terça-feira, 18 de março de 2008

OSVANDIR E A SEMANA SANTA

Quando chegava março ou abril, o Osvandir ficava alegre, era época de arranchar na cidade: seu pai e seu tio Osmair alugavam casas por um ou dois meses e as mães vinham antes, com os filhos mais novos.

Era época de assistir, participar e comemorar a Semana Santa.
Começavam os preparativos para grande festa móvel, de acordo com calendário e a lua, também muito procurada pelas cidades vizinhas no longo feriadão.

A lua era cheia, a iluminação elétrica uma porcaria e tinha uma procissão, para a qual, mandavam apagar as luzes, era só clarão da lua e das velas.

Nas fileiras de acompanhamento das procissões, os homens iam do lado direito, as mulheres do lado esquerdo, nada de rapazes seguirem juntos com as garotas; os namorados também eram separados, os guardiões estavam lá devidamente uniformizados para fiscalizar tudo.

Os meninos pingando vela nos dedos e sujando a roupa.
Um acidente de percurso alvoroçou a meninada: uma menina descuidou-se e incendiou o cabelo de uma mulher que estava a sua frente na procissão.

O Vigário, em sua eloqüência, falava sobre a vida de Cristo e as mulheres em lágrimas, escondiam o rosto no véu branco.

Os barrancos eram poucos para o povo. A Praça do Jatobá estava lotada. As bananeiras do quintal do Senhor João serviam de abrigo contra o sereno da noite.

Nesses dias o comércio faturava muito, vendiam de tudo, para aquele povo faminto, que vinha da zona rural, tomar conta da cidade.

Na casa onde o pequeno Osvandir se hospedava via-se pregado na porta da sala, a oração "Breve de Roma" e uma folha com anotações de datas de aniversários da família: Mariquinha, 02 de janeiro; Joãozinho, 7 de julho...

No grande quintal, próximo à bica, um canteiro de macela e outro de cebolinha e salsa. Mais ao fundo, próximo do brejo uma plantação da cará. O cará substituía a atual batatinha, que era rara, produto de luxo, na época.

A beira de uma velha estrada tinha aquela lagoa para a meninada refrescar-se.
Na semana santa, o pai do Osvandir trazia do armazém do português bigodudo e bonachão, Sô Joaquim, uma caixa de bacalhau da Noruega e distribuía para as pessoas da família.

A caixa de madeira, normalmente de taboas pinho com belas listras marrons, era utilizada para fazer os troles das crianças, que viviam descendo e caindo pelas ruas com aquelas “maquinas quentes”, como diziam.

As crianças, nesses dias escutavam as velhas histórias de lobisomens, mula sem cabeça, saci pererê, sexta-feira 13, cemitério fantasma e morriam de medo do capeta.

Na rua principal da cidade um inveterado consumidor de álcool cantava:
“Muié num bebe desta pinga, que eu te dou uma saia preta,
Saia preta, curuz capeta, marido, eu quero é beber da pinga...”

Fim da festa agora era hora de recolher os trecos e voltar para a fazenda para mais um ano de trabalho pesado.

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