segunda-feira, 28 de setembro de 2009

OSVANDIR E AS ELEIÇÕES

BILA & NICO
Ninguém gosta de votar em candidato que vai perder.”
(Osair, tia do Osvandir)


Tudo aconteceu naquela cidadezinha do interior, mais precisamente no norte de Minas, de aproximadamente 5.000 habitantes.

Vida difícil, sem emprego, sem saúde, sem esgoto, sem nada. Os cidadão mais velhos ficavam ali na pracinha sem nada para fazer, discutindo capítulo anterior da novela da Lobo (erro proposital).

Estava aproximando-se as épocas de eleições, quase ninguém queria ser candidato. O senhor NICO foi escolhido na marra, indicado por unanimidade pelo partido do Prefeito, Partido que era o maior da cidade, em eleitores.

Do outro lado tinha o José, que todos conheciam por BILA, ninguém sabia por que. Ele fora indicado a concorrer como candidato da oposição, mas já considerava caso perdido, pois o Prefeito deixou para entregar todas as obras neste ano de eleições.

Ponte para inaugurar, escola para reformar, estradas rurais para melhorar, asfalto de algumas ruas para completar e estava tudo em andamento. Um movimento muito grande na Prefeitura daquela cidadezinha até charmosa.

O Prefeito estava apostando todas as suas fichas naquela eleição. Andou desviando algumas poucas verbas para atender aos gastos da campanha.

Encomendou camisas, santinhos, cartazes, faixas e tudo que os assessores pediram. Alguns itens faltaram, porque as gráficas não estavam em condições de atender a todos, no momento.

Até um pequeno livro, com nome da cidade, estava sendo distribuído, gratuitamente, fazendo uma propaganda disfarçada do candidato maioral.

BILA, o candidato da oposição, reuniu alguns poucos reais e encomendou 2.500 camisas. Recebeu um telefonema da empresa que estava faltando camisas brancas no mercado. Perguntaram se não havia problemas utilizar algumas que já tinham desenhos. Era só imprimir em cima ou em baixo deles, a propaganda do candidato.

Na falta deste material, absorvido pelas grandes cidades, resolveu aceitar a oferta, disseram que poderiam fazer até um preço melhor. Deu a ordem para fazer mais rápido possível o serviço.

Todos naquela apreensão, a espera do material de propaganda para distribuir aos minguados eleitores. Pequenos brindes como lápis, réguas, cadernos, lixa de unhas e outras besteiras como bonés de plástico, já estavam sendo entregues nas casas pelo candidato NICO. Tudo com o nome do candidato bem visível e de seu vice, tudo pago com dinheiro da Prefeitura.

Os vereadores não perdiam tempo, passavam a mão naquele material, carimbavam o seu nome embaixo e distribuíam para todos os eleitores.

Tinha uns apelidos muito esquisitos para candidatos a vereadores: Formigão, Mosquito, Grilo, Tomate, Bolão, Baiano, Brazuca, Franzino, Tonhão, Baixinho, Carruncho, Bozó, Meínha, do lado do candidato do Prefeito.

E do outro lado continuava o festival de apelidos horrorosos: Gordo, Pateta, Bola Murcha, Goiaba, Zé da Praça, Veio, Taxinha, Neca da Mariínha, e ia assim, com cada nome. Alguns apelidos não passaram na hora do registro, de tão feios ou mesmo pornográficos. Nome de artista de TV e jogador de futebol, tinha dos dois lados.

Alguns não conseguiram registrar a candidatura porque eram completamente analfabetos. Não passaram num simples teste elabora pelo Juiz Eleitoral, da próxima cidade, onde era a Comarca.

A empresa avisou que as camisas do candidato BILA, estavam prontas, um carro foi buscá-las no mesmo dia. Botaram o material no veículo, sem conferir nada.

Ao chegarem ao município foram logo colocando nas mãos dos candidatos para distribuírem onde eram seus redutos eleitorais: uns correram para a Ponte Velha, outros para o Buraco Quente e os restantes para o Bairro do Bom Fim e centro da cidade.

Naquela alegria toda nem leram o “slogan” escrito na camisa. De repente começaram a surgir uns comentários do outro lado e a coisa pegou fogo. O candidato do Prefeito sentiu-se ofendido e partiu para a defesa de sua candidatura que estava indo por água abaixo.

É que os funcionários da estamparia, que fizeram o serviço, não notaram que algumas camisas já tinham palavras impressas. Aí surgiu toda aquela confusão. O tiro já estava dado, recolher as camisas para o candidato não seria muito agradável.

Ele soltou um boletim, feito às pressas, justificando o engano, aí que a coisa piorou, a emenda ficou pior que o soneto. O furor foi muito maior, porque o outro candidato não gostou da justificativa dada.

O candidato ofendido saiu correndo até a cidade mais próxima e encomendou urgente, cerca de 3.000 camisas para fazer face aquele estrago em sua campanha.

Quando o material chegou, empregaram o mesmo esquema do candidato da oposição. Entregaram nos mesmos locais onde ele haviam distribuído, aquela camisa odiosa, ofendendo o candidato NICO.

