sábado, 1 de dezembro de 2007

SÉRIE: HISTÓRIAS DE FIM DE ANO

OSVANDIR CHOROU!

A D. Oldair, tia do Osvandir, foi quem nos contou essa história, baseada em fatos reais:
A família estava passando por muitos problemas; o marido desempregado por mais de um ano, seis crianças para cuidar. A filha mais velha, com apenas 11 anos já ajudava em tudo, naquele barraco emprestado por um vizinho de bom coração. A mulher de Joãozito foi internada para fazer exames, ficou sabendo que a coisa andava preta para seu lado: o primeiro exame constatou um tumor no seu seio direito. Retirado material para análise, ficou comprovado que era maligno.

Internada às pressas no Hospital do Câncer, para as primeiras sessões de radiação e logo os seus cabelos foram caindo. Isabelita foi visitá-la, mas foi impedida de entrar no hospital pela burocracia. “Crianças com menos de 12 anos não podem entrar”, repetiu o moço da portaria.

Como esperta que era, esperou um cochilo do porteiro e entrou, procurou o quarto 1313 e lá encontrou a sua pobre mãezinha entre aqueles equipamentos do hospital. Notou que ela usava um lenço amarrado a cabeça e perguntou: “Pra que isso mamãe?” A mãe disse que era parte do tratamento hospitalar.

Isabelita falou dos irmãos, todos sentiam a sua falta e do pai que cada vez bebia mais. Mas no meio de tanta notícia ruim apareceu uma boa, e aí Izabelita era só sorrisos: “vou começar amanhã num novo emprego, mamãe, vou vender doces e frutas na rodovia, pertinho daquele posto de gasolina.”

Noutra visita à mãe, dizia que estava ganhando o suficiente para levar alimento para os outros cinco irmãos e seu pai. A sua mãe pediu-lhe que abrisse a gaveta do móvel do quarto e retirasse a sua bolsa. Tentou recostar-se na cabeceira da cama, não conseguiu, pediu ajuda, as enfermeiras a colocaram na posição solicitada. Abriu a bolsa, pegou uma caneta e uma velha foto sua e do marido, escreveu, com as mãos trêmulas, uma mensagem no verso. Entregou a foto para Isabelita.

A menina saiu do hospital com aquela foto junto ao coração. Ao chegar a sua casa, pegou um lápis de seu irmão e também escreveu uma frase logo abaixo da que sua mãe escrevera.

Os dias foram passando rapidamente e Isabelita ali naquele ambiente nada bom para crianças, mas ela sabia se defender muito bem. Quando alguém tentava qualquer coisa, ela dizia: “antes de me fazer mal, pense em sua filha ou sua irmã”. E o resultado era impressionante, aquelas palavras, ditas com tanta simplicidade e inocência, atingia os corações das pessoas.

Ela ficou famosa no local, apareceu até numa reportagem sobre menores que trabalham nas estradas. Muitos que circulavam por ali conheciam a história de sua família e contribuíam independente de receber qualquer mercadoria.

Mas o tempo voava e a doença de sua mãe agravara, o câncer atingira várias partes do corpo. Debilitada, ela já não conhecia quase ninguém, os remédios sempre muito fortes a deixava dopada o dia inteiro.

Numa das visitas, nova confusão na portaria que não permitia a sua entrada. Com pena, outro porteiro, deixou a criança entrar. Isabelita pode ficar só alguns instantes com sua mãe. Ela estava pálida, da cor dos alvos lençóis do hospital. Conseguiu apenas levantar a mão direita parecendo dizer adeus.

Isabelita voltou para casa muito triste, colocou comida na mesa para seus irmãos e perguntou pelo pai, ninguém sabia onde ele estava.

No outro dia Isabelita levantou-se mais cedo, com vários pensamentos na cabeça, algo lhe dizia que vida de sua mãe estava no fim.

Correu ao hospital, mas não conseguiu entrar, ficou por ali observando até a tardinha, quando notou uma ambulância saindo. Procurou informações e ficou sabendo que aquele carro levava o corpo de uma mulher para o necrotério.

Aquela mulher fora enterrada em cova rasa, com despesas pagas pela Prefeitura local.

No outro dia Isabelita sumiu; ninguém tinha notícia dela, o irmão de nove anos esteve no seu ponto de trabalho e não conseguiu nenhuma informação.

Andando por uma vala da rodovia encontrou uma fotografia de sua mãe e de seu pai. Atrás da foto uma mensagem: “Isabelita querida, cuide bem de seus irmãos”.
Logo abaixo outra frase: “Pode deixar mamãe, vou cuidar bem dos meus irmãos e do papai.”

Um comentário:

  1. História muito bonita, quase chorei.
    Desse jeito o Osvandir vai longe.

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