estavam impressas com as que mandaram imprimir: NICO É O BOM, e debaixo vinha, BILA BONG!

Assim acabou a guerra das eleições naquela cidadezinha, vencendo TICO, o menor e o mais inteligente de todos os candidatos.


MANOEL AMARAL

Nenhum comentário:

Postar um comentário