quinta-feira, 21 de maio de 2009

OSVANDIR E O BENZEDOR

AGUARDENTE, FEITIÇOS E ENCANTOS

“Naquela noite sombria Osvandir só
tinha como companhia o medo”

Naquele dia parece que tudo ia dar errado. Era mês de agosto. O céu cinzento pela fumaça das queimadas, sem presença de chuvas.

Aquele ar parado, quase nenhum passarinho a cantar, apenas as corujas denunciavam um mau agouro, arriscando um pio noturno.

Alguns urubus percebiam carniça, descendo em voo espiral.

Lá para os lados da Catumbeira o fogo engoliu todo canavial.

No engenho, o carro cheio de cana caiana, com quase uma tonelada de peso, desprendeu-se da orelha do cabeçalho do carro de bois, num movimento brusco da junta de bois, a chaveta foi em cima do dedão do pé do Sr. Antonio e quase o partiu em dois.

Os tanques de garapa azedaram. Nova tentativa e nada! Sem líquido para alambicar, não haveria cachaça para vender.

Alguém lembrou:
__ Só pode ser feitiço!
__ Deixa de bobagem, gente! É pura coincidência, retrucou o tio de Osvandir.

Até a Joana, benzedeira afamada, foi lembrada, pela fama de fazer feitiços e encantamentos.

No meio do azarão que corria por aquelas bandas, até o caçulinha da família sofreu uma queda de um cavalo e acabou quebrando um braço.

Corre daqui, corre dali e alguém citou um conhecido benzedor que morava em outra cidade.

Januário, muito conhecido na região, era procurado por gente de toda parte, para solução de suas doenças, falta de dinheiro e todos tipos de problemas.

Tudo ficou acertado: o Joaquim ou o José, iriam aquela cidade buscar o benzedor.

Um dia se passou na fazenda e os fatos continuavam acontecendo. Um enxame de maribondos grandes e pretos atacou a boiada. O Veludo, o mais famoso boi de touradas da cidade, também foi picado e desceu em disparada rumo ao ribeirão, escorregando no capim mumbeca, indo parar na lagoa, ficando apenas com os dois chifres branquinhos de fora d’água.

O homem da magia branca havia chegado e assim que pôs os pés na entrada da fazenda disse que sentiu um friozinho no corpo.

A primeira medida foi benzer os pastos contra bichos peçonhentos.

Sacou de seu velho embornal um crucifixo diferente, que chamava de Cruz de Caravaca e foi rezando:
__ Milagroso São Bento, fervoroso Servo de Cristo, pelo vosso poder afastai deste caminho todos os animais venenosos e peçonhentos.
__ São Bento, protegei-nos – responderam todos os acompanhantes.

Cada lugar da fazenda foi devidamente investigado.

Atrás do paiol foi encontrado um rolo de cabelo enterrado próximo de um velho pau de aroeira.

No brejo de onde vinha a água para o engenho uma garrafa com um líquido viscoso e verde também foi achada.

As orações continuaram:
__ Glorioso São Sebastião e São Jorge, São Lázaro, São Roque, São Benedito, Santos Cosme e Damião; todos vós bem-aventurados Santos do céu, que curais e aliviais os enfermos, intercedei junto ao Senhor Deus pelo servo Antônio, todos os seus filhos e netos. Vinde gloriosos Santos em meu auxílio. Fechem-se os olhos malignos, emudeçam as bocas maldosas, fujam os maus pensamentos e desejos.
__ Por esta Cruz serão todos defendidos, completou.

E por três vezes riscou uma cruz no chão, terminando com as seguintes palavras:
__ Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

E todos responderam:
__ Para sempre seja louvado.

O Carlinhos, que estava na época de namoro, não queria nada com rezas e benzições, lia na sala da sede da fazenda o livro “Como se fazer Amar”, de C. Anger, pequenos livros populares (livros de bolso), que eram comprados pelo reembolso postal por CR$20,00 cada um.

Entre os livros tinha os de passatempo e diversão de palavras cruzadas, outros de ocultismo e outros mais de mágicas e hipnotismo.

A coleção de Manuais Práticos traziam aquelas enrolações como: Fórmulas para Ganhar Dinheiro, Regras para Vencer na Vida e outras bobagens como 1001 Informações Úteis.

Na coleção de ocultismo tinha um livro que interessou ao benzedor Januário, era “O Verdadeiro Livro de São Cipriano”. Tínhamos alguns livros de poesia de J.G. de Araújo Jorge, que fazia sucesso na época e outro de Modelos de Cartas de Amor.

Mas o homem do surrado chapéu de lebre, nariz aquilino e terno de brim, continuava benzendo aqui e acolá. Quando se aproximava das 18 horas mandou acender sete velas e colocou para queimar folhas secas de palmeira ou coqueiro que foram bentas na última Semana Santa, no Domingo de Ramos.

No outro dia tudo foi preparado conforme orientação do homem que tentava desfazer os possíveis malefícios.

Os tanques de garapa, foram lavados com sabão de coco e caldo de limão capeta. As canaletas de madeira e metal que iam das moendas do engenho até aos tanques foram varridas das sujeiras e também lavadas.

Alguns litros de pinga contaminados também foram eliminados. Os barris foram limpos por dentro e por fora.

O primeiro teste foi um sucesso! Logo que a garapa desceu para os tanques, com 24 horas de descanso para a fermentação, tudo voltou ao normal.

O Joaquim ficou satisfeito ao ver as espumas nos tanques de fermentação, era sinal que o material para alambicação estava muito bom. Quando viu aquele líquido branquinho descer da serpentina, deu pulos de alegria. Daí a alguns momentos a nova pinga “Palmeira”, a preferida de todos, aparecia no fino cano de cobre, pronta para engarrafamento. A primeira, da cabeça, deu 21º (vinte e um graus), estava com ótimo cheiro e gosto.

Vários litros foram alambicados naquele dia, a título de experiência.

O Senhor Januário ficou em São Gonçalo por alguns dias, visitando amigos e parentes. Recebeu notícia que tudo voltara ao normal na Fazenda do Fumal.

Antes de seguir para sua cidade, o Benzedor foi consultado e procurado por muitas pessoas.

Benzeu gado à distância com uma velha oração, para preservar o gado ou rebanhos de pestes ou pragas.

Um negro velho queria oração para fechar o corpo, ele indicou a de São Jorge, contra inimigos, adversários e desafetos.

Numa parte desta oração dizia o seguinte: “Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge, para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me enxerguem e nem pensamentos eles possam ter para me faze mal. Armas de fogo ao meu corpo não alcançaram, facas e lanças se quebrarão, sem meu corpo chegar, cordas e correntes se arrebentarão, sem meu corpo amarrar. Estenda-me o seu escudo e as poderosas armas, defendendo-me com sua força e com a sua grandeza de poder dos meus inimigos carnais e espirituais...”

Uma mulher se dizia vítima de bruxaria e feitiçaria; o nosso solicitado mago disse para ela rezar a oração a São Cipriano:
__ Bem aventurado São Cipriano confio em sua sabedoria e bondade, venho implorar a vossa proteção contra quaisquer malefícios, bruxedos, invocações, necromancias, que os magos negros, feiticeiros ou feiticeiras, bruxos ou bruxas e adivinhos, homens e mulheres...

A partir daí não pudemos ouvir mais nada pois o José e o Joaquim gritavam lá na rua que era hora de voltar para a fazenda.

MANOEL MARAL

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