Aí surgiu também um imprevisto, as camisas apresentavam outras palavras, a marca de fábrica. E o candidato da oposição não gostou muito. Julgou que aquilo fosse uma ofensa.

No meio daquela confusão, TICO, o terceiro candidato (esquecemos de falar dele), o mais pobre de todos, foi só subindo no conceito do povo. Não distribuía brinde nenhum, apenas um “santinho” mixuruca, uma foto em preto e branco, com seus dados pessoais. Estava tudo virado de cabeça para baixo. O menor partido estava ganhando dos dois candidatos juntos, assim dizia a prévia publicada por um jornal da vizinha cidade. Aquele artigo foi xerocado e distribuído em toda cidade. Até nos postes, que era proibido, eles pregaram o cartaz do terceiro candidato, junto com a pesquisa eleitoral.

Apurado os votos, o terceiro candidato deu um banho eleitoral nos dois bobocas que ficaram brigando por causa de bobagens.

Osvandir ficou sabendo da história, pegou as malas e partiu direto para aquela cidadezinha. Gastou umas cinco horas na viagem, estrada de terra, areia, buraco, devastação pela seca, até que chegou lá.

Almoçou, conversou com um candidato, o NICO, pegou uma camisa de sua propaganda; com o candidato número dois, o BILA, tomou um café e também recebeu dele de lembrança, uma camisa da campanha.

Nas primeiras camisas distribuídas estava escrito: BILA É O MELHOR e logo embaixo, já estava impresso NICOBOCO, e por azar em algumas camisas havia um pingo de tinta na última letra “Ó”. Isso que foi o pingo d’água da questão.

__ Mas e na outra camisa, o que estava escrito? – Perguntou o curioso amigo do Osvandir.
__ Nada de mais, apenas uma coincidência, uma combinação das palavras que já estavam impressas com as que mandaram imprimir: NICO É O BOM, e debaixo vinha, BILA BONG!

Assim acabou a guerra das eleições naquela cidadezinha, vencendo TICO, o menor e o mais inteligente de todos os candidatos.


MANOEL AMARAL

domingo, 27 de setembro de 2009

HÍSTÓRIAS DE TERROR - O Defunto

O DEFUNTO


Tem pessoas que vão a velórios para conversar, rever amigos, tomar uma pinga da roça, fabricada com mistura de puro álcool ou para tomar um cafezinho na cozinha.

Outros vão fazer Merchandising, distribuir cartão, vender produtos e incrível, - não vai acreditar, - para chorar, berrar.

Advogados vão para ver se conseguem faturar mais um inventário.

Tem gente que é viciado em velório. Muitos cidadãos adoram fazer discurso quando o caixão está descendo na cova. Palavras de pura falsidade:
__ “Conheci este cidadão, gente fina, pagava todo mundo, ajudava quem podia, nunca foi preso, foi um grande político sem nunca ter ganho nenhuma eleição...”

Puro humor negro (não adianta reclamarem, não existe humor Afro-brasileiro). Mais palavras, palavras e palavras falsas.

Um até chorava de verdade, era velho amigo do falecido, havia emprestado alguma grana para ele e sabia que agora não receberia nunca.

Mas neste caso o defunto era mesmo querido, estava ali esticado, com algumas folhas incomodando-lhe o nariz e uma abelha que insistia em beijar todas as flores do caixão e das coroas.

O prédio do velório era novo, bem construído, com um defeito muito grande: era muito próximo demais do cemitério. Já pensaram? De madrugada se os mortos resolvessem dar uma passeada entre os vivos?

Estava aproximando-se da meia-noite, as conversas foram rareando, ficaram apenas dois bêbados ao lado do caixão. Zezinho, velhinho e medroso; Zequinha, jovem e corajoso.

Os outros foram todos embora, com promessa de voltarem de manhã para continuar os papos. Aqueles dois ali, quase dormindo. Um sempre cutucando no outro. Zezinho dormiu que até caiu da cadeira.
Sono pesado. Zequinha resolveu ir embora e saiu de mansinho.

Ficou então Zezinho naquele sono bom, ali ao lado do defunto. Acordou, o falecido ainda estava ali. Continuou dormindo.

O defunto, com o saco cheio, resolveu levantar-se do caixão e ficou ali sentado numa cadeira, mais afastado. Nesse meio tempo Zezinho acordou sobressaltado, olhou ao lado e havia um novo companheiro.

Começou a conversar:
__ Está muito tranqüilo isso aqui, né companheiro?
__ Um pouco – falou o defunto com voz um pouco rouca.

Foi aí que a coisa pegou fogo! Zezinho resolveu dar uma conferida no defunto e teve a ingrata surpresa de encontrar o caixão vazio. Apavorado foi falar com o novo colega:
__ Não a de ver que o defunto saiu do caixão?
__ Como era o nome dele?
__ João da Mariazinha...
__ Este é meu nome.

