domingo, 31 de maio de 2009

OSVANDIR E OUTRAS HISTÓRIAS II

TRIÂNGULO AMOROSO

“Do meu amor brincalhão bobalhão
Que me disse adeus e foi embora”...
Sandra Mello-Flor


Todos o conheciam por causa de sua peculiaridade: era analfabeto e fingia que lia jornal, de cabeça para baixo!

Vivia na Fazenda dos Maias quando Tianinha era viva. Ajudava nas lidas da roça. Uma capina, uma roçada, destocar terra de arroz, arrancar feijão, cortar cana, levar e buscar bois no pasto; era com ele mesmo.

Apesar da sua aparência de bobalhão, ele sabia fazer as coisas direitinho.
Como apareceu por estas bandas não sabemos, o certo é que ele poderia ser mais um desses filhos abandonados por aí.

Contam-se que de certa feita um de seus patrões lhe arranjou uma bela namorada, moça fina, cheia da grana e prepararam até o casamento, mesmo sem noivado. Tudo documentado, de papel passado.

Prepararam a festança, mataram vacas, porcos, para churrasco, prepararam os salgadinhos e as bebidas. Não faltaram os docinhos. Até convite mandaram imprimir, tudo nos conformes.

João se enrolou todo como nó da gravata, abotoou a camisa até o pescoço, quando olhou estava errado. Passou a escova no paletó de casimira azul marinho para tirar o pó que era pouco, pois o terno era novo.

Pegou o cavalo e seguiu para igreja matriz, no caminho via flor em toda parte, era o amor que havia batido forte em seu coração.

Ao aproximar-se da praça, o cavalo começou a empacar, pois acostumado não estava com tanta gente. Até no barranco próximo da casa do Sr. José Amaral tinha gente. Do lado da casa da D. Vina o povo também estava aglomerado.

Teobaldo, que por coincidência significa INOCENTE LAVRADOR, veio de mansinho, após apeiar-se do cavalo, passando as rédeas para alguém acomodar o animal lá na rua do cemitério, próximo do córrego do Pinto.

Ao aproximar-se da porta central viu a beleza de sua noiva que ali já estava pois viera de carro.
João cochilou, suou, piscou o olho direito (tinha uma cacoete) e esperou o demorado final do casório.

Naquele tempo não tinha nada de beijar a noiva ao final do casamento, ela apenas segurava o braço do noivo e nada mais.

Recebeu cumprimentos na porta igreja, como em todos casamentos. Quando o povo terminou de abraçar o casal, apareceu um senhor muito bem arrumado, desceu do carro, cumprimentou o noivo, abraçou a noiva e levou-a para o seu carro.

Todos pensaram: "O casal vai para a Fazenda de carro".

Qual não foi a surpresa de todos pois isto não aconteceu. João não foi convidado para entrar no carro.

O carro, a mulher e o distinto Senhor sumiram da cidade. Foi aí que todos descobriram que João Teobaldo foi apenas uma peça de um triângulo amoroso!

Fonte: Livro: História de São Gonçalo do Pará

MANOEL AMARAL



O CAPETA



O capeta, o Demo, Demônio, Chifrudo, Gênio do Mal, Espírito das Trevas, Satanás, assim era chamado.

Os meninos morriam de medo quando as mães diziam:
_ Vou te entregar pro Beiçudo, não aguento mais suas traquinagens.

Não só as crianças, mas na década de 40 e 50 até os adultos sentiam um friozinho ao lembrar-se do Belzebu, do Lúcifer, do Gênio das Trevas, ou Anjo mau.

O Anjo Rebelde, Bruxo do Inferno, Cão-Tinhoso, Pé-de-pato, Rabudo, Sarnento, eram os nomes que as famílias bem conheceriam e usavam comumente no linguajar diário.

Ao pronunciar qualquer um desses nomes todos tremiam e as histórias eram as mais terríveis.
Tinha uma em que o Anjo Decaído era bonito e chegou até a tirar uma moça para dançar, num baile na zona rural, queria namorá-la e casar-se, está no cancioneiro popular.

Tempo ruim era associado ao Maligno, até peste de aves ou animais era coisa do Coisa Ruim.
O Tinhoso estava presente em tudo, até nas festas religiosas

Fonte: Livro: História de São Gonçalo do Pará

MANOEL AMARAL

Um comentário:

  1. Oi. Osvandir, blz?
    Muito legal esta histórias de São Gonçalo do Pará.

    Esta do noivo é interessante. Ele casa e outro faz a lua de mel.
    resta saber se ela engravidar, quem será o pai. rsrsrsrsrs

    O legal das cidades do interiorsão de Minas, é que existem muitas histórias para contar.
    Pena que estão sendo esquecidas.
    Esquecidas porque a Cultura que as mantém, está envelhecendo e não tem para quem contá-las, ou que queira ouvi-las.

    Tem algumas que meu pai contava, que passarei depois para vc, por e-mail.
    Eram tantas, mas a medida que deixávamos de ser crianças, vamos esquecendo,e hoje, sem os antigos para contarem, ficaram perdidas para sempre.

    Abraços e tudo de bom para vc

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