quarta-feira, 26 de agosto de 2009

OSVANDIR E O SEQUESTRO


“Há quem pense que, se não houver pedido de resgate,
não há sequestro.”
(Tonhão, bandido da favela Morro do Querosene)

Capítulo I
OSVANDIR SUMIU


Nem sempre acontece de haver pedido de resgate, num caso de sequestro, foi o que aconteceu com Osvandir.

Ele seguia em seu carro, tranquilamente, para a casa que alugara no Rio, de repente resolve mudar o itinerário e passar por outras ruas. Foi até o final de uma delas. Estava muito escuro, ouviu o roncar de um carro cantando pneus. Freou. Na sua frente um carro preto, na traseira um cor de vinho, parecia ser um Tempra.

Quando ele já ia descendo do veículo para saber do que se tratava recebeu um golpe na cabeça e caiu ali mesmo, não percebendo mais nada.

Os dois carros sumiram por aquela rua sem movimento. O do Osvandir ficou ali, a espera de qualquer pessoa para depená-lo.

Até apareceu mesmo alguém para tentar levá-lo, mas não conseguiu.

Nesse meio tempo já dirigiam a uma casa previamente alugada, para receber o sequestrado. Ao chegarem ao local, arrastaram aquele jovem para dentro de um quarto e fecharam a porta.
Esconderam os dois veículos na garagem, e ficaram aguardando o desenrolar dos fatos.

O que aconteceu lá dentro daquela casa só Osvandir poderia contar com suas próprias palavras:

“Eu acordei, com a cabeça sangrando, dois homens e uma mulher na sala conversando. Pedi um copo de água, o que veio rapidamente. No quarto uma janela fechada com cadeado e grade do lado de fora.”

“Já se passavam algumas horas e chegou um jantar em marmita. Tudo simples, mas bem limpo. Uma colher e um docinho de leite, envolvidos por um saco plástico”

“Comi, porque estava mesmo com muita fome e fiquei por ali observando alguma coisa. Notei que a casa mais próxima era bem longe, havia alguns lotes vagos. A cama era de casal, um armário do lado direito e o banheiro do lado esquerdo. Liguei o chuveiro, estava funcionando precariamente.”

“A mulher abriu a porta e entrou com alguns remédios para tratar do meu ferimento. Eles estavam apreensivos, pensavam que tinha um corte profundo, mas na realidade foi só de raspão, bem que mereciam alguns pontos. Ela pediu-me que deitasse com a cabeça virada para o lado da janela e começou o tratamento. Passou um medicamento, que imaginava ser para cicatrização e anti-séptico, uma espécie de merthiolate, mas genérico. Observei que a sua região pubiana era muito saliente. Imaginei até que fosse travesti, mas a fala era mesmo de mulher.”

“Após aquela ligeira limpeza e uma gaze em cima, fixado por um esparadrapo, fui deitar naquele colchão de casal. De madrugada ouvi alguns tiros, imaginei ser ali por perto. Deveria ser alguma briga de quadrilhas nos bairros.”

“Na manhã seguinte fui desamarrado para conhecer a casa. Um local para churrasco, lavanderia, banheiro, sala, cozinha, dois quartos e um lote muito grande, com muros bem altos. Pude observar que a construção era de boa qualidade e não estava situada em favela. Ao lado direito uma casa bem distante e ao lado esquerdo um lote vago. Gritar ali, seria tempo perdido.”

(Continua...)

MANOEL AMARAL

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