O bêbado deu três pulos, desceu o morro correndo só indo parar quando chegou em sua casa. Até esqueceu que estava tonto.

Manoel Amaral
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

OSVANDIR E A MULHER DA MALA III


Capítulo III
O Casamento
“Marido de mulher feia sempre acorda assustado.”
(Osmair, Tio do Osvandir)


Osvandir lembrou também que “marido de mulher feia detesta feriado”. Veio assim na sua cabeça, sem pensar em mais nada.

Mas precisava de explicar para o pessoal, o que representava aquilo tudo que achou na maleta da Mulher de Branco.

Ela veio em sonho e contou-lhe como tudo aconteceu:
__ Foi num mês de janeiro ensolarado, que casei, numa fazenda de meu pai, há quase cem anos. Tudo estava correndo muito bem, em meu casamento, até que meu marido enrabichou por uma garota com a metade de sua idade.

Osvandir tomou um gole de água fria, para acordar, mas não acordou e a Mulher de Branco continuou contando:
__ Lutei com todas as minhas forças para ver se retirava aquela garota do meu caminho. Melhorei o meu visual, comprei novas roupas, mas nada, ele estava completamente enamorado da jovem. Ela estava consumindo nossas economias.
Meus filhos, um casal, já estavam crescidos, arranjei mais um para ver se mudava o roteiro do destino. Nada. O menino morreu com dois anos. Guardei só uma blusinha dele, que carrego na maleta.

__ Mas você não tentou mudar de cidade, de fazenda, sei lá? – Osvandir ainda sonhando.
__ Tentei, fui até para um local perto de Itaúna, uma fazenda maior que a nossa.
Não adiantou. O marido levou a coisinha. Ficou pior, todo fim de semana os dois saiam para passear na cidade e eu ficava trancada em casa. – Mulher de Branco, ainda assustando...

Continuando, ela deu informações muito importantes:
__ Foi aí que fiz um plano para matar os dois, no sábado ele se enfeitava para ir visitá-la. Armei tudo no local do encontro. Comprei uma Mauser, modelo 1889 e um Winchester de longo alcance. Fiquei a espera dos dois num local mais alto. Assim que começou a escurecer ouvi uma conversa, eram os dois agarradinhos. Não pensei duas vezes, dei quatro tiros, dois em cada um. Aproximei-me, parece que a mocinha ainda estava viva, saquei da Mauser e dei mais um tiro em sua cabeça.

__ Mas você saiu atirando assim, sem esperar para comprovar que eram eles? Já era quase noite, meio escuro, como fez?
__ Conheci pelas roupas e depois fui lá para conferir. Estavam mortos, um sobre o outro. Não me senti muito bem. A Jovem estavam com um fino lenço no pescoço, retirei-o e levei-o para casa e coloquei-o em minha mala maior. Estava manchado de sangue. O tempo passou, ninguém desconfiou de mim. Acharam que eram assaltantes.

Osvandir ficou remexendo na cama e depois acordou assustado, parece que alguém havia batido na porta.

Levantou, olhou e nada! Lavou o rosto e ficou um tempo na cozinha, conferiu o relógio, eram três horas da madrugada.

Deitou e começou a sonhar de novo:
__ Como ninguém desconfiava, - contava a Mulher de Branco - tratei de providenciar o enterro dos corpos. Ninguém veio reclamar o corpo da jovem. Foi enterrada em cova rasa. Para o meu marido, mandei fazer um túmulo grande, de puro mármore preto. Paguei uma fundição para fazer um belo anjo de metal amarelo. Gravaram as datas de nascimento e falecimento na lápide: 1850 – 1909, ele faleceu com 59 anos.

Osvandir remexeu na cama, mas antes de acordar, lembrou de perguntar para a Mulher de Branco:
__ E a Senhora, o que aconteceu depois?
__ Eu sobrevivi mais uns dez anos e depois faleci, acometida de uma gripe espanhola. Hoje fico zanzando por aí, sem destino.
__ O que poderia fazer para minorar o seu sofrimento?
__ Mandar celebrar uma missa pelas nossas almas e rezar um Pai-Nosso e algumas Ave Marias, no próximo enterro que acompanhar. Ao visitar o cemitério de Pedra Lascada, lá irá encontrar o nosso túmulo, passe por lá e faça alguma oração por nós. Não esqueça da jovem que também precisa de ajuda.

Osvandir levantou de um salto, entre dormindo e quase acordado, olhou pela janela e ainda pode ver um fino lenço branco voando no quintal...

MANOEL AMARAL
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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

OSVANDIR E A MULHER DA MALA II
Capítulo II
As Malas
“Nós somos nossos defeitos”. (Osvandir)
(Para o Amigo Al, da Bahia)


Muitos leitores queriam saber o que continha naquelas duas malas da Mulher de Branco.

O Osvandir fez uma investigação sobre este assunto, vamos ver a seguir a sua conclusão: Parece que tinha um pedaço de pano branco, com manchas de sangue, vazando para fora da mala maior.

