domingo, 27 de setembro de 2009

HÍSTÓRIAS DE TERROR - O Defunto

O DEFUNTO


Tem pessoas que vão a velórios para conversar, rever amigos, tomar uma pinga da roça, fabricada com mistura de puro álcool ou para tomar um cafezinho na cozinha.

Outros vão fazer Merchandising, distribuir cartão, vender produtos e incrível, - não vai acreditar, - para chorar, berrar.

Advogados vão para ver se conseguem faturar mais um inventário.

Tem gente que é viciado em velório. Muitos cidadãos adoram fazer discurso quando o caixão está descendo na cova. Palavras de pura falsidade:
__ “Conheci este cidadão, gente fina, pagava todo mundo, ajudava quem podia, nunca foi preso, foi um grande político sem nunca ter ganho nenhuma eleição...”

Puro humor negro (não adianta reclamarem, não existe humor Afro-brasileiro). Mais palavras, palavras e palavras falsas.

Um até chorava de verdade, era velho amigo do falecido, havia emprestado alguma grana para ele e sabia que agora não receberia nunca.

Mas neste caso o defunto era mesmo querido, estava ali esticado, com algumas folhas incomodando-lhe o nariz e uma abelha que insistia em beijar todas as flores do caixão e das coroas.

O prédio do velório era novo, bem construído, com um defeito muito grande: era muito próximo demais do cemitério. Já pensaram? De madrugada se os mortos resolvessem dar uma passeada entre os vivos?

Estava aproximando-se da meia-noite, as conversas foram rareando, ficaram apenas dois bêbados ao lado do caixão. Zezinho, velhinho e medroso; Zequinha, jovem e corajoso.

Os outros foram todos embora, com promessa de voltarem de manhã para continuar os papos. Aqueles dois ali, quase dormindo. Um sempre cutucando no outro. Zezinho dormiu que até caiu da cadeira.
Sono pesado. Zequinha resolveu ir embora e saiu de mansinho.

Ficou então Zezinho naquele sono bom, ali ao lado do defunto. Acordou, o falecido ainda estava ali. Continuou dormindo.

O defunto, com o saco cheio, resolveu levantar-se do caixão e ficou ali sentado numa cadeira, mais afastado. Nesse meio tempo Zezinho acordou sobressaltado, olhou ao lado e havia um novo companheiro.

Começou a conversar:
__ Está muito tranqüilo isso aqui, né companheiro?
__ Um pouco – falou o defunto com voz um pouco rouca.

Foi aí que a coisa pegou fogo! Zezinho resolveu dar uma conferida no defunto e teve a ingrata surpresa de encontrar o caixão vazio. Apavorado foi falar com o novo colega:
__ Não a de ver que o defunto saiu do caixão?
__ Como era o nome dele?
__ João da Mariazinha...
__ Este é meu nome.

O bêbado deu três pulos, desceu o morro correndo só indo parar quando chegou em sua casa. Até esqueceu que estava tonto.

Manoel Amaral
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