Aquilo seria um crime? Ou apenas o assoamento de nariz, em época de Gripe Suína? Poderia ser outra coisa também: resto de roupa íntima, em dia de menstruação.

Pegou o ônibus, desta vez em Bom Despacho, tinha feito uma venda importante, deveria ir aquela cidade para receber o valor de vários computadores para uma Lã House, adquirido por uma livraria, e também um Notebook, para um açougue. As coisas são assim mesmo, inusitadas.

Vinha vindo tranqüilo no ônibus, cheio de estudantes, com uniformes azuis e brancos, de uma escola famosa na cidade.

Ao estacionar na Rodoviária de Nova Serrana, lá estava a Mulher de Branco, conversando com o motorista, desta vez um outro, para nós desconhecido.

Muito gentilmente ele atendeu aquela senhora, pobre senhora.

Com todos estes pensamentos na cabeça, Osvandir olhou para traz e viu aquela mulher: magra, olhos azuis claros, rosto comprido, seios pequenos, quase aparecendo sobre aquelas vestes esvoaçantes contra o vento de agosto, dando adeus para todos.

O olho clínico de Osvandir não saiu daquelas malas. A curiosidade mata mais que gripe suína. Ele não conteve e acabou puxando uma daquelas malas, a menor, para bem perto de si.

Na descida, no trevo para Igaratinga, levou consigo, a dita mala, a menorzinha.

Estava aflito, o que teria ali dentro. Ela estava até leve pelo tamanho. Quando parou num posto, foi ao banheiro e levou a pequena mala, uma maleta.

Ao abri-la levou um tremendo susto, até quis gritar! Mas pensou bem e se conteve.

Pensou em deixá-la ali, em qualquer lugar bem visível. E se a Mulher de Branco viesse buscar a mala? Pegou carona no carro do primeiro colega que encontrou e seguiu para Divinópolis.

__ E aí companheiro? O que tem dentro desta mala velha e suja?
__ Segredo, mistério!
__ Ora vai, conta aí, Osvandir!

Foi então que Osvandir resumiu toda a história e o motorista, não gostou do assunto, porque disse que a Mulher de Branco, estava aparecendo no Povoado de Água Limpa, logo à frente.

Foi só ele acabar de falar, olhe ela lá antes da Curva do Cachorro Morto.

Osvandir estremeceu, não esperou ela pedir a mala. Jogou-a pela janela. Ela foi rápida, pegou-a, ainda no ar e sumiu...

__ Mas e o segredo da mala? Agora você pode contar. Ela foi embora mesmo.
__ Certo, vou revelar: dentro da mala tinha apenas alguns retratos antigos, um de casamento e outros de filhos do casal, uma carta que não li e uma blusinha de crianças de uns dois anos.

Manoel Amaral
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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

OSVANDIR E A MULHER DA MALA I - Conto de Terror

Capítulo I
A Mulher de Branco
(Para o amigo Al, da Bahia)


Osvandir seguia, via ônibus, pela rodovia BR-262, para a cidade de Pará de Minas-MG, saindo de Nova Serrana.

Lá para as bandas do Povoado dos Limas, pertencente ao Município de Igaratinga, uma senhora, de branco, deu sinal, o motorista parou no acostamento e ela perguntou:

__ Vai passar em Pará de Minas?
__ Vamos. – Respondeu o trocador, com cara de jovem que vive assustado o dia inteiro, devido os assaltos constantes, nestas linhas.
__ Pode levar estas malas para mim, até o entroncamento de Pará de Minas? Alguém vai pegá-las naquele local.– Completou aquela mulher magra e de olhos grandes.
__ Pode deixar que entregamos. – Respondeu o motorista, um cara bonachão, gordinho, de bigode fininho, parecido com aqueles artistas de filmes italianos.

A mulher sumiu numa estradinha que não sabemos onde ia dar. Já era quase noite, mas o sol ainda dava sinal de sua presença, atrás do Morro Agudo.

O ônibus seguiu sacolejando por aquelas estradas, ora entrando num acostamento para descer ou entrar passageiros ou então em algum Povoado para uma pequena parada.

__ Quanto pago até Torneiros? – Disse um passageiro que já estava aflito para chegar em casa e devorar um queijinho de Minas, agora Patrimônio Mundial ( pode?).
__ A passagem é R$3,50, mas porque esta aflição? – Aquele trocador estava achando que seria mais um ladrão que estava apenas disfarçando...
__ É que tenho que apartar algumas vacas e já está ficando tarde...

Nesse meio tempo entra uma senhor, cabelos grisalhos, com um saco (uns 5 quilos) de feijão e alguns ovos numa cestinha. Colocou aqueles ovos, várias dúzias, ali no piso do corredor. Já imaginaram o que poderá acontecer na saída de algum passageiro? Pois foi isso mesmo que aconteceu: um rapazinho distraído pisou no balaínho e alguns ovos foram para o beleléu.

A mulher, muito bondosa, disse ao rapazola que não tinha importância, era para presente, mas o feijão ainda estava a salvo.

Numa curva em “S”, aquele saco de feijão que estava desamarrado, esparramou no assoalho transformando-se numa verdadeira arma para derrubar qualquer um.

Um moleque pisou com seu tênis, moderno, de amortecedor, escorregou e bateu com a testa na cadeira de número 13. Reclamou do número da cadeira, disse que o dito dá azar.

Uma moça, bonita, de batom vermelho, acudiu o rapaz e limpou o sangue que escorria em sua testa. Ele agradeceu e disse que era técnico em informática, deu-lhe um cartão e pediu para procurá-lo em Pará de Minas, consertava tudo, até impressoras antigas.

Osvandir seguia ali quietinho, mas de olho naquelas malas que estavam bem perto do motorista. Já estava quase chegando na entrada para a cidade onde elas deveriam ser entregue.

Mais uma subida, uma descida, uma curva à direita, um baixadão e lá estava o ponto onde alguém estaria esperando aquelas malas, que parecia não conter coisa agradável dentro.

Algumas máquinas, construindo uma terceira pista, atrasaram um pouco aquela viagem. As pás carregadeiras estavam levando terra para aterrar um buraco bem ao lado da rodovia.

Lá estava alguém a espera das malas. Uai! Mas que coisa interessante! Parece que era a mesma mulher que entregou as (mal)ditas lá atrás, no Povoado dos Limas...

Aproximando mais, Osvandir pode conferir que era mesmo aquela mulher, magra, olhos grandes, roupa fina e branca. Estava escuro, mas deu para reparar esses detalhes porque o trevo era bem iluminado.

O ônibus parou, a mulher pediu as malas, o motorista solicitou ao trocador que descesse e as entregasse aquela pessoa as duas malas grandes. Nem prestaram atenção naquela estranha mulher.

__ Muito obrigado seu motorista. – Disse aquela mulher, magra e de olhos grandes.
__ De nada, minha senhora. – Respondeu o motorista e trocador, sem nem mesmo olhar para quem as recebia...

Fica aí a história para o leitor decifrar este mistério.

Manoel Amaral
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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

ESTAS ADORÁVEIS GAROTAS I


Capítulo I
As Roupas


Elas estão nas escolas, nas ruas, nos Shoppings, em todo lugar.

São pequenas, bonitinhas, novinhas, ga(ro)tinhas, têm entre 12 e 15 anos; mas já andam, vestem e falam como gente grande.

Onde uma está, três ou quatro estão por ali, juntinhas.

Se vão assistir ao filme de sucesso da semana, seguem direto para comprar os ingressos. Ficam conversando na fila, para distrair.

Uma usa o sapato da mãe, outra a blusa da irmã, e a terceira o jeans da colega.

Os assuntos são sempre os mesmos: roupas, filmes, livros, escola, provas e namoradinhos.

Gisele, num só dia arrasou: foi de blusa da amiga, sapato da irmã, jeans do seu armário, bijuterias e batom de Lidiane.

Amarílis, que não gosta de roupa emprestada, pediu só o boné de Gisele.

Lidiane, pegou o sapato da mamãe, uma blusinha bem decotada de Gisele, um short bem curtinho da irmã mais nova, algumas peças de biju de Amarílis e o quadro estava feito.

Seguiram direto para o boliche daquele pequeno Shopping.

Se vão a praça de alimentação, dão preferência por alimentos leves, às vezes gordurosos. Batatas fritas, queijo, presunto, omelete, uma fatia de tomate, alface e o pão de forma. Um guaraná para refrescar.

Visitam vitrines, olham, olham, mas não compram nada. Os seus desejos de um caríssimo tênis nos pés, ficam só naquele momento, daí a pouco seus olhos caem em outra mercadoria qualquer.

Se vão até as lojas Ame(ri)canas, riem bastante quando encontram aquele sutiã enorme da época da Vovó, ou cuecas samba-canção do Vovô. Na livraria procuram títulos que nunca encontram. Livros que já ouviram falar, que escola indicou ou que colegas já leram.

Quando chegam em casa, os pais já descabelados, escutam uma desculpa qualquer ou que estavam fazendo trabalho escolar na casa de uma colega.

Encerra mais uma semana, para daí a 6 dias, começar tudo de novo!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

OSVANDIR & O DIA EM QUE A INTERNET ACABOU IV

Capítulo IV

A VOLTA


“E tudo voltou como d’antes no castelo de Abrantes”
(Sábio Velhinho de Jerico)


O povo em polvorosa, gritando:
__ A energia elétrica chegou! Os rádios e TVs estão funcionando!
__ Mas o que estão falando sobre a estranha luz, perguntou Osvandir.
__ Nada ainda, respondeu Jeq.

A TV da sala da casa do Prefeito e a do bar da praça, estavam funcionando. Ora vinha a imagem de um militar, ora de um homem parecido com o Presidente.

A viagem do Osvandir foi adiada até segunda ordem. Precisava saber mais alguma coisa.

Foi com Jeq até a sua sala de trabalho e tentaram ligar o computador.
Só aparecia uma tela vazia e sem cor. Internet não estava conseguindo acessar.

Quando eles conversavam uma imagem apareceu na tela, que não parava de girar. Algumas letras foram completando o texto:

______________________________________________________________
A página não pode ser exibida
A página que você procura não está disponível no momento.
Talvez o site esteja passando por dificuldades técnicas ou você precise ajustar as configurações do navegador.

_______________________________________________________________


Que navegador? Não tinha nenhum para usar. Mas qualquer coisa já estava começando a funcionar.

Os nerds de garagem já estavam bolando planos para novos programas.
Google não existia mais, nem yahoo, muito menos UOL e Gmail. Funcionava muito mal um tal de Yagoo...

Os programas do Bil Gates foram para o beleléu... Uma vantagem grande foi que os vírus desapareceram.

Alguns joguinhos, simplezinhos, já estavam funcionando.

Os nossos arquivos foram todos deletados. Alguns processadores de textos foram entregues ao público gratuitamente.

Só os Militares estavam usando a internet fluentemente. O povão dependia das Companhias de Telefonia, Satélites, um inferno sem fim...

Um grupo de programadores estava trabalhando rápido para colocar à disposição do povo uma série de programas.

Um buscador já funcionava a todo vapor: Busk. Um navegador também começava a dar as caras: Jangada. O melhor processador de textos até o momento era o ÁgilStar. Neste campo de programação, os brasileiros estavam levando a melhor. Novos programas de e-mail: Carta e Recado.

Os blogs começaram a surgir, assim meio acanhados e os principais provedores de blogs eram: Valentepress, AsilBR. Todos os domínios passaram a ter números, ao invés de ponto com. O do Brasil era 666.

Os computadores estavam muito valorizados, porque a maioria foram abandonados e inutilizados. Senhor José, dono de grandes galpões de peças velhas de informática estava faturando bastante.

Foi aí que a China começou a vender aquelas porcarias bem baratinhas que todo mundo podia comprar. Os parentes de Bill Gates lançaram no mercado o Windows 3.0, limpinho, sem aquelas bobagens que pareciam árvore de natal, com presentinho dependurado por todo lado. Só processador de texto, mais nada. Pagava-se apenas uma pequena taxa de uso. O mercado reagiu, eles ficaram bilionários novamente.

As empresas fabricantes de anti-vírus, colocaram maliciosamente no meio, os seus vírus. O comércio eletrônico voltou a funcionar normalmente. Só o povo que estava um pouco atrasado com os assuntos da área.

O barateamento do CPU garantiu a aquisição de PC por muitas pessoas, o caminho seguido desde o ano de 2011 era o de simplificação.

Todos os programas eram “baixados” apenas para uso pessoal. Ninguém precisava mais comprar qualquer tipo de software. Estavam todos disponíveis na internet. Isto significa que os computadores eram usados apenas para a conexão. Ninguém precisava fazer dowload e nem comprar aquelas placas caríssimas.

Filmes? Vídeos? Fotos? Livros? Música? Estava tudo lá, bem guardadinho, como se você fosse procurar na locadora ou biblioteca.

A TV, o PC e o DVD finalmente estavam unidos num só aparelho.

Grandes espaços eram reservados na rede para os arquivos, cerca de 15 giga por pessoa física, para guardar o que quisesse, sem custo algum. Só as pessoas jurídicas pagavam um preço mensal.

Os Celulares começaram a gritar por todo canto e o petróleo do pré-sal, esquecido nas profundezas, voltou a jorrar e este país a funcionar. Funcionar?

“E tudo voltou como d’antes no castelo de Abrantes!”

Manoel Amaral

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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

OSVANDIR & O DIA EM QUE A INTERNET ACABOU III

Capitulo III

A TOMADA DE JERICO

"Gritou, pois, o povo, e os sacerdotes tocaram as trombetas;
ouvindo o povo o sonido da trombeta, deu um grande brado,
e o muro caiu rente com o chão, e o povo subiu à cidade,
cada qual para o lugar que lhe ficava defronte,
e tomaram a cidade" Js 6:20
.


Os estranhos eram selvagens, atacavam em grupo e tudo destruía. Tocaram umas cornetas feitas de chifres de carneiro, como nos tempos do Primeiro Testamento.

Não sabemos se por milagre ou por dinamite (TNT), a verdade é que ao tocarem aqueles instrumentos, os muros e o portal de entrada da comunidade desabaram.

Aqueles bárbaros foram invadindo tudo e tomando conta dos alimentos.

Barulho se combate com barulho. Sem demonstrar nenhum medo, dois habitantes de Jerico seguiram para o meio do grupo e puseram a tocar, em som altíssimo, seus instrumentos (um piston e um saxofone). Atraídos pelo som que não conheciam, eles foram para a rua principal. Um saiu tocando por um lado e o outro por outra rua, assim aqueles bárbaros foram logo divididos em dois grupos.

Com muito custo, com a ajuda das ideias de Jeq e da astúcia de Osvandir, aquele povo foi dominado e enviado de volta para sua região.

Após a partida deles, o muro foi reconstruído, bem como o portal. Tomaram a precaução de agora em diante, ficarem de sobreaviso para caso de invasão.

Jerico estava num lugar privilegiado, entre montanhas, não tinha campo de aviação. Não recebeu quase nenhuma visita de estrangeiros. Estava muito longe dos grandes centros. Por esta razão evitaram a contaminação pela gripe A. Os raros casos que aconteceram foram com pessoas que por ali passaram e seguiram em frente, levando aquele vírus maligno.

Noutras comunidades a Gripe Suína chegava e se instalava aproveitando a debilidade da população.

Porém após o Raio Azul, as coisas complicaram muito e outras doenças apareceram: varíola, catapora, gripe comum, piolhos, sarna e por aí. O pequeno Posto de Saúde estava cheio de pessoas com uma infinidade de sintomas. Cada grupo que chegava trazia um tipo de doença, que era debelado com muito custo.

Com a chegada de Osvandir, alguma coisa foi melhorada. A população foi devidamente informada sobre este novo vírus da Gripe. Os funcionários do Posto de Saúde queriam saber mais e foram orientados de acordo com vários prospectos que trazia na mochila.

Ali naquela comunidade de pouco mais de 10.000 habitantes as necessidades eram bem menos que outros grandes centros.

Produção de alimentos até que existiam por todo lado, porque as terras não foram afetadas, mas o difícil era o transporte. Para uma viagem de 50 km gastava-se dois dias com o carro-de-bois. Às vezes as verduras e legumes estragavam com a viagem, sendo uma tremenda perda de tempo.

Por esta razão os comerciantes preferiam transportar a carne, os grãos e o sal.

Como Jerico já tinha resolvido muito sobre como moer os grãos (milho para o fubá), triturar o sal e tirar a casca de arroz e café, o seu comércio era muito grande com outras comunidades. Passaram até a fabricar linguiça, queijos, carne seca, gordura de porco, farinha, fubá, pó de café, óleo de mamona (combustível para veículos e lamparinas de iluminação) para remessa a outras localidades mais distantes.

Os problemas maiores eram os custos da segurança para remessa dos produtos. Os assaltos sempre constantes nas estradas impediam viagens sem planejamento.

Quando Osvandir e o seu grupo preparavam-se para partir uma estranha luz apareceu no céu, bem próxima dos moinhos de vento. Ficou girando, como se fosse um torvelinho. O povo ficou olhando aquele espetáculo raro.

De repente um telefone de orelhão começou a tocar e uma luz acendeu num poste...

Continua...

Manoel Amaral

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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

OSVANDIR & O DIA EM QUE A INTERNET ACABOU II

Capítulo II

JERICO

O termo “ideia de jerico”, seria uma má ideia. Ideia tola.
Na Região Nordeste do Brasil, jerico é o mesmo que mula.
Ou seja, seria o mesmo que ideia de burro, de mula.
(Google, pai dos burros)

O certo é que o povoado de JERICO (sem assento no “o”) estava bem mais desenvolvido que muitos outros, então Osvandir resolveu ir para aquele local. Levou seu assessor, porque depois da luz azul, os escritores não tinham valor. Todos foram plantar ou colher cebolas. Outros mais rebeldes foram enviados para as plantações de canas, para combustível, no setor de capina. Só quem conhece sabe o sacrifício que é!

Viajaram cerca de 300 km e chegaram a terra prometida. Um portal de concreto na entrada, com letras grandes, JERICO. Poucas casas boas, a maioria simples e muitos barracões.

A casa do Prefeito, como sempre, era a maior de todas. Deveriam encontrar com um tal de Jeq,(pronuncia-se “Jeque”), o rapaz que estava sempre tomando decisões. Osvandir pensou logo em “Jegue”, aquele jumentinho, que também é chamado de Jerico. Seria por causa dele o nome do Povoado?

Ele mostrou para os visitantes o que já tinham conseguido sem auxílio da energia elétrica.

Monjolos, engenhos, moinhos, todos funcionando com a água. Algumas peças foram retiradas de aviões velhos onde a abundância de alumínio é maior.

Existia uma fundição de alumínio e outra de ferro, que não ficamos sabendo como era o funcionamento devido o sistema de segurança ser muito bem controlado.

Gostamos dos moinhos de vento, onde a energia eólica era transformada em energia mecânica, utilizada na moagem de grãos ou para bombear água.

Por estarem próximo ao mar, num local onde secara um lago, encontraram sal, estavam fazendo grande negócio com ele. Utilizavam os antigos sistemas de retirada. Vendiam o sal grosso ou em barra e já estavam preparando um moinho para o refino.

Tudo estava correndo as mil maravilhas se não fosse a grande quantidade de malandros que estavam sempre chegando e saindo do Povoado de Jerico (sem acento no “o”).

Jeq era filho do Prefeito, uma pessoa boníssima, já bem velho. Os jovens do local tinham uma ocupação normal dos adultos. Ninguém ficavam sem trabalho. Criaram até uma moeda própria, mas o comércio funcionáva mesmo era a base de troca.

Osvandir ficou sabendo, conversando com alguns membros da comunidade, que Jeq sumira por uns tempos e ninguém soube direito por onde ele andara.

Procurara saber dele próprio por onde andara e só ficou sabendo coisas esparsas, o que aumentou mais o mistério.

Uns diziam que ele vira uma nave espacial lá no pasto da fazenda de seu pai. Outros foram mais incisivos e informaram que ele fora raptado por um disco voador.

Com estas informações contraditória, Osvandir resolveu convidá-lo para uma pescaria. Tudo preparado, barraca, lanterna, binóculos, facas, anzóis e minhocas.

Acontece que Jeq não era dado a ficar quieto, estava sempre em movimento, o que prejudicava a pescaria. Largaram tudo e foram conversar. Osvandir contou-lhe que já fora levado por um disco voador e mostrou-lhe os três pontinhos negros atrás de sua orelha esquerda, que sempre acusava a presença de Óvnis.

Jeq ficou impressionado e quis saber outras histórias de sua viada. Perguntou se ele passara pelo FBI e pela CIA. Osvandir fez um pequeno relato do que já tinha vivido e suas andanças pelo mundo procurando Ufos, mas nunca tinha trabalhado para aquelas entidades. Sabia muitos truques por eles utilizados, mas não chegara a frequentar o meio.

O jovem inquieto acabou confessando que esteve na guerra do Iraque e que fora contratado por empresas não muito confiáveis, para trabalhos temporários.

Os dois tiveram uma vida mais ou menos parecida, só que Jeq ainda tinha os pais e Osvandir perdera os seus quando ainda era criança.

Voltaram ao Povoado, sem peixe nenhum, mas com várias informações de ambas as partes.

Estavam almoçando quando um rapaz veio correndo avisar que a comunidade estava sendo invadida por um grande número de famigerados bandidos.

(Continuará, se sobrevivermos)

Manoel Amaral

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sábado, 5 de setembro de 2009

OSVANDIR & O DIA EM QUE A INTERNET ACABOU


Capítulo I

O RAIO AZUL


Um lindo raio azul cobriu aquele céu cheio de nuvens brancas. Tudo parou de funcionar. Os aviões pousaram em locais improvisados, apenas os pássaros permaneceram no espaço. A energia elétrica desapareceu.

As águas do mar ficaram revoltas, alguns vulcões voltaram a jorrar aquela lava, derretendo tudo a sua frente. Algumas ilhas afundaram, outras apareceram, mudando o Mapa do Mundo.

Novas Ordens foram criadas, maneiras antigas ressuscitadas. Gostos e desgostos em discussão. As cidades ficaram quase vazias. Não tinham o que fazer por ali, sem energia elétrica. Os bancos voltaram a utilizar aquelas velhas máquinas Facit de calcular, resgatadas dos museus e porões.

As máquinas de escrever Ollivetti ou Halda ficaram valorizadas. Os papéis diminuíram e muito caros. Todos os rascunhos foram aproveitados. Papel carbono, para cópias, era raro no mercado. No comércio em geral, passaram a utilizar o jornal velho para embrulhar as coisas.

As feiras de verduras se tornaram grandes feiras de troca. Tinha de tudo, até relógio de pulso movido a corda.

Os celulares eram abandonados nas mesas dos bares e serviam de brinquedos para crianças. Tinha até um jogo premiava quem atirasse o seu mais longe, no meio do brejo. Um artista plástico criou uma casa só destes aparelhos e gabinetes de computadores.

As bebidas fortes como cachaça, que não dependia da energia elétrica para a fabricação, voltaram ao mercado. O açúcar saiu da praça e entrou a rapadura no lugar. O café até ficara mais gostoso. Saíram os pães, roscas; as padarias estavam vendendo apenas biscoitos de polvilho e bolos de fubá do legítimo moinho d’água.

Aos poucos, os carros foram parando, quando acabava a gasolina.
Aqueles mais modernos, nem chegaram a funcionar, por causa dos circuitos elétricos. Estava até engraçado, os carros antigos valiam mais que os novos. Os Jipes ficaram, muito raros e caros, só os grandes fazendeiros os possuíam. Os antigos “Ferros Velhos” transformaram-se em “Ferros Novos”.

Criaram um óleo de mamona que fazia os veículos a diesel funcionarem perfeitamente, até os tratores.

Os jovens, agora sem internet, sem nada para fazer, sem shopping para visitar, foram plantar horta nos lotes vagos e acharam até divertido a nova distração. Os campos de futebol viraram currais para criação de ovelhas ou cabritos. Voltou o futebol de campinho de várzea.

Os astrônomos, ufólogos, jornalistas e outros correlatos foram plantar batatas ou fazer coisa melhor para sobreviver. Sobraram poucos cientistas, as profissões perderam o valor. Os professores estavam muito requisitados, mas o ensino era bem diferente.

(Continua, se eu sobreviver...)

Manoel Amaral

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